A vingança bela de Oh Dae-su e a A estética da violência em ‘Oldboy’

 



 

 

 

Introdução:

 

 

 

O cinema. Como toda forma de arte, o cinema é dotado da capacidade ímpar de imergir o expectador naquilo que se encontra exposto. A sua projeção em um ambiente específico, bem como a capacidade única de garantir elementos verossimilhantes garantem a ele uma força descomunal que parece absorver o observador para dentro da experiência que lhe é conveniente. Por muito tempo a comunidade dos críticos de arte se viu diante da necessidade de discutir se a sua abordagem seria, ou não, considerada uma expressão artística de fato. Versavam sobre a sua validade, a sua abrangência e a sua capacidade de mobilizar as pessoas. Sua abordagem, muito disseminada e pouco fundamentada em padrões rígidos, garantia a esta nova forma de interpretação do mundo um caráter pouco especial e algo profano, que não levava em consideração as preocupações sublimes do espírito. Considerado como um retrato daquilo que as coisas são e incapaz de abordar a sensibilidade dos homens - bem como as suas subjetividades – o cinema era pormenorizado, não sendo passível enfim de ser apreciado de forma plena. Assim como as formas mais recentes de expressão artística, o cinema se viu como foco de uma discussão deveras preocupada com o seu caráter de – por assim dizer – arte, por parte da crítica da época. Mostrava-se como uma forma de se apenas enxergar o mundo, sem ser capaz de mostrar aquilo que se dava no interior da consciência humana e incapaz de sensibilizar aqueles que o observavam. Um retrato cujas imagens eram dotadas de movimento, que mostrava o homem em seu cotidiano, sem mais nem menos. O homem em seu tempo. Talvez tenha sido isto que fez com que, com o passar do tempo, lhe fosse concedido, enfim, o status de arte; o que possibilitou a expansão de seus domínios àqueles nos quais uma análise feita por especialistas de arte fosse possível, a saber, a capacidade de retratar o homem como homem em sua subjetividade mais aparente.

 

 

 

Hoje em dia a sua apreciação é muito difundida e varia entre a apreciação realizada por um público mais popular e aquele que se encontraria mais restrito/reduzido, podendo o cinema ser apreciado por aqueles que visam um comprometimento intelectual, ou por aqueles que visam a mais pura diversão, ou, até mesmo, por ambos. Tal caráter - que só se tornou possível por conta da massificação dos meios de produção cinematográfica – dão ao cinema uma maleabilidade tal que permite a sua modelagem para diversos campos de apreciação. Com efeito, ao decorrer do século XX o cinema se tornou objeto de apreciação tão massificada quanto restrita, criando em seu seio diversos gêneros, cada qual mais adequado para os mais diversos públicos e interesses, com enfoques cada vez mais específicos. Como reflexo de uma indústria de fácil acesso, dotada da capacidade de criar - e com o capital para tal - o cinema veio como uma bomba cuja explosão acarretou as mais diversas formas de expressão, se tornou, pois, uma das formas de arte mais disseminadas, capaz de abordar os ânimos mais diversos com uma potência inigualável. Tendo isto em vista, o cinema se torna um mecanismo de expressão e liberdade, com o qual todo e qualquer indivíduo que se permita levar à frente um projeto cinematográfico possa ver representando, enfim, as suas impressões acerca de um enfoque específico do mundo.

 

 

 

Com o fim do século XX e início do século XXI o mundo onde havia sido desenvolvido o cinema não se encontrava mais posto da mesma forma. Não era mais o de outrora, mas sim um mundo deveras alterado e calcificado, rígido após vivenciar experiências das mais diversas, este mesmo mundo se encontra agora vivenciando as mais diversas expressões oriundas de uma cisão muito abrupta com um passado muito formal. Tendo vivido as mais diversas expressões de violência, a humanidade se deixa consumir cada vez mais pela vontade de compreender e vivenciar esta faceta que até então se via cerceada e reprimida. Revoluções ao redor do globo, duas guerras de contexto político que abarcavam o mundo como um todo, o constante medo da violência que se mostrava com todas as suas cores, bem como a aparição das mais diversas manifestações pacíficas e a favor destas, davam ao mundo as suas novas dinâmicas de interação.

