1. O filme é relacionado com as questões cinema, filosofia e questões existenciais.

 

  1. A abordagem inserida no filme trabalha questões que estão em pauta e pertinentes na atualidade, apesar de a maior parte do ambiente do filme ter se passado no início do século XX. Com isso, enfoca a questão da liberdade relacionando-a com temas de identidade, subjetividade, regras, feminismo, repressão e superação. O filósofo escolhido para essa abordagem é Jean –Paul Sartre

  2. Autor: Jon Avnet ; Data: 1991; duração: 130 minutos.

 

Evelyn é uma dona de casa que é reprimida, tenta agradar seu marido, mas ele quase não dá atenção a ela, fazendo com que se sinta desprezada e por isso, em sua angústia, por ter uma via conjugal tão vazia, ela se entope de doces e comidas gordurosas, constituindo ambos, pessoas obesas. Os dois fazem visitas semanal a um parente, tia dele, no hospital, mas a mesma não deixa a Evelyn entrar em seu quarto. Porém, durante a estada na clínica, Evelyn conhece uma simpática senhora de 82 anos que se intitula Ninny Treadgood. Esta vai então contando a Evelyn a história de duas jovens Idgie e Ruth, que viviam numa pacata cidadezinha, e os fatos que vão levar à prisão de Idgie, suspeita da morte de um homem. Evelyn fica muito interessada e toda semana que passa no hospital, vai ver Ninny que sempre faz uma continuação da história. Trava-se então, uma forte amizade entre as duas. Ninny conta então a história de Idgie, uma menina que, quando pequena, perde o irmão querido num acidente de atropelamento na ferrovia de um trem. Idgie desde cedo é uma menina fora dos padrões da sociedade em que vive, não gosta de usar vestidos, prefere calças. Torna-se então uma mulher corajosa que desafia o poder masculino em uma época marcada pelo tradicionalismo. Daí ela ser tão livre, coragem para ser diferente, romper e contestar as normas da sociedade que vive, até mesmo em relação a Igreja, e também em relação ao preconceito com os negros na cidade. Ruth, que amava Buddy, o irmão morto de Idgie, tenta se aproximar dela para fazê-la superar o trauma. Ruth, por sua própria iniciativa, acaba aderindo ao espírito de liberdade de Ruth. Mesmo após o casamento de Ruth com um homem violento, esta consegue lutar e romper com isso, através de suas próprias escolhas, daí sai de casa e torna-se sócia de Idgie, que a ajuda a cuidar de seu filho. Mesmo com a suspeita do assassinato do marido de Ruth, a justiça nada consegue provar contra Idgie. Mais tarde, Ruth adoece e morre. No decorrer dessa história de superação que é contada por Ninny, Evelyn vai enxergando que ela é livre e então decide mudar seu jeito de agir, ingerindo coisas mais saudáveis para emagrecer; fica menos sensível, menos reprimida e tenta fazer uma reforma na sua casa, até mesmo a comida do marido é mais saudável agora. Este nota a mudança na esposa e resolve pedir desculpas pela falta de atenção a ela.

 

c) Fundamentação teórica:

 

Sartre consagrou-se como um intelectual que apresenta suas idéias baseadas em uma teoria existencialista que tem como base a idéia de que a existência precede a essência. Dessa forma alega que o ser humano não possui uma essência, uma natureza, mas sim, através das escolhas que faz na vida, através de uma liberdade que é situada, esse mesmo individuo, “determina” sua própria existência, por meio de suas escolhas. Ao contrário dos cristãos que acreditam que há sinais no mundo, enviados por Deus para que o homem, siga a vontade divina, então, opondo-se a isso, Sartre com seu ateísmo existencialista, suprime a idéia de determinismo e afirma que é o homem quem cria seus próprios valores, por meio de sua liberdade, que como afirma: “O homem está condenado a ser livre”., então não pode culpar os outros ou mesmo a idéia de Deus como responsável pelas suas atitudes, porque na verdade o homem possui sua livre escolha, porém a sua liberdade não constitui-se em um enaltecimento, mas indica que há responsabilidade e por isso mesmo afirma que o homem é angústia, pois estando livre é totalmente responsável pelo que faz, mesmo que opte por não fazer nada, isso constitui também em uma escolha, assim a solidão a que está submetido e o desamparo ligado à sua liberdade levam-no a uma responsabilidade total, visto que não podemos dividir isso com ninguém, essa tarefa de nos tornarmos nós mesmos, assim o homem percebe que a existência é um processo difícil que obriga o homem a fazer-se, num processo contínuo através de suas escolhas. Para Sartre, o indivíduo nunca é uma coisa ou algo já constituído essencialmente, porque a cada momento o homem vem a ser algo que se torna, porém na verdade, na dinâmica dessa trajetória, nunca chega a atingir o seu ponto final, pois o homem não está consolidado em seu ser, mas se faz continuamente, se projeta diante de si por meio de suas escolhas na intenção de constitui-se como tal. Cabe a cada um fazer-se e quem procurar fugir dessa responsabilidade, para Sartre, está agindo de má-fé. Isso seria uma defesa equivocada contra a angústia e a solidão que permeiam o homem, uma fuga por medo para não encarar o inevitável: que o homem está condenado à liberdade; é como mentir pra si mesmo. Quando o homem procura sair desse estado de má- fé, ele passa a um estado de angústia porque deixa de se enganar e o que fica é a real situação, por isso a angústia é necessária.

