Na Alemanha de 1930, Hendrik Höfgen é um ator ambicioso que não se interessa por política e se dedica somente à sua carreira. Mas, quando os nazistas tomam o poder, ele vê a oportunidade de interpretar peças de propaganda nazista para o Reich e acaba se transformando no ator mais popular da Alemanha. Ao vender a própria alma, Hendrik precisa sobreviver em um meio de moralidade duvidosa.

O filme Mephisto, nos mostra um momento da arte alemã marcado pela mudança na política nacional. A ascensão do partido nacional-socialista instaura um clima de insegurança na Alemanha, principalmente para aqueles que não se enquadravam no ideal nazista de uma raça pura. A perseguição a judeus, negros, comunistas e adeptos de políticas contrárias à estabelecida pelo partido de Adolf Hitler, levou ao exílio e até à execução dos mesmos, a fim de manter dentro da Alemanha apenas a raça ariana, “superior” aos outros povos biologicamente.

Na Alemanha nazista, a arte era um meio de promover e justificar a política de Hitler. As peças clássicas e românticas da Alemanha eram mais valorizadas, em detrimento das consideradas artes degeneradas, com ideais revolucionários. O uso das expressões artísticas como mecanismo de publicidade do governo é apresentado, no filme, através de uma exposição de artes plásticas e esculturas clássicas, em que a artista da exposição recebe a visita do primeiro ministro; e, também, pelo teatro, onde se desenvolve a história de Hendrik Höfgen.

Motivado por ideais bolcheviques, Hendrik tenta revolucionar os elementos tradicionais da arte cênica, ao montar um espetáculo fazendo uso da quarta parede, isto é, o espaço destinado antes somente à plateia, pretendendo tornar o público parte ativa na obra. Esta técnica ajuda a construir o que ele vai chamar de teatro revolucionário, em que, ele e seu amigo Otto, irão trabalhar em uma arte voltada para a política, priorizando o que é dito e não somente como é dito. O personagem afirma que o texto e o próprio ator são apenas elementos de um todo que é o espetáculo. Porém, sua vontade de crescer como ator o leva a Berlim.

Hendrik Höfgen alcança o sucesso com o público de Berlim após interpretar vários personagens até, finalmente, ser consagrado por sua atuação como Mephisto. O partido nacional-socialista é eleito e, diferentemente da maioria dos artistas do seu ciclo de amizades, Höfgen nega a opção do exílio e a revolução para se ocupar somente do teatro, acreditando que seria possível uma postura distanciada frente à política e aos acontecimentos. Com isso, perde sua esposa Barbara, que se exila em Paris; seu amigo Otto, executado; e até mesmo sua amante, a negra Juliette, exilada na França.

Quando o primeiro-ministro alemão afirma que, apesar de a máscara representar o mal em si, o ator apresenta olhar meigo e suave aperto de mão, sua conclusão é que este seria o segredo do ator: apresentar força quando é fraco. Como o jovem Fausto, que faz um pacto com Mephistófeles para conquistar a juventude eterna, em troca da sua alma, Höfgen aceita dirigir o Teatro Nacional Prussiano, para consagrar sua ascensão no meio artístico alemão, em troca da sua liberdade. Com isto, ele oferece ao nazismo sua autonomia artística e política, pois, ao aceitar o cargo no governo, é obrigado a esquecer de vez seus ideais revolucionários e pactuar com a cartilha nazista, além de promovê-la em sua totalidade. Seu final, bem como o do personagem de Goethe, não é o por ele esperado, pois sua alma será cobrada, não pelo Diabo, mas pelo regime nazista, na figura do primeiro-ministro que, não hesitará em cobrar sua lealdade ao regime.

A última frase proferida por Höfgen representa bem o seu personagem. “O que querem de mim? Eu sou só um ator”, simboliza o dilema de todo artista em regimes totalitários, que muitas vezes sacrificaram suas crenças políticas, religiosas e filosóficas em nome da própria sobrevivência. Mais que um filme sobre história, Mephisto é também uma obra que levanta questões éticas, políticas e morais.

O espírito deste Höfgen-Fausto, espírito que sempre nega, é a imagem literária de Goethe para o pensamento que caracteriza a Modernidade, o qual nega todo o existente com vistas ao novo, o ainda-não-existente, o melhor. E tão logo este surja e esteja dado, é por seu turno condenado como insuficiente, em nome de um inatingível estado de felicidade localizado sempre no futuro, de modo a logo ser obrigado a "perecer". Esse processo dinâmico da revolução política e econômica, que reúne em si os momentos da negação e inovação, caminha ad infinitum.

Vemos, deste modo como o filme pode, perfeitamente, ser utilizado para o ensino de filosofia no ensino médio, pois trata de temas clássicos, porém sempre atuais da filosofia, como arte, ética e a discussão sobre a virtude. Fica clara a potente capacidade de sensibilização do filme para tais questões, mas sempre lembrando que os temas não podem ser tratados de forma solta, como se o aluno retirasse da obra todas as compreensões naturalmente. Cabe ao professor dar a devida atenção e a devida contextualização, para que a aula não se torne um mero debate de opinião, sem um fim.