1.1-Introdução:

“A Fita Branca” é um filme que se apresenta num cenário histórico nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, onde iremos observar uma Comunidade rural e protestante com isso subitamente começam a suceder crimes sem explicação óbvia. O filme conta à história de uma aldeia ao norte da Alemanha, por volta do ano de 1913. Começa com o estranho acidente de um médico rural, cujo cavalo tropeça num arame quase invisível de tão fino. Sucede-se a esse acontecimento uma porção de outros, cada vez mais aziagos. O que pode haver por trás desses acontecimentos, acionados por uma queda do cavalo? Parece haver uma conspiração no vilarejo, talvez residindo nos recônditos da floresta. Talvez no seio da família protestante alemã.

A vida na aldeia é tal qual a descrita por Hawthorne em A letra escarlate. Todos se conhecem e tudo é levado “à praça e ao terreiro”. A igreja, representada pela figura rigorosíssima do pastor protestante (Burghart Klaussner), é o epicentro da opressão e da hipocrisia. As crianças vivem sob um regime quase feudal, mas Haneke não as deixa do lado de fora do time dos suspeitos. Todos recebem uma coloração mais ou menos maligna, sobretudo os aparentemente ingênuos. Os personagens vão desfilando diálogos enxutos e sempre absolutamente necessários à construção de uma relação simbiótica com o público, que facilmente se vê enredado e partícipe de toda a trama.

Narrado em primeira pessoa pelo professor de canto da igreja (Christian Friedel), o filme de Haneke é uma grande metáfora da primeira grande guerra mundial (1914-1918). O diretor austríaco parte da aldeia para alcançar as relações internacionais, até o estopim da primeira guerra, quando o herdeiro do trono da Áustria, o arquiduque Francisco Ferdinando, é assassinado. É válido, mas não imprescindível, conhecer, de antemão, o processo histórico da Europa, à época em que a história acontece. Eu já não lembrava mais de nada referente à Áustria da primeira metade do século XX, e só em casa, consultando esse estranho objeto chamado livro, é que fui me sentindo mais à vontade para pensar sobre a alegoria criada por Haneke, que assina o roteiro. O final tchecoviano do filme é “corrigido” pelo público, com as informações de que dispõe, dos fatos. E Haneke chega à aldeia pela família, via igreja. Está formado o exército da Tríplice Entente, capitaneada pela França.

A fita branca do título é uma representação da pureza, segundo o próprio pastor, pai severo ao extremo. Depois de dez vergastadas em cada filho, por uma suposta falta grave, põe uma fita branca no braço do filho mais velho e da filha Klara (Maria-Victoria Dragus), a mais velha dentre todos os rebentos. Antes, explica aos filhos o sentido da fita: a busca da pureza de seu tempo. Que os filhos não deixem de pensar no bem e no arrependimento, a cada olhadela à fita branca, em seus braços.

A história caminha lentamente, e talvez incomode o público dos blockbusters. Acontece que Haneke, formado em teatro, filosofia e psicologia, é do time dos grandes observadores da história do cinema. Seus planos são preciosos, precisos, quase palpáveis. Tudo em uma tomada de Haneke é concreto e reduzida ao essencial. O movimento de câmera é mínimo, quase nulo. O mais é pura arte de dirigir atores e cenas. É teatro em seu meu melhor momento, com o que pode haver de menos tecnológico em sétima arte. Uma história com começo, meio e fim, cheia de reviravoltas – lentas, não vertiginosas, como num thriller de suspense – e personagens minuciosamente construídos, sustentando um roteiro que preza pelo detalhe, mais que pelo todo, embora o todo se realize perfeitamente bem, até o último segundo, como numa sonata vienense nascida em Bonn.

1.2-Sinopse do Filme:

De Michael Haneke, filme é o vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes 2009. Participou do Festival do Rio 2009 e da 33ª Mostra de Cinema de SP. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, estranhos eventos perturbam a calma de uma pequena cidade na Alemanha. Uma corda é colocada como armadilha para derrubar o cavalo do médico, um celeiro é incendiado, duas crianças são seqüestradas e torturadas. Gradualmente, estes incidentes isolados tomam a forma de um sinistro...

1.3-Premiação: Detentor da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes de 2009, vencedor do Globo de Ouro de 2010 para filme estrangeiro, A Fita Branca, rodado em alemão e em preto e branco, concorre ainda ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Fotografia deste 2010. Espero, sinceramente, que o Oscar mereça.

1.4-Gênero: Drama

Distribuidora: Imovision

Ano: 2009

Origem/Classificação do filme: Cinema Alemão

Direção: Michael Haneke

Produção: Michael Katz

Roteiro: Michael Haneke

Duração do filme: 2 hora(s) e 24 minuto(s)

Estúdio: Imovision

Fotografia: Christian Berger

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1.5-Fundamentação Teórica:

Para Fundamentação teórica do Filme devemos entender que Alemanha que encontramos às vésperas de 1914 não me parece ser um paraíso perdido, que viria a ser maculado pelo nazismo. A barbárie e a perda da humanidade já faziam parte daquele mundo. Mas o ano de 1913, especificamente, marca a primeira grande ruptura cultural no país (poucas décadas após a Unificação Alemã, onde diferentes estados germânicos se juntaram numa só nação, sob a égide do estadista prussiano Otto Von Bismarck). Por isso, eu precisava resgatar aquele período. Ele era essencial para a motivação: flagrar a gênese do mal. Naquela época, um antigo regime, guiado por Deus e por práticas autoritárias, ainda funcionava. Mas começavam a voar os primeiros estilhaços dessa estrutura política.

