1. INTRODUÇÃO

É possível amar alguém que você nunca viu? Essa é a pergunta da capa do filme. Trata-se de uma questão metafísica sobre o amor. Por isso, o filme A Casa do Lago foi escolhido para esse trabalho final de conclusão de disciplina. A temática filosófica do amor será tratada a partir de textos clássicos de Platão.

2. SINOPSE DO FILME

O título original do filme é The Lake House, traduzido como A Casa do Lago. Trata-se de um filme americano, classificado como drama/romance e livre quanto à idade, lançado em 2006 nos EUA e no Brasil. O filme foi produzido pela Warner Brothers e dirigido por Alejandro Agresti. Tem duração de 99 minutos.

Kate Forster (interpretada por Sandra Bullock) é uma médica que morava numa casa à beira de um lago. Ela passa a trocar cartas de amor com o novo morador da residência, o arquiteto Alex (interpretado Keanu Reeves). No entanto, percebem que existe um espaço de tempo que atrapalha o amor entre os dois. Percebendo a aura de mistério em torno da troca de cartas, eles tentam driblar o tempo para que, finalmente, a hora certa para que se amem chegue.

3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

No Banquete escrito por Platão (2007), Agatão teve premiada uma tragédia. Para festejar o prêmio, amigos são convidados à sua casa para um banquete (festa em que os homens gregos se reuniam para beber, comer, ouvir música, dançar e conversar).

Fedro é o primeiro a discursar. Ele afirma que Eros deve ser louvado e honrado como um dos mais antigos deuses. A prova disso é que ele não teve pai nem mãe. O que orienta os homens a ter uma vida honesta é o amor. As ações boas estão ligadas ao amor. Sem o amor, o homem não pode realizar o bem e o belo. Fedro nos diz que um soldado nunca fugiria da batalha temendo que seu amado o visse, preferindo morrer na batalha a abandonar seu amado. Por isso, Eros inspira coragem e torna os homens honrados. Só morre pelo outro quem verdadeiramente ama.

Em seguida, Pausânias realiza seu discurso. Ele afirma que existem vários Eros, e não apenas um. Realiza uma defesa do amor ao espírito e não ao corpo, considerando este último vulgar. O amor pelo corpo acaba, pois o corpo envelhece. Sendo assim, o amante esquece as declarações e juras de amor que tinha feito. Mas aquele que ama uma bela alma permanece fiel a vida toda, pois ama um objeto duradouro.

O terceiro a discursar deveria ser Aristófanes, mas começou a soluçar sem parar. Ele pediu que Erixímaco o ajudasse como médico ou falasse no seu lugar até o soluço parar. Erixímaco inicia seu discurso pela medicina, a fim de que ela seja a primeira a ser louvada. A natureza dos corpos possui dois Eros, pois é evidente que o sadio e o doente apresentam diferenças e oposições entre si. E as diferenças e oposições se amam e desejam. Isto é, se atraem. Um Eros, portanto, reina sobre o são e o outro Eros reina sobre o que é doente.

É belo e conveniente dedicar obediência ao que é bom e são no corpo. E isso é fazer medicina. E é feio e pernicioso render submissão ao que há de mau e doentio no corpo. É contra isso que o médico luta. A medicina é a ciência do amor nos corpos. Aquele que suscita o aparecimento de amor onde não havia amor e também elimina um amor pernicioso, esse é um bom médico. O Eros se manifesta com todo o seu poder e nos proporciona uma felicidade perfeita quando buscamos o bem pela via da sabedoria e da justiça.

Logo após, Aristófanes faz seu discurso elaborando uma relação entre a natureza humana e a ação de Zeus. Para Aristófanes, Zeus resolveu cortar os homens pela metade. Assim ficariam mais fracos (apenas com 2 braços e 2 pernas) e mais numerosos (maior quantidade de humanos para servir aos deuses). Assim, seccionada a natureza humana, cada uma das metades pôs-se a procurar a outra. Quando se encontravam, se abraçavam e se entrelaçavam num desejo de novamente se unirem para sempre. E separadas não queriam mais fazer nada. Separadas as partes tendiam a morrer. Foi então que Zeus pensou uma solução para evitar a morte da humanidade. Ele colocou os órgãos genitais na frente e estabeleceu a procriação entre homem e mulher. E quando homens e mulher se encontravam havia procriação e a humanidade aumentava.

