Roteiro do Trabalho

Introdução: Justificar a temática filosófica e a escolha do filme

O tema “Cinema, filosofia e questões existenciais” foi escolhido, pois acreditamos que, apesar do lugar que colocam atualmente a filosofia, centrado nas questões teóricas que tentam explicar, de uma maneira ou outra, o mundo e/ou a linguagem, é fundamental diminuir a distância entre filosofia e vida, e pensar a filosofia como modo de vida, como potência de transformação existencial.

O filme “Na Natureza Selvagem”, ao narrar a estória de um jovem que resolve resistir à um modelo de vida tradicional e inventar uma outra vida , nos mostra como, a partir de uma postura crítica e filosófica diante do mundo, é possível transformar a própria existência.

Sinopse do filme (autor, data, ambientação, duração, resumo do que se trata)

Título original: Into the Wild (baseado em livro de Jon Krakauer)

Lançamento: 2007 (EUA)

Direção: Sean Penn

Atores principais: Emile Hirsch , Marcia Gay Harden , William Hurt , Jena Malone , Brian Dierker

Duração: 140 min.

Resumo: Na Natureza Selvagem(Into The Wild) é inspirado no livro homônimo, escrito por Jon Krakauer, sobre a vida de Christopher McCandless, que em 1990, com 22 anos e recém formado, decide doar todo o seu dinheiro a uma instituição de caridade, muda de identidade (Alexander Supertramp) e, sem que ninguém saiba, parte em busca de uma nova vida, abandonando o conforto da casa dos pais e a promessa de uma vida profissional de sucesso. Metendo o pé na estrada, no velho e bom estilo On the Road dos beatiniks, ele perambula por uma boa parte da América e México (de carona, a pé ou até de canoa), arranjando empregos temporários e acalentando o sonho de ir para o Alasca, onde poderia estar longe da hipocrisia e do materialismo dos seus pais e da sociedade, e em comunhão com a natureza selvagem. Ao finalmente chegar no Alasca, Christopher experimenta uma vida muito simples, morando em um ônibus abandonado e tentando sobreviver apenas do que a natureza lhe oferece (caça e coleta de frutas, plantas e sementes). Porém, um erro de cálculo e a falta de conhecimento do clima local e das plantas comestíveis acarretam a sua morte. O que lhe acontece durante este percurso transforma o jovem num símbolo de resistência para inúmeras pessoas.

Fundamentação teórica (relação com as questões filosóficas pertinentes)

O filme evoca o tempo todo, em seus 140 minutos de duração, diversos tópicos filosóficos, tais como: resistência, liberdade, modos de vida, sociedade, natureza, verdade, moral, solidão. Porém, ao narrar a história de um jovem que resiste (emocionalmente e fisicamente) a seguir um caminho tradicional e a viver uma vida padrão, experimentando um espaço de liberdade capaz de criar as condições de possibilidade de invenção de uma nova vida, a ênfase do filme recai sobre os três primeiros temas. Estes temas apontam para uma questão existencial crucial: “O que você está fazendo da sua vida?”, remetendo para uma obra de vida a ser realizada, escapando de uma relação de submissão e apontando para novos modos de vida.

Para fundamentar teoricamente estas questões recorreremos à caixa de ferramentas da filosofia de Michel Foucault, mais especificamente ao período de sua obra denominado genealogia do poder.

De acordo com Foucault, o poder não possui uma essência ou uma natureza universal, o que existe são formas e relações localizadas e espalhadas de poder em um nível molecular da sociedade. Todos estariam imersos nas relações de poder, não sendo o poder algo que se possui, mas algo que se exerce em relações de várias naturezas.

Porém, se o poder é um feixe aberto de relações de força, que se enfrentam em uma guerra cotidiana; se é ação sempre em movimento, capaz de circular por toda a sociedade, em seu nível mais capilar; sendo inviável experimentar um espaço de ausência de poder, já que estamos necessariamente imersos nas relações de poder, como é possível conceber um espaço de resistência?

Na visão foucaultiana, não haveria exterioridade entre as relações de poder e de resistência. Ambos freqüentariam o mesmo campo de batalha. Não se trata de um contrapoder organizado em uma “grande recusa”, mas de resistências plurais e locais. Onde existisse poder, existiria resistência e possibilidade de luta.

