O cinema possui o poder próprio da obra de arte, que torna presente o ausente, próximo o que está distante, distante o que está próximo, misturando fantasia e realidade, devaneio e reflexão. Isto é, o cinema pode ser entendido como um recurso especial no processo de ensino, porque agrega significativamente imagem, movimento e linguagem. Torna possível “realidades” irreais, possibilita tematizar o tempo, a verdade, a dor, possibilita duvidar, enfim, engloba todas as dimensões da existência do homem, e a atividade filosófica faz dessas várias dimensões, objeto de compreensão crítico-argumentativa. O cinema cria uma realidade ficcional, que trás consigo a possibilidade do espectador vivenciar das mais diversas situações, inclusive situações nunca experienciadas ou até mesmo pensadas pelo sujeito. Sendo assim, o cinema pode despertar no espectador a reflexão filosófica, já que a realidade ficcional pode ser tomada como estopim da atividade reflexiva, somando ao entretenimento, valor estético e cognitivo. Desta forma, o cinema possibilita a criação de um discurso filosófico esclarecedor pelo esforço argumentativo, ao invés de um discurso científico limitado por proposições falsas ou verdadeiras. O que é mostrado pelo cinema não está no patamar do que é dito pela ciência, pois esta última trata do mundo, no que pode ser dito na forma de proposições e no que pode ser pensado, já o cinema não tem essa obrigação de descrever a realidade, estando liberto, não precisa ser lógico ou descrever o mundo através de proposições. Ao contrário da filosofia, que pretende desesperadamente construir um discurso com verdade e universalidade, o cinema não fecha a questão em um conceito lógico, ele faz com que o receptor/espectador se confronte com uma situação inusitada, produz uma experiência de um outro particular, mediante uma cena, ou do todo do filme. O filme possui uma finalização, um fechamento técnico em si, ele é limitado no tempo e refém de uma projeção limitada à área da imagem, enquanto a vida não possui esses limites, mas os seus próprios. O filme, por suas características de limitação, apresenta-se como unidade, é como se o filme fosse um mundo à parte, como se fosse outra vida na qual o espectador é inserido como terceiro. Através se deu caráter “multidimensional”, o cinema pode ser utilizado na Filosofia como recurso didático. O filme pode servir de estímulo à reflexão filosófica, já que pode atingir o aluno dentro de seu próprio horizonte, sendo entendido como um caminho mais atrativo e proporcionando maior prazer no processo de ensino-aprendizagem de questões colocadas pela Filosofia. O professor de filosofia utiliza uma grande quantidade de conceitos fundamentais, e para que sejam passados aos alunos e apreendidos de forma satisfatória, o professor deve ser capaz de saber além de “o quê ensinar”, saber “como ensinar”, e o filme pode ser muito bem empregado como recurso didático aqui, embora não ofereça garantias quanto a seu valor cognitivo, já que não é sua finalidade enquanto objeto estético, mas pode ser muito interessante para o início, e por quê não, do desenvolvimento da atividade filosófica. Através de suas imagens em movimento, o cinema apresenta situações que remontam a própria vida, produzindo no espectador a impressão da projeção da realidade como a analogia de um outro “mundo”, possibilitando ainda, experiências cujo cotidiano não permite contato, seja por desatenção ou por impossibilidade. Aquilo que parece trivial, ganha evidência no cinema, e assim torna-se problematizável através da atividade filosófica.

Brilho Eterno de uma mente sem lembranças

Título original: Eternal Sunshine of the Spotless Mind

Título traduzido para português(Brasil): Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Direção: Michel Gondry

Roteiro: Charlie Kaufman, baseado em estória de Charlie Kaufman, Michel Gondry e Pierre Bismuth

Ano: 2004(EUA)

Duração: 108 minutos

Um filme que aborda a memória, o filme “O brilho eterno de uma mente sem lembranças” empreende um interessante jogo narrativo que se dá principalmente dentro da cabeça do protagonista, colocando o espectador num cenário confuso de lembranças que se misturam, se confrontam e lutam para não se perder.

O filme segue diversos caminhos para tratar da memória, e consegue mostrar perfeitamente o quanto o esquecimento é mais doloroso que a lembrança. Esquecer é sempre perder, e o roteiro exibe isso ao espectador quanto a reconciliação do casal, que se transformaram no carinho ou no conflito, que são o que ficam na lembrança, são colocadas de forma surpreendente no filme. Além disso, “O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” é também uma fantasia futurística que aborda questões éticas em relação aos avanços da medicina.

