INTRODUÇÃO

Antes de tudo declaro que hesitei na escolha do tema para relacionar o filme Anjos do Sol no tópico filosofia e questões existenciais ou se o adequaria à questões éticas. São duas temáticas, que creio, tem ocupado toda a história da filosofia desde Aristóteles até os dias de hoje, passando necessariamente por Marx e Nieztsche. Se considerarmos, rudemente a existência como modo de ser do homem e ética como forma de interagir do ser humano, poderíamos dizer que a temática do filme trafega entre um e outro tema. Olhando o filme do ponto de vista do capitalismo e de seus modos de produção, sem dúvida o filme retrata a faceta mais cruel da exploração do homem pelo homem. E mais, cumpre o papel de dealbar uma sociedade totalmente alienada e voltada para o umbigo, que já se acostumou a chocar-se com um cotidiano, frequentemente hospedado no inconsciente coletivo, que ao vir à tona parece produzir uma espécie de surrealismo, que se torna, incontinenti, ficção.

O filme é baseado em fatos reais. Em recortes de jornais. É uma costura que denuncia a realidade de uma sociedade violenta em todas as suas facetas e estamentos. É alinhavado a partir do núcleo familiar, se é que se pode chamar assim uma família à míngua de qualquer dignidade, que alija um frágil ente, que inicia a caminhada da personagem-denúncia, que melancolicamente, não obstante o caráter de resistência que lhe é atribuído parece fadada aos desígnios de uma sociedade; parte escravocrata e cínica; parte cínica e idiossincrática. (no dizer de Raul Seixas: “Convence as paredes do quarto e dorme tranquilo”).

Assim sendo o filme Anjos do Sol é um soco na boca do estômago de uma sociedade, que de forma hipócrita vive choramingando a violência diuturna, se postando como vítima. É como se ainda hoje estivéssemos assistindo àquela cena antológica dos fariseus que queriam apedrejar a mulher adultera.

SINOPSE DO FILME

Nome do filme: Anjos do Sol

Lançamento: 2006 (Brasil)

Direção:Rudi Lagemann

Atores:Antônio Calloni (Saraiva) Chico Diaz (Tadeu) Otávio Augusto , Vera Holtz , Darlene Glória , Fernanda Carvalho , Bianca Comparato

Duração: 92 min

Gênero: Drama

Ficha Técnica

Título original: Anjos do Sol

Gênero: Drama

Duração: 01 h 32 min

Ano de lançamento: 2006

Estúdio: Cara de Cão Produções Ltda.

Distribuidora: Downtown Filmes

Direção: Rudi Lagemann

Roteiro: Rudi Lagemann

Produção: Luiz Leitão de Carvalho, Juarez Precioso e Rudi Lagemann

Música: Felipe Radicetti, Flu e Nervoso

Fotografia: Tuca Moraes

Direção de arte: Levi Domingos

Figurino: Rita Murtinho

Edição: Leo Alves, Felipe Lacerda e Rudi Lagemann

RESUMO

Maria (Fernanda Carvalho) é uma jovem de 12 anos, que mora no interior do nordeste brasileiro. No verão de 2002 ela é vendida por seu pai a um intermediário (Chico Diaz), que trafica meninas para a prostituição. Este a revende a uma cafetina (Vera Holtz) especializada em promover leilões de meninas virgens, para comerciantes, empresários e deputados. Após ser usada pelo adquirente, Maria é enviada a um bordel, no meio de um garimpo e passa a padecer de toda sorte de humilhação do administrador (Antonio Calloni), que não obstante se acha um “grande pai” das desafortunadas meninas. O desejo de liberdade de Maria não é detido na primeira tentativa de fuga, recapturada assiste à morte de sua colega na empresa de fugir, que é arrastada pelo algoz Saraiva. Foge novamente e obtém êxito. Depois de viajar em caronas de caminhoneiros chega ao Rio de Janeiro e acaba nas mãos de uma cafetina (Darlene Glória) que a vê como mais uma fonte de renda na prostituição de Copacabana. Maria foge mais uma vez e assim termina o filme com Maria pedindo carona....