 

 

 

Em sendo o cinema uma forma de expressão que versa, necessariamente sobre o mundo, em seu mecanismo de ‘dação’ isto não poderia se dar de maneira diferente. Se mostra tendo em seu acervo muitos gêneros, enfoques e abordagens acerca de suas mais diversas produções, que ao longo de um século foram sendo maturadas. A humanidade amadurecia e de igual maneira, se dava o amadurecimento do cinema. Esta violência – que antes buscava, sem resultado, uma forma de se expressar – agora se vê disseminada entre as pessoas e as artes sob novas formas. Seja qual for o âmbito, a arte do século XX foi uma arte marcada pela cisão clara com a tradição vigente, sendo sua força motora uma agressividade que pouco a pouco entendeu o seu espaço e que ganhou transparência. No cinema, este movimento, iniciado com muito mais força na década de 80, fez com que a violência se tornasse um recurso a ser utilizado para expressar todas as frustrações daqueles que se viam impotentes ante as angústias de um mundo sem caminhos certos, mas apenas de possibilidades. Uma nova espécie de tragédia grega se via posta. Tinha se nos cinemas uma forma de experimentar todas as vivências mais diversas sem o medo da repressão ou do peso do mundo, apenas a experiência da violência aliada à sua estética. Era no cinema que as pessoas se sentiam confortadas diante a sua impotência de um mundo massificado e cada vez mais uniforme. Na esteira desta vertente da arte - a saber, a arte que tem como objeto principal a violência - surgem filmes que levam a cabo esta proposta, transformando a violência em arte e fazendo desta arte a mais pura beleza. Tal definição de beleza indica, em todo caso, que as dinâmicas de mundo acerca de belezas estéticas não são, pois, as mesmas. A diversificação do enfoque, juntamente com o aumento da produção, indica em todo caso, uma crescente tendência à apreciação da violência como espetáculo. Neste escopo, podem-se destacar uma enorme quantidade de filmes, entre eles, o filme ‘Oldboy’ de Chan-Wook Park, lançado em 2003, onde o que se tem é um nítido retrato desta vertente elevada à última potência. Enfim a violência como expressão de arte.

Sinopse:

 

 

 

Como uma adaptação do quadrinho homônimo do japonês Minegishi Nobuaki, ‘Oldboy’ traz algo a mais à obra literária em questão e faz dela uma obra de arte a se observar com afinco. Em sua execução, o filme sul-coreano - do também sul-coreano Chan-Wook Park – é magistral. Fazendo parte de uma trilogia cujo tema é vingança, ‘Oldboy’ narra com riqueza a tentativa de ascensão de um homem que sozinho tenta dar conta de enfrentar obstáculos cujo poder lhe superam sem dificuldades. Em sua ensandecida tentativa de achar respostas para as suas ações do presente e, em seguida, descobrir os erros de seu passado, Oh Dae-su se encontra em uma jornada, cuja única forma de êxito é a vingança. Procura sem titubear uma forma de se vingar do responsável que o manteve preso por 15 anos dentro de um quarto por razões a ele desconhecidas. Sem explicações, Oh Dae-su se vê livre um dia e acaba por se apaixonar por uma jovem chef chamada Mi-do, que trabalha de um restaurante japonês próximo ao prédio onde foi preso. Tomado pela incansável necessidade de vingar-se Oh Dae-su vai atrás daquele que o haveria aprisionado de modo a se vingar à altura. Ao longo de seus 120 minutos, o filme ‘Oldboy’ faz do caminho de Oh Dae-su uma sinfonia vista sob a bela ótica da estética violenta que o ambienta.

 

Fundamentação Teórica:

 

 

 

Com efeito, de imediato, o filme já traz consigo indicações claras de que não se trata de um filme convencional do ponto de vista estético. A sua forma de filmar, anexada a um tratamento específico da imagem, dá ao filme, imediatamente, um apelo diverso ao cinema praticado de forma comum. Não obstante, o uso de enquadramentos próprios da obra da qual foi adaptado, Oldboy traz consigo uma espécie de estranhamento muito agradável aos olhos, enunciando, pois, a sua violência de forma evidente. Tal caráter denota, sem rodeios, uma primeira indicação a se seguir para a interpretação do filme como esteticamente violento, a saber, que não se trata, pois, um filme padrão, mas sim, de uma obra que aborda a estética de modo que não se teme o uso de instâncias agressivas para narrar o seu objetivo. Com efeito, a apresentação de tais estruturas não convencionais já prepara o terreno para o que se sustentará sobre o mesmo. Ao utilizar-se de cenas violentas, juntamente com uma história que se narra com atos de violência a empreitada algo ingênua de Oh Dae-su, sob a pretensão de se marcar limites muito claros da ação do homem, Oldboy parece se movimentar de maneira muito própria sobre os espaços aos quais temem a maioria dos homens. Sem medo de encontrar-se face a face com a mais pura manifestação de agressividade para narrar a experiência estética em questão, Chan-Wook Park conduz uma narrativa forte por meios que dão razão à sua tese. Ora, em se tratando de um filme sobre vingança - vingança esta que se dá de maneira violenta – nada mais interessante que narrar tais eventos de uma forma violenta. Desta forma, ampliam-se as formas de interação, amplia-se a impressão estética e amplia-se, igualmente, a força argumentativa daquilo que se quer passar. Neste intuito, o filme navega sem dificuldades e sem medo de se utilizar de formas diversas de beleza para narrar a sua, ainda mais bela experiência violenta acerca da estética.