Esta resistência de que falo não é uma substância. Ela não é anterior ao poder que ela enfrenta. Ela é coextensiva a ele e absolutamente contemporânea [...] Para resistir, é preciso que a resistência seja como o poder. Tão inventiva, tão móvel, tão produtiva quanto ele. (FOUCAULT, 1979, p. 241)

É sob um fundo de liberdade que a resistência frente ao poder se exerce, produzindo o novo. “Pois, se é verdade que no centro das relações de poder e como condição permanente de sua existência, há uma “insubmissão” e liberdades essencialmente renitentes, não há relação de poder sem resistência, sem escapatória ou fuga” (FOUCAULT, 1995, p. 248).

Deleuze vai corroborar esta posição ao comentar este momento da obra foucaultina, afirmando que a resistência se relaciona com a liberdade e a vida:

O que a resistência extrai do velho homem são as forças, como dizia Nietzsche, de uma vida mais ampla, mais ativa, mais afirmativa, mais rica em possibilidade. O super-homem nunca quis dizer outra coisa: é dentro do próprio homem que é preciso libertar a vida, pois o próprio homem é uma maneira de aprisioná-la. (Deleuze, 1998, p.115)

No entanto, a resistência é luta aqui e agora e não uma mera promessa de um futuro melhor. Segundo Foucault, historicamente, as várias formas de resistência articulam-se em três principais tipos de luta: i) contra as formas de dominação (étnica, social e religiosa); ii) contra as formas de exploração que separam os indivíduos daquilo que eles produzem; e iii) contra as formas de sujeição, ou seja, contra a submissão da subjetividade, sendo esta última a mais importante para ele na atualidade, tendo em vista que:

São lutas que questionam o estatuto do indivíduo: por um lado, afirmam o direito de ser diferente e enfatizam tudo aquilo que torna os indivíduos verdadeiramente individuais. Por outro lado, atacam tudo aquilo que [...] força o indivíduo a se voltar para si mesmo e o liga à sua própria identidade de um modo coercitivo (FOUCAULT, 1995, p. 235).

De acordo com Foucault, estas lutas não são nem a favor nem contra o indivíduo, mas sim batalhas contra os dispositivos de poder que confinam e fixam o indivíduo à sua própria identidade, subjugando-o e tornando-o “sujeito a”. Desta forma, a resistência caracteriza-se essencialmente pela luta que é capaz de produzir novas formas de subjetividade através da recusa das individualidades que foram impostas historicamente. “A idéia não é descobrir quem somos, mas recusar quem somos e transformarmos-nos” (FOUCAULT, 1995, p. 235). Resistir é lutar contra duas formas principais de sujeição:

Uma que consiste em nos individualizar de acordo com as exigências de poder, outra que consiste em ligar cada indivíduo a uma identidade sabida e conhecida, bem determinada de uma vez por todas. A luta pela subjetividade se apresenta então como direito à diferença e direito à variação, à metamorfose (DELEUZE, 1998, p. 113).

Conclusão

Portanto, é possível concluir que o conceito de resistência na obra de Foucault mostra-se diretamente ligado ao processo de subjetivação, ou seja, à produção de formas de subjetividade ou modos de existência (modos de agir, sentir e dizer o mundo). Para este filósofo, não se sujeitar é resistir e se abrir para outros e novos modos de ser sujeito e de estar no mundo, ou seja, para novos modos de vida.

E como filme conta a estória de alguém que atravessou as fronteiras de si mesmo e chegou onde poucos habitam, experimentando um estilo de viver singular, não é difícil perceber a obra foucaultiana saltando da tela e invadindo nossos corações e mentes, gritando que é possível, a partir de uma postura crítica e, portanto, filosófica, resistir aos modos de vida que a sociedade nos impõe e inventar, tal como um poeta de si, novos modos de vida.

Bibliografia

DELEUZE, G. Foucault, 1ª edição, São Paulo, Editora Brasiliense, 1998.

FOUCAULT, M. Microfísica do poder, 21ª Edição, Rio de Janeiro, Edições Graal, 1979.

____________ O sujeito e o poder. In: DREYFUS, H. L.; RABINOW, P., Michel Foucault – uma trajetória filosófica – para além do estruturalismo e da hermenêutica, Rio de Janeiro, Editora Forense Universitária, 1995.

HADOT, P. O que é a filosofia antiga?, 3a edição, São Paulo, Edições Loyola, 1999.

3 – Adaptação para o ensino médio

Acreditamos que este filme possa ser apresentado e trabalhado dentro do escopo de uma questão fundamental referente ao ensino de filosofia no ensino médio, ponto de partida para o mesmo, que se refere à famosa pergunta: “O que é filosofia?”