Com isso podemos utilizar a perspectiva de Nietzsche e Dostoievski para compreender o cenário histórico apresentado pelo filme investigando valores éticos e morais construídos entre os personagens.

Tentaria relacionar com o universo paralelo vivido pelo homem do subsolo descrito por Dostoievski e que se encontra adormecido, ou mesmo revelado da forma mais sutil em cada um de nós. Para os conservadores e conformados, esse homem inexiste em si mesmo, na medida em que ele não possui algumas das virtudes almejadas pelos “homens da superfície”. A essência de suas ações o caracteriza como não possuidor: do bom caráter e da moralidade. E muito pelo contrário, esse homem nos aparece como possuidor das maiores incongruências que um homem pode ter. Sua teimosia o leva a cometer atitudes que o deixam em situações completamente constrangedoras, simplesmente por sua incapacidade de se dominar; sobretudo, ele se contraria o tempo inteiro. Constituindo-se assim como o homem moderno e suas contradições.

O homem, sendo feito a partir de vários eus, oscila em achar que é sem caráter e inteligente. A idéia metafórica de que o muro é a própria razão é o resultado da compreensão limitada [2+2=4 (ciência)]. A contemporaneidade faz critica a razão clássica com suas noções limitadas de consciência quase dogmáticas com leis da razão e da verdade. Com o além-muro vieram a razão sensível, o mundo palpável e uma razão ampliada, com transgressões das leis e idéias absurdas com suas ambigüidades que se constituem a partir de suas contradições. O que fazemos não é nada além de falarmos, teorizarmos e o que fazemos não é nada mais do que sair “do oco ao vazio”. Esse homem do subsolo faz a afirmação de si através da negação de si, fundamentando sua moral que é diversa e depende do contexto.

A Humanidade do século XIX:  para ele o homem inteligente do século XIX é moralmente obrigado a ser sem caráter. Os homens de pensamento produzidos por essa sociedade são de consciência hipertrofiada. E são possuidores da consciência do inevitável da própria condição — “viver a vida, apesar da vida”. Esse homem é de consciência, a partir dos primórdios da arte da engenharia que é adquirida sobre conhecimentos científicos dando-os o que a razão possibilita em termos de pensamento, como a fórmula dos “dois mais dois são quatro”. Ela se estabelece com o intuito de se atingir um objetivo, por que qualquer fórmula científica consiste no processo de se atingir alguma coisa funcional ou não. E é por isso que o homem racional desse século e dos séculos subseqüentes a ele se encontra mais perto da morte. A idéia de criação e de continuidade é um mero passatempo para o homem moderno lhe dando a simples ilusão do autocontrole e do domínio de si sobre suas vontades. Mas o que lhes resta se não os “gemidos de civilização”! Se não passamos de vestígios destas? A consciência do bem surge a partir do “belo e sublime”, que trazem o modelo de civilização moderna com seu arianismo e também a idéia de pureza racial que não aparece no texto, mas que constituiu o pensamento da humanidade durante muito tempo a partir da simbologia de que o que é escuro é sujo e impuro, e, portanto nem belo e nem sublime. O “belo e sublime” seria, portanto, a brancura, a pureza e o que se enquadre nos padrões estéticos e intelectuais do contexto citado pelo personagem.

1.6-Analisando os personagens por essa análise:

Colérico e mentiroso,  o homem do subsolo tem até convulsões em suas crises torturantes de vergonha ou arrependimento, e até mesmo em suas brigas de consciência moral. Sua maior doença é o exagero de consciência que lhe é desnecessária, para suprir suas necessidades lhe seria suficiente a consciência do homem comum do século XIX e não a sua, de uma pessoa “evoluída”.

Seu prazer do caos e do desespero se deriva da consciência exagerada de sua humilhação e ao limite derradeiro de tal absurdo. Essas são as leis normais da natureza e quanto a elas não se pode fazer absolutamente nada, pois elas se encontram em uma inércia estática. É como se fosse um consolo para esse homem sua percepção de degradação, ou a simples constatação de sua “impotência de si”.