 

 

 

Sem dúvida, não somente de violência se utiliza o filme. A construção de personagens fundos e algo letárgicos, que se movimentam numa esfera mais lenta de percepção promovem uma quebra que permite a não saturação do filme. Tal lentidão, também ocasionada pela forma de tratamento que se dá a imagem, dá ao andamento do filme um peso que se manifesta com muita propriedade. Como que um grande ser que se movimenta sobre uma superfície deveras insegura, o filme consegue se dar a destreza necessária para andar sem cair, ou quebrar o chão. Sua lentidão permite assimilar as diversas impressões sem que se tenha, pois, uma espécie de sensação de inadequação. As introspecções de cada personagem, bem como a beleza de cada quadro se dão de forma equilibrada e medida, não incorrendo, pois, em situações tediosas ou extremamente opressoras. A este fator soma-se também a utilização de uma trilha sonora deveras bela, que contém em seu repertório músicas de concerto que dão um ar mais dançante ao filme. Esta dança, no entanto, não se dá de forma somente bela, mas sim imprime um ritmo acelerado nas horas certas e o diminui quando convém. Este movimento garante ao filme uma plasticidade ímpar, que permite ao expectador transições menos problemáticas de uma situação para outra, o que dá ao filme um andamento algo frenético, mas que de maneira diversa ao que se poderia considerar, um ar frenético que se mostra como preparatório para as possíveis experiências de violência subseqüentes. O filme transita, pois, muito bem entre os campos da beleza e da violência mais sincera, demonstrando muita propriedade no domínio de cada situação.

 

 

 

Com efeito, as cenas onde a violência se dá se mostram de forma muito especial. Seja com a submissão de elementos que esgarçam a força da violência, este esgarçamento é meramente ilustrativo, não sumindo, pois, de maneira alguma. O deleite do público ao experimentar a violência de forma prazerosa indica, em todo caso, uma reformulação do modelo tradicional de tragédia grega. Com efeito, se antes o que se tinha era uma espécie de projeção do sujeito em relação àquilo que acontecia nos palcos, hoje o mesmo se dá. De maneira diversa, entretanto, o efeito trágico sentido hoje não é mais algo que se abate como que uma sombra ameaçadora, mas sim como uma faceta que a nós nos parece muito própria. A vivência do aspecto trágico em si, hoje em dia, aponta - diversamente àquele tradicional - para um caminho seguro ao qual se seguir, não como algo a se não fazer, mas como algo a se saber explorar. Desta forma a narrativa de uma história trágica, aliada a elementos violentos, dão ao filme uma cara muito contemporânea e – por assim dizer – educativa.

 

 

 