 

Quando o ser humano se escolhe, está escolhendo a outros homens, ou seja, engaja toda a humanidade porque é responsável por si e cria uma dada imagem de homem que é escolhido Poe ele mesmo. É o compromisso de cada indivíduo, por isso tem que haver muita responsabilidade com seus atos. Esse engajamento leva o ser humano a ter que respeitar a liberdade dos outros.

 

d) Conclusão

 

Portanto, o existencialismo não é uma corrente de pensamento de quietismo ou de pura arbitrariedade, mas sim ao contrário, pois mostra ao homem que a sua liberdade está embutida em responsabilidade, escolha e compromisso social.

 

E) Referências:

 

Descamps, Christian. As idéias filosóficas contemporâneas na França. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

 

Sartre, Jean Paul. O existencialismo é um humanismo; A imaginação; Questão e método/ Jean Paul Sartre; seleção de textos de José Américo Motta Pessanha; traduções de Rita correia Guedes, Luiz Roberto Salinas Forte, Bento Prado júnior._ 3.e._São Paulo: Nova Cultural, 1987.

 

 

 

3) Adaptação para o ensino médio: elaborar um pequeno texto sobre o filme escolhido para servir de orientação à discussão no ensino médio.

 

 

 

Nós somos o que fazemos do que fazem de nós”. Essa é uma das célebres frases de Jean Paul Sartre(1905-1980). O existencialismo foi uma das correntes mais importantes do pensamento francês do pós guerra. Em seu livro, O ser e o nada, e também em seu livro O existencialismo é um humanismo ,Sartre coloca o homem como o ser que se define por uma consciência em que existir e refletir são o mesmo, que se define, portanto por sua autoconsciência. O ser humano não possui uma essência determinada, não existem sinais no mundo. É o homem, em sua liberdade, porém situada que constrói os seus próprios valores através de suas escolhas que faz na vida. “ O homem tal como o existencialista o concebe, não é passível de definição, porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo”(p.6). Desta forma, o homem se faz continuamente através de suas escolhas, num processo dinâmico que nunca chega a atingir o seu ponto final. Mas, as escolhas de cada indivíduo, tem um valor universal, apesar de individual e pode também ser compreendido por todo o homem. Essa universalidade é construída pelo próprio ser humano. A angústia do indivíduo está aí, ele escolhe para si mesmo e, com isso, está escolhendo para toda a humanidade, não há como fugir disso, desse ato de escolher, que representa a sua ação no mundo, não cabe então, desculpas, não existem morais pré-estabelecidas.

 

A questão da liberdade é muito abordada no filme, Idgie tinha tudo para ser uma menina como as outras: pacata, gostar de usar vestidos, se enfeitar, casar com o homem que “Deus” ou a família designar para ela, mas Idgie foi além, fez suas escolhas e resolveu não se curvar a isso. Uma mulher fora do seu tempo(pois o filme remete ao início do século XX), desde pequena não gostava de usar vestidos, mas ao invés disso usava calças. Amava aventuras, enfrentar perigos e era chamada por sua amiga de “A encantadora e abelhas”, além disso, chegou a subir em um trem de carga à noite com sua amiga Ruth para distribuir comida aos pobres. Até mesmo Ruth, que pertencia à Igreja e achava errado dar o que não lhe pertence, porém, ao ver as crianças famintas correndo pela comida, decide e toma coragem para ajudar Idgie a entregar os alimentos para os pobres. Idgie não seguiu uma “natureza”, pois compreendeu que a existência precede a essência, o ser humano faz-se a si mesmo. E não demorou muito para Ruth compreender isso, daí então ela resolve romper com um marido violento, tornando-se sócia de Idgie e tomando coragem para criar um filho sem um pai. Ambas não se preocupavam com os valores preconceituosos da sociedade. Até mesmo em relação aos negros, o “apartheid” não prevaleceu, pois eles eram bem vindos e bem servidos no local onde elas trabalhavam, alem de serem grandes amigos as duas. Idgie é uma menina rebelde, não pactua com os comportamentos esperados para o gênero feminino dentre do contexto em que o filme se situa. A construção da narrativa é colocada de maneira tranquila. A música exposta no filme e também as fotografias servem de contexto para que o expectador sinta-se sensibilizado e tenha intimidade com os personagens. Ruth e seu marido servem de exemplos para essa distinção, essa dicotomia entre o público feminino e o masculino.

 

 

 

Por tudo isso, compreendemos que Idgie foi além da facticidade. Assim Sartre expõe em sua teoria existencialista, dois componentes importantes: a facticiddade e a alteridade. Significa o conjunto dos fatos que formam o contexto em que o sujeito está inserido na sua existência e manifesta a sua liberdade como por exemplo: a família, o país, etc. porque o homem não escolhe e de início não pode modificá-los porque esses fatos vem antes do indivíduo, porém mesmo assim, o homem é capaz de escolher, de dar a sua própria significação a esses fatos, assim o homem continua a exercer a sua liberdade na medida que ele mesmo que escolhe a significação que quer.