É daqui que se origina o amor que as pessoas sentem umas pelas outras. E esse amor tende a recompor a antiga natureza, procurando os dois se tornarem um só, e assim restaurar a antiga perfeição. Cada um de nós é a metade de alguém. E por isso estamos sempre buscando nossa metade na vida. A humanidade encontraria a perfeita felicidade se cada um encontrasse o seu próprio amor, voltando-se para o estado natural.

Por fim, Agatão faz seu discurso e foi longamente aplaudido pelos outros e Sócrates, virando-se para Erixímaco, lembrou-lhe que, desde o início do banquete, assegurara que o jovem poeta faria o mais belo discurso, nada restando depois a ser dito. Erixímaco, porém, não aceitou a recusa de Sócrates de não fazer um discurso.

Sócrates diz que procura um discurso que diga a verdade sobre Eros. Não a eloqüência, mas a verdade. Com essas palavras, Sócrates mudará o sentido e a finalidade do discurso sobre o Amor. Ele buscará a essência do amor.

Sócrates, no Banquete narra o diálogo que teve com Diotima (mulher sábia nas coisas do amor). Ele era muito jovem e ela o questionava e o conduzia até a essência do amor. À medida que Diotima perguntava e Sócrates respondia, chegavam mais perto da essência do amor. Diotima diz que Eros não é um deus, não é belo, nem bom e nem é mortal. Ele também não é feio nem mal. Não é mortal nem imortal. Eros é um daímon, um intermediário entre deuses e homens. Ele cria laços entre os deuses e os homens. Não sendo um deus, nem um tolo, ele ama a sabedoria. Se fosse um deus, não poderia amar a sabedoria, pois não se ama o que já se possui. Se fosse um tolo, ele se julgaria perfeito e completo e não poderia desejar aquilo cuja falta não pode notar.

Eros é o desejo. É carência em busca de plenitude. Eros ama. O que ama o amor? O que dura, o perene, o imortal. Ama o bem, pois amar é desejar que o bom nos pertença para sempre. Por isso Eros cria nos corpos o desejo sexual e o desejo da procriação, que imortaliza os mortais. Como participar do objeto do desejo/amor? Pelo conhecimento. Por isso o belo reside na alma e podemos contemplá-lo através das ações, dos discursos, dos pensamentos, em suas qualidades de inteligência. Assim, no coração da alma imortal anuncia-se o perfeito imperecível: a beleza do saber, a manifestação do logos, a ciência.

Eros é desejo de saber. Na contemplação da beleza/bondade (da idéia do Bem e da Beleza) os humanos alcançam a ciência e o saber, por meio do qual concebem e dão nascimento às virtudes e por meio delas se tornam imortais.

Eros nos faz desejar as coisas belas. Amando a beleza interior, Eros nos faz desejar as almas belas. Para Platão, não se trata do amor sensível, empírico, material ordinário, mas do amor transcendente. O amor para o autor supera o que chamamos empiricamente de bonito ou feio. Para Platão, o amor é um desejo de imortalidade.

A relação entre o Belo, o Amor e o Conhecimento no Banquete se relacionam de forma que podemos afirmar didaticamente:

a) O belo tem um sentido metafísico, ontológico. O belo é a marca do mundo superior, da idéia. É o caminho que nos leva a verdade, a realidade, ao inteligível. Leva-nos a contemplação do mundo superior.



b) O amor é entendido numa relação. O amor é “amor a algo”. O amor é o “desejo de algo”. O amor é o desejo de “algo que não se tem”. O amor é uma “falta”. O amor é uma busca por “algo que não se tem”.

c) O amor não é apenas o desejo de posse por uma pessoa, mas o desejo de conhecimento. Aquele que deseja a sabedoria, não a deseja de forma provisória, mas de forma eterna. O desejo de imortalidade é o sentido do amor.