Se ao analisarmos o filme como uma espécie de reformulação do modelo das tragédias, o que se verá nitidamente é um filme que segue fielmente um modelo bem clássico de tragédia, onde o que se dá é uma sucessão de ‘erros’ por parte do personagem principal, que tenta incessantemente superar a sua condição mais conveniente. Como que em uma obra de arte muito agressiva e cativante, os feitos dos personagens se dão de forma extremamente bela. Cada erro se vê redimido pela beleza da violência que lhe corresponde. Estes erros se dão sempre de forma inconsciente e apontam enfim para uma punição dura à qual o personagem não se podia prevenir. De igual maneira, este mesmo personagem se encontra em queda logo no início da narrativa e caminha rumo à bela ascensão em prol da superação daquilo que é. Por vias de uma agressividade libertadora, todo erro não se mostra como tal aos olhos de Oh Dae-su, visto que em sua incansável busca por vingança, cada ato de violência se vê mostrado de maneira justificada por sua beleza. Tal tentativa - embora bela - de superar o inexorável acarretaria, em todo caso, uma punição por parte de instâncias superiores que teriam como função, a regulação do mundo dos homens. Por mais que a sua empreitada se dê de forma favorável, a sua queda é inevitável. Com efeito, sua falha ou êxito em alcançar o seu objetivo, incorre, enfim, num reconhecimento do erro por parte do personagem principal, que ao fim, depois de seu quase êxito em superar a sua condição, se encontra impelido a punir-se a si mesmo. Como que em uma volta à normalidade, o personagem vê o mundo em sua cor mais pura. Não mais belo, o mundo se mostra de forma crua e a violência, como tal. No que ocorre tal tomada de posição, o que se identifica é, pois, uma queda, queda esta que coloca o personagem num estado de mártir para o resto de seus dias em uma condição pior que a inicial. Em um movimento de se redimir pelas vias da estética, o personagem encontra-se punido por se mover no seio desta mesma estética, que lhe parece, por fim, apaziguar. A paz pela morte igualmente violenta, um fim equivalente ao caminho ao qual se seguiu.

 

 

 

Conclusão:

 

 

 

Tão frenético quanto é belo, o filme parece dançar levemente ao som de uma sinfonia violenta que se movimenta em caminho à redenção, redenção esta de um personagem que almeja chegar a um lugar inalcançável. Como que em um modelo tradicional de tragédia grega, o filme ‘Oldboy’ narra as peripécias de um homem que, movido pela hybris, desafia aquilo que está para além do seu controle, encontrando em seu caminho nada senão, destruição perda, dor e beleza. Com o fim do filme, vem a percepção de que toda sua empreitada não passava de um mero sonho; uma desmedida; algo para além do que se devia ser feito. Não mais pintado por cores belas, a marca do mundo se impõe de forma clara. Neste instante segue-se, pois, a queda, pós ascensão que é comum às diversas tragédias gregas, na qual o personagem se percebe como erro, e se vê incapaz de levar à frente a sua vida de forma normal. Com efeito, o corte de sua própria língua, juntamente com a escolha de se viver sem a memória daquilo que passou, fazem de Oh Dae-su o grande tolo trágico, que tenta a todo instante, vamente, lutar contra aquilo que está para além de seu alcance. Cego pela sua violenta potência estética luta contra algo que lhe impõe limites e lhe narra o seu espaço. Entretanto, em sua tolice o personagem não percebe o quão fútil é a sua tentativa de tentar se impor como algo que não é para além de seu espaço de realização. Como que um Édipo da contemporaneidade que luta contra o seu destino, Oh Dae-su se vê como um peão da vontade de alguém, cujas forças transcendem o mero espaço de realização do homem como produtor de uma arte não bem vinda à comunidade. Com este efeito, o que se tem para o público é o mesmo. Ao entrar em contato com aquilo que se dá na tela, é esperado do expectador comum, que este se veja diante de sua própria impotência, donde, nos dias de hoje, não se consegue sair. A reafirmação do puro caráter de insignificância pelo observador se mostra sem dificuldades e isso levaria, em tese, à uma conformidade com a situação vigente.

 

 

 

Tal fator, entretanto, por si só parece não dar conta de afetar aquele que se encontra diante da tela. Evidentemente pasteurizada nos dias de hoje, a violência por si só necessita de uma expansão, expansão esta que se dá para níveis extra cotidianos. A inserção de caráteres extremamente violentos, necessários para que se almeje tal efeito, vêm como um imã que se ocupa de dar conta, pois, da mera exposição do sujeito ao seu estágio mais puro e frágil. Como que em uma grande tragédia grega os filmes que abordam a violência como que sendo uma experiência estética, vêm como um conforto ante as intensas sensações às quais estão submetidos os homens, que desta vez não se dão mais de forma ingênua, mas sim, apropriada e reconhecida como fazendo parte da própria mecânica de estar no mundo. A sua elaboração e o deleite advindo de tal dinâmica denotam a aparição de um indivíduo mais preparado para lidar com o mundo de uma forma geral. Eis, por fim, a dinâmica da estética da violência, que vem como que para aliviar a consciência de todos aqueles que se vêem presos na impotência da cotidianidade. Redimidos de seus erros mais imediatos, os indivíduos da sociedade organizada que se vê configurada hoje se vêem tranqüilizados ao saber que sua intensidade pode ser correspondida em alguma instância. Não mais incapazes de se fazer compreender, voltam para as suas vidas cotidianas para mais uma dose de vivências pouco relevantes.