Joel acorda, observa o quarto em que está, Joel acorda para perceber o mundo, colocando em movimento um ato de contemplação constante que é, em si a própria contemplação do plano de sua representação do mundo que habita, juntamente a sua ação diante este mundo. Joel inicia seu dia percebendo as coisas ao seu redor que são, para ele, imagens que representam as coisas em si, que são menos que as coisas em si, mas que são mais que as representações apreendidas por Joel, pois em sua percepção consciente, ele só percebe o que está acostumado a percebe, apenas o que ele quer, limitando-se a uma deficiência necessária. Ao sair de casa ele vê o carro amassado, depois vê folhas faltando no caderno, coisas determinadas, ele não consegue perceber a imagem completa, sua memória habitual procura registrar apenas o que julga necessário, e seguindo as ações desta memória habitual, num movimento de repetição de suas tarefas cotidianas, ele segue para o trabalho. Na estação, inesperadamente Joel tem um pensamento advindo de seu inconsciente, um pedaço de memória pura, que ao interagir com sua percepção em movimento, o faz correr para outro trem, para uma praia, em Montauk. Na praia Joel vê Clementine, e ele reconhece na representação que tem da jovem, detalhes de seu interesse, interesse este produzido pela interação entre sua memória pura com sua memória habitual. Ambos vão embora de Montauk, e como duas imagens em movimento, começam a escrever a memória um do outro. Começam a conversar, e descobrem que tem o mesmo destino, Rockville Center. Joel acaba dando carona para Clementine, que o convida para entrar em sua casa, onde eles bebem e conversam, depois ele vai embora para sua própria casa. Na noite seguinte, eles vão ao rio Charles, congelado naquela época do ano, eles já estiveram juntos lá, mas não se lembram. Vão embora, Clementine desce do carro e entra em sua casa para pegar sua escova de dentes, enquanto Joel espera no carro, alguém bate na janela, ele não reconhece quem é, a pessoa que bateu na janela estranha a cena, mas vai embora. A imagem escurece, muda o tempo da história, surge a cena de Joel chorando, era o término do relacionamento com Clementine. Eles haviam brigado, e por impulso – a impulsividade era característica de Clementine – ela passa por um procedimento médico que apaga todas as memórias de Joel. Ele decide também passar por esse procedimento. Durante uma noite, o equipamento procurará em sua mente, as memórias de Clementine, e as apagará por completo. O procedimento constitui na busca das memórias mais recentes, e a partir destes começa a buscar a multiplicidade de memórias mais antigas ligadas a essas, até que por fim, apagará todas as memórias que ele tem de Clementine. Joel tem receio de que o procedimento venha a causar-lhe danos cerebrais, e ao indagar o médico, descobre que o procedimento é exatamente isso. Tem início o procedimento, o filme que antes se passava no mundo exterior, onde prevalece a percepção de espaço-tempo do real,m para o mundo interior de Joel, onde o que domina é a percepção de sua memória pura, onde inclusive o espaço-tempo é relativo. A memória é em si atemporal, sempre se encontra no presente, não conhece nem passado e nem futuro. Nós não percebemos o passado, o presente e o futuro, apenas percebemos as ligações do atual que está sempre em movimento. Joel ao passar pelo procedimento não passeia pelo tempo, ele se manterá sempre no atual, mantendo-se em constante movimento, apenas apagando algumas ligações. Joel começa o procedimento revivendo o final do relacionamento com Clementine, a dor que o fez aceitar o procedimento. Em sua mente, as representações apreendidas das coisas vão sendo lentamente excluídas. Depois que todo o sofrimento vai embora, o quadro atual de Joel muda, não existe mais ressentimento, nem dor, resta apenas o seu amor por Clementine. Não cerceado pelo espaço-tempo do mundo exterior, Joel começa a fugir pelas memórias do seu passado, tentando manter intacto seu interesse por Clementine ele começa a colocá-la no lugar de interesses antigos, coisas passadas que foram importantes, ela se torna por exemplo, a garotinha importante em sua infância, uma tia que lhe dava conselhos. Mas a máquina continua a perseguir as memórias de Clementine, e quanto as últimas são apagadas, Joel tenta se agarrar a qualquer ponto que o leve a ela, no caso, a praia, que é o local onde se conheceram, é o que permanece. Um encontro na praia, apenas isso, não existe mais Clementine no quadro atual de Joel. Joel acorda, acorda para perceber o mundo, porém, agora tudo a partir de um quadro sem Clementine, e o mundo encontra-se recheado de referências que ele não reconhece mais. E é isto que aparece no início do filme, que era então, o fim da história. Joel resolve por seguir seu último comando de memória, e vai à praia, lá ele conhece Clementine, e ela o conhece, eles voltam a escrever suas memórias, se relacionam novamente, não por lembrar do relacionamento passado, mas porque o que os fez se amarem pela primeira vez não foi apagado, pois já fazia parte deles muito antes de se conhecerem. Novamente na cena de quando Clementine sai do carro para pegar sua escova de dentes e alguém bate na janela do carro de Joel, este não o reconhece, mas nós agora podemos reconhecê-lo, ele é assistente do médico que fez o procedimento de esquecimento em ambos. E ele está em frente a casa de Clementine, porque está tentando se relacionar com ela, ele tentou reproduzir a relação de Joel com ela, mas não deu certo, porque o que ligava Clementine durante a relação não eram as ações de Joel, mas ele próprio, e o assistente não poderia reproduzir Joel. Outra assistente do médico – que também estava presente no procedimento de Joel – descobre que também teve suas memórias apagadas, e resolve enviar para o casal – Joel e Clementine – fitas onde ambos narravam a relação. Eles se amam, mas não sabem como reagir diante de registros de memórias que não tem, mas como seu amor impera, eles resolvem por começar denovo, e reconstruir juntos seu quadro atual, pois quando apagaram suas memórias, eles retrocederam o movimento de seus quadros atuais, e então apagaram uma etapa que terá de se repetir, por ser necessária na construção do quadro atual.

Referências Bibliográficas

CABRERA, Julio. O cinema pensa: uma introdução à Filosofia através dos filmes. Tradução de Ryta Vinagre. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

BOCHENSKI, J. M. Diretrizes do pensamento filosófico.Trad. Alfred Simon. 6ª ed. São Paulo: EPU. 1977.

DELEUZE, Gilles. Cinema: Imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.

DELEUZE, Gilles. Cinema 2:A imagem-tempo. Vol.2 São Paulo: Brasiliense. 1999

METZ, Christian. A significação do cinema.São Paulo: Perspectiva, 1972.

SAVIANI, Dermeval. Contribuições da Filosofia para a Educação In: Aberto. Brasília. Ano 9 nº 45, jan. mar.1990.