d) O primeiro amor é o amor pelos corpos belos e a partir daí uma ascese. Depois de se amar a beleza desse corpo, se passa a amar a beleza da alma desse corpo. Da beleza física se passa, portanto, para a beleza espiritual, mais elevada. Quando se ama o conhecimento em si, a pessoa se torna um filósofo e amará a beleza em si. O filósofo deve amar o espírito dentro da pessoa e depois o espírito em si. No Banquete, Platão (2007) valoriza o corpo físico para o início da ascese. Na Apologia a Sócrates, ele não valoriza o corpo físico, ao se alegrar por finalmente poder se livrar desse corpo físico que o impede de chegar ao conhecimento verdadeiro.

e) Em Platão, o Amor (Desejo) buscará a Beleza. Qual a melhor forma de alcançar tal beleza? Sócrates responde que Diotima a convenceu que para alcançar esse bem, o melhor auxílio é Eros, o amor.

4. CONCLUSÃO

O Banquete de Platão é um texto muito rico que trata do amor. Ele pode ser utilizado no ensino médio de filosofia para que os alunos possam compreender os diferentes discursos e concepções estabelecidas sobre o amor. Fedro é o primeiro a discursar, em seguida Pausânias. Erexímaco é o terceiro a discursar. Deveria ser o quarto, mas foi o terceiro por causa dos soluços de Aristófanes. Depois deste, Agatão realiza o seu discurso. Por fim, Sócrates apresenta o conceito filosófico do amor, através de seu método dialógico-dialético. É interrompido por Alcebíades, mas consegue finalizar o diálogo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PLATÃO. Banquete. Tradução de Jean Melville. São Paulo: Martin Claret, 2007.

ADAPTAÇÃO PARA O ENSINO MÉDIO

Pequeno texto sobre o filme escolhido para servir de orientação à discussão no ensino médio, de duas laudas no máximo.

Várias concepções filosóficas ou temáticas podem ser tratadas a partir desse filme. O “tempo” seria um ótimo tema. No entanto, queremos nos concentrar no “amor”. O filme trata de um amor incondicional entre um homem e uma mulher, mas impossibilitado pelo tempo cronológico. Iremos nesse trabalho recorrer ao Banquete

Platão (2007) conta que Agatão teve premiada uma tragédia. Para festejar o prêmio, amigos são convidados à sua casa para um banquete (festa em que os homens gregos se reuniam para beber, comer, ouvir música, dançar e conversar). Sócrates diz a todos que procura um discurso que diga a verdade sobre Eros. Não a eloqüência dos discursos anteriores, mas a verdade.

Com essas palavras, Sócrates mudará o sentido e a finalidade do discurso sobre o Amor. Ele buscará a essência do Amor. Sócrates narra o diálogo que teve com Diotima (mulher sábia nas coisas do amor). Ele era muito jovem e ela o questionava e o conduzia até a essência do amor. À medida que Diotima perguntava e Sócrates respondia, chegavam mais perto da essência do amor. Eros é o desejo. É carência em busca de plenitude. Eros ama. O que ama o amor? O que dura, o perene, o imortal. Ama o bem, pois amar é desejar que o bom nos pertença para sempre.

É exatamente esta questão que se coloca no filme. Um amor que transcende o tempo cronológico. Diotima diz a Sócrates que a natureza mortal procura eternizar-se e imortalizar-se. Quando algum ser humano deseja procriar pela alma, ele sai à procura. Se ele encontrar uma alma bela, nobre e bem formada, irá se apaixonar, ele irá amar. Em permanente contato com o belo, ele dará à luz aquelas coisas que estavam dentro dele há tempos.

O homem poderá, assim, conhecer a beleza que não se apresenta no rosto ou no corpo, nem na palavra, nem na ciência, nem no céu, nem na terra. Ele conhecerá a beleza que existe em si mesma e por si mesma, sempre idêntica, e da qual participam todas as demais coisas belas. Essa beleza jamais aumenta ou diminui, nem muda. É uma beleza suprema e perfeita.

Qual a melhor forma de alcançar tal beleza? Sócrates responde que Diotima a convenceu que para alcançar esse bem, o melhor auxílio é Eros, o amor. Por isso todos os homens devem reverenciar Eros e não podemos deixar de louvá-lo. Quando Sócrates acabou de falar, todos os presentes aplaudiram-no com entusiasmo.