 

 

 


Adaptação para o Ensino Médio:

 

 

 

Quando se trata de filosofia no ensino médio uma coisa é clara, o que lá se faz não deve ser filosofia tal como a vemos na academia. Com este intuito, a abordagem de questões estéticas em geral para longe do escopo da violência, parecem coerentes, visto que a sua consideração se encontra fora de questão para os aspectos mais cotidianos de um aluno do Ensino Médio. A sua consideração deve ser tomada de forma passageira, sendo algo deveras restrito ao qual se deve deixar de lado. Com efeito, com a utilização do filme, os enfoques devem se dar sob o domínio das questões estéticas de uma maneira geral. Não obstante, a sua abordagem na filosofia e uma introdução ao tema se fazem necessários, visto que, é somente a partir do desenvolvimento de um olhar filosófico sobre o filme, onde a questão estética é imprescindível, que o debate pode se desenrolar de forma saudável. A partir da discussão sobre o tema da estética e de como cada aluno nota a questão da estética no filme, cria-se a possibilidade de se introduzir, portanto, diversas visões acerca desta. O que proponho nada mais é que uma discussão livre para incitar o pensamento e propiciar o nascimento da atividade filosófica de uma maneira geral. É necessário que se crie um ambiente adequado à atividade filosófica. O retorno às temáticas mesmas que tornaram possível a aparição da filosofia se faz, igualmente, necessária.

 

 

 

A importância de se considerar o caráter trágico também vem como um ponto relevante a ser levado em conta. Ele vem como sustento para o fator citado acima, a saber, propiciar o ambiente propício para o surgimento da atividade filosófica. Desta forma, podem-se introduzir algumas noções interessantes aos alunos. Pode-se falar, por exemplo, da importância do pensamento mítico para o surgimento da filosofia, bem como abordar noções importantes para a compreensão deste mesmo tópico. Com efeito, ao se desenvolver e incitar a aparição de compreensões acerca de conceitos como o de destino, inexorabilidade, determinismo e hybris, abrem-se as portas para uma comunicação no âmbito da ética e da política. A exploração de pequenos temas, conjugados com a opinião de cada aluno se completam e dão a cada um a capacidade de levar à frente a sua posição. A aparição de debates é importante, visto que é nele que se desenvolveram as primeiras formas de desenvolvimento filosófico. Da mesma forma, pode-se falar da abordagem trágica enquanto arte no contexto grego. Com efeito, a estrutura trágica não somente tratava de questões políticas, mas igualmente de questões éticas e, evidentemente estéticas.

 

 

 

Os pontos acima, por si só, bastariam para que se desse o debate entre os alunos e o aparecimento do fazer filosófico, mas ainda há pontos aos quais se poderiam abordar a partir do filme. Sem dúvida, se considerarmos a análise da narrativa mítica de uma maneira geral, muito pode se dizer a partir do filme. Em se considerando o discurso mítico grego, por exemplo, podemos falar da existência de um código de regras e condutas dos cidadãos gregos que vinha através de toda uma tradição mítico-narrativa. Esta marcava, claramente, os valores da sociedade como um todo. É sob este escopo, que se pode falar de religião sem que se entre em um aspecto moralista acerca de certo e errado, por exemplo. Aborda-se aqui, somente a análise da moral e seus diversos aspectos, sem dar preferência a um ou a outro modelo em especial. É necessário que se faça com que os alunos ganhem a capacidade de pensar por si e que avaliem as dinâmicas nas quais estão inseridos. Deste modo as discussões se tornam mais ricas. Não é necessário que se entre em detalhes acerca de nomes, no entanto. O importante é que se desenvolva a capacidade argumentativa de forma algo razoável.

 

 

 

O que se tem em mente não é exatamente uma aula acerca de conceitos mais complexos sobre a filosofia posterior àquela realizada na Grécia, mas sim uma espécie de introdução à filosofia a partir de questões da própria filosofia em seu início. Através de pequenas noções o que se propõe a partir do filme é, pois, a discussão ao redor do ato mesmo de filosofar. Nada muito complexo e, em todo caso, nada simplista. Enfim, a filosofia em sua medida inicial, animada, curiosa e ingênua.