INTRODUÇÃO

Pretendo discutir as questões de ordem política presentes no filme em questão. A rigor, podemos compreender o fenômeno da política como a mais exata expressão do fenômeno do poder, ou antes, podemos compreender o fenômeno da política como a manifestação institucional de submissão de um grupo de indivíduos a outro grupo de indivíduos e mesmo, observamos ao longo da história, a um único indivíduo.

Tal questão subsiste no transcurso do tempo como uma questão basilar concernente ao âmbito de investigação da filosofia política, qual seja: as razões que levam um indivíduo se submeter a outro. É neste contexto, que diz respeito objetivamente ao que poderíamos considerar como a relação política por excelência, ou seja, a relação entre governantes e governados; a relação entre os detentores do poder e aqueles que devem submeter-se à estes, que se inscreve a questão política presente no filme.

A partir de tais considerações, pretendo descrever, no filme “O criado”, a perspectiva hegeliana da dialética do senhor e do Escravo, de maneira absolutamente despretensiosa. Pretendo capturar na narrativa (reitero que de maneira nada rigorosa) do filme, a perspectiva de que a supracitada relação de Poder é eminentemente dialética, ou seja, que tal perspectiva se subtrai à modelos de exercício do poder marcados pela estaticidade, pela manutenção fixa e imutável no que concerne à relação entre quem detém o poder e quem está submetido a ele. Pretendo mostrar, ancorado em um registro teórico hegeliano, que as posições de “mando” e “obediência”, não são caracterizadas por uma inflexível fixidez: que tais posições podem ser transpostas através do concurso transformador da ação.

SINOPSE DO FILME

O diretor Joseph Losey, filma em 1963, com o roteiro do consagrado Harold Pinter, baseado no romance homônimo de Robin Maughan, esta obra de 111 minutos de duração.

O filme, ambientado em Londres nos anos sessenta, narra a história de Tony, um típico aristocrática inglês, e a dialética relação que se estabelece entre este e Barret, um em empregado contratado para resolver seus problemas domésticos e que se mostra extremamente ambicioso e extraordinariamente inteligente, calculista. O caráter dialético da relação se dá precisamente pelo modo como Barret consegue, no decorrer da narrativa, não somente tomar conta totalmente da dinâmica de funcionamento da casa, sendo assim responsável por todo o universo doméstico, por todas as demandas e exigências do aristocrata Tony; como também, e em grande medida por isso, consegue, através de ardis envolvendo também sua amante e comparsa, subjugar o dono da casa, subvertendo completamente a relação que se estabelecera entre patrão e empregado, relação a qual somos apresentados logo no começo do filme.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

É possível estabelecer uma clara relação conceitual entre a narrativa do filme e a canônica seção do livro “Fenomenologia de espírito” de Hegel, conhecida como a “dialética do Senhor e do Escravo”. Nesta seção, Hegel, ancorado nas sofisticadíssimas e herméticas formulações de sua filosofia da História, procura descrever que a relação de poder por excelência, que se dá entre o senhor e o escravo, não pode ser caracterizada pela fixidez e imutabilidade: Hegel assevera que o transcurso da história encerra em si como motor, por assim dizer, a dialética. Que esta faculta a defender que as relações de poder no tempo e pelo tempo operam as transformações que são a tradução da superação de uma tese por sua antítese, gerando, assim uma síntese, que se tornará por sua vez outra tese.

No que concerne à relação de poder, podemos depreender da formulação hegeliana, que nenhuma constelação de poder estabelecida se perpetua no curso do tempo: que os detentores do poder hoje são passíveis de seres destituídos pela síntese representada pelos escravos. Estes, da sua posição de subalternidade podem subverter as relações de poder e destronar, dessacralizar seus senhores, tornando-se eles próprios senhores. E aqui, observamos a centralidade do conceito do “vir-a-ser” hegeliano: o escravo, tomando consciência da dependência que o senhor tem em relação à sua existência, à sua ação enquanto realizador e servidor, mobiliza esforços para transformar tal relação. Ou seja, o escravo, ancorado na concepção de que o por vir, o “Vir-a-Ser” não está dado, não é previamente constituído, e que, para ser constituído necessita, sobretudo, do resultado de sua ação transformadora, se insurge contra a circunstância de subalternidade na qual está enredado, e assume, através da ação, a direção do por vir.

