O filme relata a história de um ator de teatro chamado Hendrik Höfgen, elucidando a relação que ele estabelece com o teatro e com a política. Hendrik é um ator provinciano que deseja alcançar o sucesso e mudar a maneira tradicional de fazer teatro, onde, baseado nos seus ideais comunistas, insere o público na peça teatral.

 

Completamente contrário aos ideais do partido nacional socialista, procura utilizar o teatro para emancipar seus ideais igualitários e inovadores. Nos ensaios de uma peça conhece Bárbara Bruckner, e algum tempo depois se casa com ela. Bárbara é uma mulher da alta sociedade e que possui importantes relações políticas. Ao longo do tempo Hendrik decide deixar o teatro provinciano e tentar um espaço no teatro da capital; já que procura sempre se realizar artisticamente, e não vê no teatro provinciano o reconhecimento que realmente merece diante do seu talento. Essa oportunidade surgirá devido às relações políticas de seu sogro, que consegue encaminhá-lo ao teatro de Berlim, um dos mais importantes da Alemanha. Apesar da inicial pequena participação Höfgen conquista seus espaço e reconhecimento.

 

Durante a crescente popularidade de Höfgen, o nazismo ascende ao poder. É então que todo o desejo de mudança do teatro assume um papel secundário nas intenções do ator. Já que Höfgen se sente inseparável da sua arte, colocando esta ligação acima de qualquer outro fator, mesmo que para isso tenha que se sujeitar a situações e opiniões contrárias a sua personalidade, e as verdades que até então defendia.

 

Com o estabelecimento e difusão dos ideais nazistas (que influenciou grande parte do povo) muitos artistas e pessoas que possuíam concepções diferentes do nazismo e vida fugiram para outros países da Europa, visto que sofreriam toda a repressão e punição por parte do governo. É neste momento que Bárbara foge para a França querendo que o mesmo fosse feito pelo seu marido. Höfgen que encenava uma peça fora da Alemanha, não só não aceita a proposta de sua mulher como, aceita um convite para retornar a Alemanha. Apesar de todo temor de encarar uma Alemanha nazista, seu instinto artístico, como sempre, se sobrepõe.

 

É interpretando Mephistópholes em uma de suas peças mais conhecidas: FAUSTO de Goethe, que ele conhece um general nazista que passa a apoiá-lo artisticamente. Logo, toda sua “voz” é suprimida, já que para garantir este apoio ele esconde suas verdadeiras opiniões, além do medo da repressão que pode sofrer. Hendrik cede, aparentemente, aos ideais nazistas, e passa a ser um importante representante desses ideais.

 

Um dos exemplos dessa sua total submissão ao novo governo se demonstra nas suas atitudes e na própria relação de tortura que ele estabelece consigo mesmo devido a sua covardia. Com o passar do tempo o general o convida a ser Diretor do Teatro Nacional.

 

Abandonado pela mulher que havia fugido para França, e já ocupando um papel importante na história da arte alemã, casa-se novamente agora com uma alemã “pura”. Sendo essa mais uma jogada política para se estabelecer na sociedade e manter o apoio que até então possuía do general nazista.

 

De maneira inesperada, apesar de já ter sido humilhado pelo próprio general, é surpreendido pelo mesmo a fazer um passeio e conhecer o principal teatro da Alemanha. É neste local que termina o filme, onde ao centro do teatro cercado por vários holofotes, e por vários militares, encerra perguntando “O que mais vocês querem de mim, sou simplesmente um ator?”. O que nos faz entender que teve sua morte “iluminada” por aquilo que tanto buscou: a arte.

 

 

 

CRÍTICA

 

(relação política, arte e filosofia)

 

 

 

Podemos a partir deste filme levantar diferentes tematizações, ligadas ao personagem em si e as suas atitudes diante daquilo que afirma e daquilo que faz. E uma tematização que demonstra de maneira mais generalizada a importância da arte e a relação que ela estabelece com a política, a filosofia e o meio social.

 

Se pensarmos em relação ao personagem, percebemos como a relação de Höfgen com o teatro é obsessiva, e como ele é capaz de qualquer coisa, apesar de certas tentativas de mudança, para manter essa conexão. Todo seu amor pela arte ultrapassa os limites do orgulho e de suas verdades. Onde podemos pensar na questão do quanto somos capazes de abdicar de nossas verdadeiras opiniões por outras necessidades que acreditamos possuir. E o quanto nos entregamos a essas necessidades, para não percebermos que estamos nos traindo de alguma maneira. Pois apesar dele afirmar “nós (atores) somos o exemplo” que tipo de exemplo ele pode ser para os outros quando ele se esconde de si mesmo. É neste ponto que relacionamos a relação do Höfgen com o papel que ele interpreta na peça de Fausto. Onde se analisarmos de maneira cuidadosa, perceberemos que ele não é o mephistópholes como o general o chama, mas sim o Fausto. Pois é ele quem, metaforicamente, vende sua alma para alcançar seus objetivos. Ou seja, ele representa aquele que abdica de suas verdades, entregando-as ao verdadeiro Mephistópholes que é representado pelo general, melhor ainda pelo nazismo. Sem perceber que a qualquer momento este que te oferece a oportunidade, será o primeiro a destruí-lo.

 

Como se pode perceber, a arte assim como a política e a filosofia representam um grande papel quando relacionado ao meio social. Já que elas são formas de construção de opinião e expressão de características de um meio. E por terem a grande capacidade de alcançar o público, mudando muitas vezes suas concepções de vida. Ao mesmo tempo notamos o caráter peculiar que a arte possui a partir do momento que ela se submete a determinadas concepções filosóficas ou políticas, o que acontece no filme Mephisto. Esta arte teria um papel diferente daquele afirmado por Kant (arte pela arte), onde ela se torna uma mediadora de concepções, que muitas vezes estão em desacordo com as dos próprios artistas.

 

Aqui entra em relevância uma questão muito discutida pela própria filosofia, de qual seria exatamente a função e o objetivo desta arte. Questão que ainda divide muitos pensadores.

 

Um dos exemplos que o filme apresenta, onde a arte se torna um instrumento da política é quando Hendrik utiliza a peça de Shakespeare, HAMLET como uma forma de divulgação e representação das concepções nazistas. Fatores que nada se conectam ao verdadeiro HAMLET. Onde se torna função do artista vestir diversos papéis, representando, no caso de Hendrik, personagens não só para o seu público, mas também para si mesmo. Já que ele precisa apoiar-se no fato de que aquilo que encena não é o seu eu, mas simplesmente aquilo que sua arte o permite fazer. Visto que ele se encontra preso em seu talento e como diz “em sua nação e em seu idioma”.

 

Torna-se então contraditório o limite que a arte lhe impõe, com a ilimitada forma expressiva que ela possui.

 

A partir dessa pequena análise podemos nos perguntar, o que é a máscara da ARTE. É a sua representação metafórica da realidade, ou é a sua capacidade de adaptação possível mediante a necessidade? E se será possível existir uma arte desconectada da política e filosofia que prevalece em determinada época e cultura.