Sua noção de culpa surge com a de que é mais inteligente do que os que lhe rodeiam, a inutilidade desse conhecimento o torna mais culpado ainda e, sobretudo, humilhado pelo julgamento dos “homens de ação”.E para matar o tédio o homem deve esquecer de sua consciência e fazer o que lhe vem à cabeça, deixando de lado o ódio, a dor, para sentir qualquer que seja a sensação, pois afinal de contas quando o homem perde a curiosidade significa que ele está morto, esgotado.Para esse homem as classificações humanas não se resumem ao maniqueísmo ocidental  “bem e mal”  como de costume se estabelece, e sim a uma razão ampliada que vai do “prazer em derramar sangue” a “dor do nada”.Esse é o homem do subsolo, trágico e paradoxal, que não se contenta com as castrações conseqüentes da civilização, a qual desenvolveu nele uma diversidade de sensações cada vez mais, o aprisionando com seus rótulos e classificações. O que ele quer é algo além das alfinetadas que Cleópatra dava em suas escravas “por puro tédio”, ele quer tudo e ao mesmo tempo não quer nada. Seus desejos e ânsias são justificados pela ciência, porém continuam na marginalidade, pois a história universal é insensata, e razão é apenas razão, satisfaz a capacidade de racionalidade do homem, mas vontade, essa é uma manifestação que está em todos os aspectos da vida humana.

1.7-Conclusão:

Pude perceber que o filme tenta revelar as raízes do mal de maneira generalista. Com isso o filme mostrar que a adesão de uma pessoa a uma ideologia pode ser conseqüência de um mal-estar particular. Podemos transpor o que é mostrado em “A fita branca” para qualquer outro contexto, seja político, tanto de direita quanto de esquerda, ou seja, religioso. Os mecanismos são sempre os mesmos. Uma vez que uma pessoa constrói para si um princípio absoluto, ela, pouco a pouco, perde a sua humanidade, encaminhando-se para a prática do terror.  Uma das invenções da fotografia é a constatação de que o preto e branco torna mais fácil e ágil o acesso ao passado, uma vez que ele cria uma fratura na observação do real. O preto e branco rompe com o realismo e isso é essencial para um filme que não se pretende naturalista.  Interessante como o filme vai construir as pequenas relações do cotidiano onde a pequena vila de “A fita branca” entra na tela como um modelo para a estrutura social da Alemanha de 1913, com todas as suas hierarquias. Tudo transcorre às escondidas, por trás das portas. O padrão intelectual daquela população não é dos mais elevados, mas ela experimenta uma perturbação inexplicável. Numa seqüência decisiva do filme, seu narrador diz: “Tudo vai mudar”. Ali, ele exprime um desejo consciente de seus conterrâneos e das pessoas em geral. Ele não tem certeza do que vai mudar, nem do que precisa ser mudado, mas ele almeja uma transformação. Ele também não percebe que uma mudança sem orientação pode ser perigosa. Esse desejo é um reflexo do sofrimento. O sofrimento e a humilhação preparam o terreno para a perversão de idéias.

Com isso podemos analisar esse homem do subsolo é superior sim, pois ele é auto-reflexivo, auto crítico, sem a autopiedade e parasitismo absoluto do cristianismo moderno que castra os homens com seus dogmas pragmáticos e flagelantes. O homem do subsolo é um reflexo do homem do século XIX e do homem contemporâneo pós-moderno também, na medida em que ele pragmatiza seus atos a partir de suas contradições justificáveis, já que o homem vive nessa malha de ações inconstantes, que se arranjam e mudam a qualquer “bater de asas de uma borboleta” em uma espécie de desordem ordenada. A única certeza que ele tem é de sua morte, então nada pior do que uma “morte anunciada”. A felicidade é algo momentâneo. E quem disse que o estado de felicidade é constante? Felicidade é algo tão momentâneo e ilusório como tomar um sorvete numa tarde quente, ou roubar um beijo do namorado.

Então se as coisas são mutáveis por que não o seriam as ações, opiniões e sentimentos humanos, ainda mais que ao longo do tempo esse homem passou por grandes transformações que mudaram estruralmente sua rotina. É por isso que o homem moderno vem a ser trágico com esse “niilismo” estruturado em suas ações impensadas, e simplesmente agidas.

1.8-Bibliografia

DOSTOIÉVSKI, Fiôdor Mikhailovitch. “Memórias do subsolo”. São Paulo: Ed. 34, 2001.

DOSTOIÉVSKI, Fiôdor Mikhailovitch. “Notas do subsolo”. Porto Alegre, RS: LM & Pocket, 2008.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. “A Gaia Ciência”. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

1.9 -Metodologia para o Ensino Médio:

Tentaríamos apresentar o cenário onde Hitler era um produto da humilhação do Tratado de Versalhes e da falência da República de Weimar. Hitler alimentava um ódio aos judeus porque tivera experiências humilhantes com eles. Através de alguns debates iríamos desmontar alguns chavões que Hitler era filho bastardo e transportou as suas inseguranças para a esfera pública. Hitler era impotente. Hitler era gay. Hitler era um extraterrestre. Ninguém sabe o que fazer com Hitler.

Pontos para Analise:

Cenário pré-primeira Guerra Mundial

Desmontar a figura de Hitler

O tédio do homem moderno a parir das pequenas relações construídas pelos personagens.

Recursos técnicos:

Vídeo, Mapa e imagens do período.

Formas de Avaliação: Resumo e debate em sala de aula.