A relação Senhor X Escravo, assim, nos diz Hegel, pode ser obliterada através da ação de “escravos”, que, tomando consciência da dependência que “Senhor” tem em relação à sua condição de servos, encontram na mobilização da ação o veículo de subversão e transformação das relações preestabelecidas; através da ação, o “escravo” manifesta a antítese representada por sua existência, e, desse modo, supera a tese representada pela existência parasitária do “Senhor”.

CONCLUSÃO

Creio que o filme de Joseph Losey captura bastante bem estas noções hegelianas. Podemos ver claramente a dialética hegeliana transposta para a linguagem cinematográfica através da narrativa do relacionamento que se instaura entre o arrogante aristocrática inglês e o criado que ele contrata. O filme concentra de maneira bem explícita a dependência que o aristocrata/senhor tem relação à seu criado/escravo. Este, por sua vez, se valendo do fato de ser ostensivamente subestimado pela arrogância de seu patrão, lança mão de estratégia, ardis e negligência, por assim dizer, de padrões éticos, para dominar completamente aquele universo para o qual, inicialmente, ele só subsistiria enquanto “mero” serviçal.

Se nos afigura assim que o que é defendido pelo filme (em consonância com a teoria hegeliana), é que a ação é o motor da história, que as relações de poder não são passíveis de serem caracterizadas pela estaticidade; que o vir-a-ser, o por vir, é o “resultado” exato de “ardis” daqueles que se encontram em uma posição de subalternidade. Os que, ao tomar consciência da dependência que seus “senhores” têm relação a eles, do poder transformador da ação, de sua capacidade efetiva de construir o povir, subvertem completamente as relações de poder; assumem o curso da História.

BIBLIOGRAFIA:

Hegel, G. W. F. Fenomenologia do espírito, VOZES.

TEXTO ADAPTADO PARA O ENSINO MÉDIO

Vamos trabalhar, baseados no filme que assistimos, a relação de poder entre aqueles que detêm o poder de mandar, e aqueles que estão “destinados a obedecer”. O que vamos tentar fazer é verificar se as coisas são, ou melhor, se devem ser desse jeito mesmo. No filme, vemos a história de um patrão arrogante e de um criado esperto. Um patrão aristocrata que acredita ser naturalmente superior a seu empregado justamente por pertencer à uma classe “superior”.

O que é interessante para ser discutido no filme é esta relação entre aquele que manda (e porque manda), e aquele que obedece (e porque obedece), e, principalmente, se as coisas devem “naturalmente” ser assim. O criado é extremamente inteligente e sagaz, ele se aproveita da arrogância de seu patrão para dominar todo o funcionamento da casa, e, como vimos no decorrer do filme, acaba por dominar o próprio dono da casa

O que o filme tem de mais instigante são as ações do criado para “dominar” seu patrão. E é realmente interessante por nos mostrar que ninguém manda ou obedece por natureza. Que ninguém se submete à ordens de qualquer autoridade porque a natureza ou alguma divindade ordenou, e, o mais importante, que a relação entre que manda e quem obedece, por não ser fruto da natureza, pode ser perfeitamente alterada.

E pode ser alterada pela ação daqueles que obedecem. Ou seja, o que o filme nos mostra, é que, mesmo sem utilizar métodos que poderíamos considerar amorais, ou seja, métodos que ignoram a ética, sempre é possível transformar o futuro se se agir para que isto aconteça. O ponto para o qual gostaríamos de chamar a atenção é precisamente este, a saber, o poder da ação de transformar o futuro.

O futuro não está dado. Ninguém manda ou obedece por natureza. A ação é a responsável pela construção do futuro. Estas afirmações são pontuadas pelo filme, bem como a pergunta sobre se para isso, para se construir um futuro diferente, sem relação de mando ou obediência ou com outro tipo de mando e obediência, precisamos nos valer de métodos não éticos. São estas questões que, a partir do filme, gostaríamos de discutir.