O filme Mephisto, 1981, de István Szabó, nos insere em um momento da arte alemã marcado pela mudança na política nacional. A eleição do partido nacional-socialista instaura um clima de insegurança na Alemanha, principalmente para aqueles que não se enquadravam no ideal nazista da raça pura. A perseguição a judeus, negros, comunistas e adeptos de políticas contrárias à estabelecida pelo partido de Adolf Hitler, levou ao exílio e até à execução dos mesmos, a fim de manter dentro da Alemanha apenas quem era filho legítimo da terra e digno dela, ou seja, a raça ariana, superior aos outros povos biologicamente.

Pode-se dizer que a Política de Estado nazista via a Arte como meio para justificar-se e promover-se. As peças clássicas e românticas da Alemanha são valorizadas em detrimento das consideradas artes degeneradas, com ideais de revolução, por exemplo. A guerra era apresentada como bela e, no caso, necessária para a motivação de execuções, em prol do regime, e a aceitação passiva da hegemonia alemã. Walter Benjamin, em Magia e Técnica, Arte e Política - A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, fala de conceitos aproveitados pelo fascismo, tais como criatividade e gênio, validade eterna e estilo, forma e conteúdo. Além disso, o autor vai afirmar que os esforços para a estetização da política vão convergir para a guerra. (BENJAMIN, 1985). Este uso das expressões artísticas como mecanismo de publicidade do governo é apresentado através de uma exposição de artes plásticas, esculturas clássicas, em que a artista da exposição recebe a visita do primeiro ministro, e, principalmente, pelo teatro, onde se desenvolve a história do personagem principal, Hendrik Höfgen.

Ainda em Hamburgo, motivado por ideais bolcheviques, Hendrik Höfgen, um talentoso e orgulhoso ator de teatro, tenta, como é mostrado em uma seqüência do filme de Szabó, revolucionar os elementos tradicionais da arte cênica ao montar um espetáculo fazendo uso da quarta parede, a saber, o espaço destinado antes somente à platéia observadora, com o intuito de tornar o público figura ativa na obra. Esta técnica é uma das utilizadas para a construção do que ele vai chamar de teatro revolucionário, em que, junto com seu amigo Otto, irá trabalhar em uma arte voltada para a política, priorizando o que é dito e não somente como é dito. O personagem afirma que o texto e o próprio ator são apenas elementos de um todo que é o espetáculo. No entanto, sua vontade de crescer como ator a fim de não mais ser o ator do público provinciano de Hamburgo, como se considerava Hendrik Höfgen, o faz aceitar um papel pequeno em Berlim.

Höfgen alcança o sucesso com o público de Berlim após interpretar vários personagens até, finalmente, ser consagrado por sua atuação como Mephisto. Ainda que, em Hamburgo, tivesse assumido uma postura antinazista frente à presença do ator Miklas, membro do partido nacional-socialista, e exigido de sua noiva, Barbara Bruckner, uma postura política mais rígida nas suas atitudes, tendo em vista a ameaça de o nazismo alcançar o poder. Diferentemente da maioria dos artistas do seu ciclo de amizades, Höfgen nega o exílio e a revolução para se ocupar somente da sua arte, o teatro, acreditando que seria possível, se reservar, se colocar distante da política dentro dele, indiferente aos acontecimentos. A chegada dos nazistas ao poder através das eleições não o fez desistir do teatro ou de sua pátria. Com isso perde sua esposa Barbara, que se exila em Paris, seu amigo Otto, executado, e até mesmo sua amante, negra, Juliette Martens, exilada na França.

A encenação de Mephistófeles o leva até o camarote do primeiro-ministro, onde ocorre um diálogo que resumiria a ligação do filme com a obra de Goethe. Quando o representante do governo nazista afirma que apesar da máscara representar o mal em si, o ator apresentava olhar meigo e suave aperto de mão, sua conclusão é de que este seria o segredo do ator, apresentar força quando, na verdade, é fraco. Contudo, ao tentar entender o filme através do conhecimento da obra literária de Goethe, podemos observar que a fraqueza do personagem de Höfgen se aproxima da trajetória de Fausto, que faz um pacto com Mephistófeles, o próprio Diabo, para conquistar a juventude eterna, em troca da sua alma. Tal pacto é visto no filme quando o nosso protagonista aceita dirigir o Teatro Nacional Prussiano, para consagrar sua ascensão no meio artístico alemão, em troca da sua liberdade. Com isto, Höfgen entrega ao nazismo sua autonomia artística e política, pois, ao aceitar o cargo no governo, é obrigado a esquecer de vez seus ideais revolucionários e pactuar com a cartilha nazista, além de promovê-la em sua totalidade. Seu final, bem como o de Fausto de Goethe, não é feliz, pois sua alma será cobrada, não pelo Diabo, mas pelo regime nazista, na figura do primeiro-ministro que, não hesitará em cobrar sua lealdade para com o regime.