Elenco

Antônio Calloni (Saraiva) Chico Diaz (Tadeu) Otávio Augusto (Lourenço)

Vera Holtz (Nazaré)

Darlene Glória (Vera)

Fernanda Carvalho (Maria)

Bianca Comparato (Inês)

Mary Sheyla (Celeste)

Caco Monteiro (Tonho)

Antônio Gonzalez (Piloto)

Evelin Buchegguer (Mãe de Maria)

Rui Manthur (Pai de Maria)

Maurício Gonçalves (Agente de saúde)

Ivo Fernandes

Wilson Rabelo

Gabriela Rodrigues

Kallanda Caetana Larissa Beckman

Dayanie Diegues (Site www.adorocinema.com)

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Obviamente as razões de Marx a respeito de sua radiografia sobre o sistema capitalista não podem ser resumidas apenas em um filme que trata da exploração infantil na sua face mais cruel: a prostituição, aliás chamo de prostituição por força da generalização, posto que não há verbalização para o comportamento do homem nas circunstâncias apresentadas no filme.

A alienação é um estado de consciência em que o alienado acredita cegamente de que o efeito é a causa, e esta consciência é produzida artificialmente pelas classes dominantes.

“A ideologia é portanto uma forma de dominação, gerando uma falsa consciência, uma consciência ilusória, que se produz através de mecanismos pelos quais se objetificam certas representações como sendo a verdadeira realidade, tudo isso produzindo uma aparente legitimação das condições existentes numa determinada sociedade em um período histórico determinado. Produz-se com isso uma forma de alienação da consciência humana de sua situação real de existência. A ideologia é produto de uma estrutura social profundamente desigual, e portanto não-transparente, já que esta desigualdade não pode explicar-se no nível da consciência”. (Danilo Marcondes – Iniciação à história da Filosofia. P.231). É disso que a ideologia se encarrega.

É curioso notar que a mesma sociedade que parece escandalizar-se com a escravocracia, não parece perceber que a ideologia que predomina ainda é escravista. O filme cumpre o papel de fazer vir à tona essa miserabilidade.

CONCLUSÃO

Sobre as perspectivas de "Anjos do Sol", o diretor pondera: "É um filme duro. Minha proposta era colocar uma discussão, não uma redenção. É um problema social para resolver em 50, 100 anos, porque é uma questão cultural. Mas acho que 'Anjos do Sol' pode se tornar um instrumento de debate", disse.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

BIBLIOGRAFIA

Site: cinema uol.com.br

Site: adorocinema.com

Marcondes, Danilo – Iniciação à História da Filosofia

ADAPTAÇÃO PARA O ENSINO MÉDIO

Tem sido senso comum a prática de discussão do audiovisual no processo pedagógico. Como toda arte expõe uma mensagem crítica, o cinema tem ocupado relevante espaço como cultura de massa e comunicação (tema que estudamos em Walter Benjamin).

Assim sendo é conveniente e necessária a prática de exibição de filme em que o educador possa trabalhar temas transversais e desenvolver as habilidades (PCN).

Em se tratando de Ensino Médio o público alvo é de adolescentes.

Considerando o tema proposto no filme Anjos do Sol, podemos explorar a linguagem do cinema, ética e cidadania e valores e respeito.

O professor deve abordar a temática, resumindo o enredo do filme para chamar a atenção dos alunos. É preciso conquistar o interesse do filme, relacionando o assunto com fatos que façam parte do cotidiano. No caso do filme Anjos do Sol, já que a temática parece distante da realidade dos alunos do Rio de Janeiro, poderemos sugerir que os aliciadores estão por aí, principalmente na internet. E que o filme também aborda secundariamente o cárcere privado, que não exclui qualquer estamento da sociedade..

Após a exibição do filme segue-se o debate.

Como se trata de uma aula de filosofia os aspectos a serem abordados tratado fundamentalmente do papel da filosofia na formação da consciência individual, como ressalta Marcondes: “ A tarefa da filosofia crítica é desmascarar a ideologia, revelar o processo pelo que se produz, fazendo com que perca seus efeitos, desfazendo as ilusões que gera. Se, no entanto, a filosofia não leva em conta as origens materiais da ideologia na relação de dominação existente na sociedade, a análise filosófica passa a ser inócua, tornando-se ela própria parte da ideologia.”

Para um bom resultado é necessário porém não descuidar de alguns aspectos didáticos: O professor deve fazer esclarecimento a respeito da linguagem cinematográfica, despertando no aluno interesse pela atividade. Sempre que possível fomentar a discussão entre os alunos sobre a tela exibida. Sugerir a reflexão individual. Cuidar para que todos os elementos do grupo tenham participação efetiva na tarefa. E por fim o professor deve apresentar uma conclusão e apontar os pontos que não são vistos pelos alunos. Como fez a professora Dirce após a exibição do filme Mephisto.