Para além das respostas tradicionais à esta pergunta, que definem a filosofia como pensamento racional, crítico e reflexivo acerca das crenças e opiniões que nos são transmitidas como verdade ou como espanto (thauma) diante da realidade que nos cerca, mais preocupada com as perguntas do que com as respostas, enfatizando a busca da verdade e não o encontro com a mesma propriamente dito, gostaríamos de resgatar uma dimensão da filosofia que há muito tempo vem sendo esquecida: a filosofia como modo de vida.

Pierre Hadot, em seu livro O que é a filofia antiga?, em oposição a uma visão atual da filosofia que tenta de forma abstrata, sistemática e teórica explicar criticamente o mundo, o homem e a linguagem, nos mostra que na filosofia antiga, para além desta dimensão, a atividade filosófica estava diretamente relacionada com a escolha de um modo de vida e uma opção existencial.

Sócrates, Platão, Aristóteles, as escolas helênicas (cinismo, ceticismo, epicurismo e estoicismo) e os neoplatônicos (principalmente Plotino) não separavam filosofia da vida, não pensavam de uma maneira e se comportavam de outra, pois viviam de acordo com suas filosofia, ou melhor, viviam filosoficamente.

E para ilustrar esta maneira de encarar a atividade filosófica, trabalharíamos um texto basilar da história da filosofia, a Alegoria da Caverna de Platão. Este texto é comumente trabalhado para demonstrar que a filosofia é o afastamento do senso comum e da opinião (doxa) em busca do conhecimento verdade, apontando, bem ao estilo dos filmes Matrix ou Show de Truman, que para além da realidade que estamos acostumados a perceber, existe uma outra realidade, esta sim verdadeira.

Porém, iríamos dar ênfase justamente em um ponto deste texto esquecido pela maioria dos professores de filosofia, que é o processo de transformação existencial pela qual passa o prisioneiro que se liberta e sai da caverna, justamente para demonstrar que a filosofia está diretamente relacionada com o modo de vida.

Bem, este texto, que se encontra na República de Platão, seria trabalhado com os estudantes da seguinte forma: em primeiro lugar, após uma breve contextualização a obra platônica e do momento histórico da Grécia, apresentaríamos a narrativa do diálogo que se estabelece entre Sócrates e Glauco, onde o primeiro conta a estória de um grupo de prisioneiros que se encontra acorrentado no interior de uma caverna.

Apenas para lembrar resumidamente, estes prisioneiros só podem olhar para o fundo da mesma, onde são projetadas imagens e ecoam sons, provenientes das sombras e vozes de pessoas que passam por um muro que se localiza entre os prisioneiros e uma fogueira. Acontece que um desses prisioneiros se liberta e sai da caverna, onde descobre uma outra realidade, iluminada por um sol resplandecente. E ao voltar para a caverna para tentar convencer os outros prisioneiros da existência de uma outra realidade, o mesmo é considerado louco e é morto pelos mesmos.

Após a leitura do texto, iniciaríamos uma discussão a respeito das principais questões do mesmo, tentando relacionar estas questões com o filme “Na Natureza Selvagem”, para que fosse possível, então, estabelecer uma maneira de pensar a filosofia como modo de vida, tanto no texto, quanto no filme.

Assim como o prisioneiro que se liberta de suas correntes, que são suas crenças e opiniões, Christopher McCandless (a personagem principal do filme) também se livra das correntes de uma vida formatada e enquadrada dentro dos padrões esperados socialmente.

A viagem de Christopher McCandless pelos mais diversos lugares dos EUA e México também pode ser comparada com o processo de saída/subida da caverna pelo prisioneiro, quando sua vista vai se acostumando com uma outra realidade, ou melhor, com uma outra vida.

O que liberta o prisioneiro de suas correntes é a própria filosofia, ou ainda, uma postura e uma atitude filosófica diante de si e do mundo. Não é apenas uma atividade do pensamento, teórica, sistemática e abstrata que o liberta, mas um ato capaz de transformar a sua vida. A atitude filosófica o liberta e muda seu modo de vida. Assim também acontece Christopher McCandless, que, mediante uma postura crítica e filosófica em relação ao mundo, decide mudar radicalmente de vida.

A chegada ao Alasca, como última etapa de sua viagem, onde de fato Christopher McCandless consegue ver e viver uma vida totalmente diferente e nova, também pode ser comparada com a saída total do prisioneiro da caverna, onde este descobre um mundo mais verdadeiro.

E no fim, os dois (Christopher McCandless e o prisioneiro) pagam com a morte as mudanças radicais que foram capazes de fazer com suas próprias vidas.