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Uma rápida pesquisa na internet sobre o termo Mefistófeles nos levou à página da Wikipédia, onde encontramos a seguinte informação:

“Durante o Renascimento, era conhecido pelo nome de Mefostófiles, forma da qual deriva uma das suas possíveis etimologias, segundo a qual o nome procede da combinação da partícula negativa grega μὴ, φῶς (luz) com φιλής (o que ama), ou seja, "o que não ama a luz". No entanto, o significado da palavra não foi estabelecido por completo. Butler menciona que o nome sugere diferentes conjecturas nos idiomas grego, persa e hebreu. Entre os nomes sugeridos estão Mefotofiles (inimigo da luz), Mefaustofiles (inimigo de Fausto) ou Mefiz-Tofel (destrutor-mentiroso).”

A partir desta informação estaríamos tentados a pensar que a personagem do filme em questão, Hendrick Höfgen, se enquadra na figura de Fausto. A personagem é um ator de teatro que, no desenrolar de sua carreira, acaba por se tornar representador oficial da persona de Mefistófeles. Acima é dito que esta palavra pode significar o inimigo de Fausto (Hendrick Höfgen), ou o destrutor-mentiroso, ou o inimigo da luz. De início, não poderíamos pensar que Höfgen fosse inimigo (não amante) da luz, pois ele a procurava a cada ímpeto pelo qual buscava a fama e o brilho que esta concede ao ator no palco do teatro da vida. O teatro era sua vida e definia sua existência, ele não tinha mais olhos para nada. Discursava com paixão e vigor sobre a unidade de imagem, luz, sombra, cena, palco, atores e público, assim como Hitler discursava sobre a unidade do povo alemão sob a representação dos símbolos e construções de mentalidades proporcionadas pelos atores do palco da política nazista.

Todavia, a última cena do filme nos mostra como Höfgen não estava preparado para o brilho que buscava impetuosamente. O general nazista o leva para o grande palco escuro do rito sombrio da simbologia nazista, gritando o nome de “Hendrick Höfgen” que ecoava solitário pelo palco escuro, sendo cegado e perturbado pelos raios de luz que tanto almejava como realização da vida de ator. Algumas falas do filme são bastante significativas; por exemplo, nesta última cena que comentamos, o filme subitamente termina com as luzes sobre o rosto desesperado de Höfgen, este fala as seguintes palavras, e a imagem se congela, pondo fim ao filme: “o que querem de mim? Eu sou só um ator.”

É muito interessante que o filme termine com estas palavras de Höfgen, cuja imagem da face em desespero iluminada pelas luzes do palco em que se daria a grande peça teatral do culto nazista é congelada, pondo fim ao filme com a enunciação acima citada. Pois é isso mesmo o que se requeria dele, que ele fosse um ator e representasse uma persona determinada, a saber, um ator que é mero funcionário de uma política de produção de personas, máscaras e representações sociais de subjetividades construídas para servir ao poder e reproduzir o que interessa aos desígnios do poder; não dos homens que estão no poder, mas do poder que já se apoderou de todos os homens e forja seu ímpeto no desejo doentio de mais poder de querer mais poder de querer mais poder...

Pois bem, Höfgen se pergunta “o que querem de mim? Eu sou só um ator.” Lembremos então quais as palavras de Mephisto, a máscara de Höfgen, o ator: “tu serás o que tu és”. Só isso e mais nada foi exigido a Höfgen do governo de Berlin, após a vitória do Partido Nacional Socialista, que ele seja o que já é. Ora, na esteira das reflexões sobre arte e política, e também sobre filosofia e política, perguntamos que pode fazer um artista, que pode fazer um filósofo face ao poder; que pode fazer o homem face ao desejo de poder que se apodera de nossa alma antes que percebamos que isso tenha acontecido? Pois enquanto a arte é capaz de forjar a mente das massas para o que quer que pretenda fazer com o povo, a filosofia é capaz de forjar os discursos e argumentações retóricas pelos quais a realidade em máximo grau, o conceito, é representada ao homem, de modo que o homem não se perca no nada de significados e de representações de mundo, isso quando essas simbolizações, significações e representações por si mesmas nada revelam senão o oceano de nada em que a humanidade navega, passando por tormentas e maremotos sem fim, em busca sabe-se lá de que, talvez de liberdade, ou qualquer palavra que queiram colocar no lugar desta.

Há uma cena no filme em que Höfgen se refere à arte com as seguintes palavras: “devemos estar acima de tudo o que acontece no mundo”. Isso nos lembra a exigência de Aristóteles para o filosofar no Livro I da Metafísica, onde se reconhece no ócio a condição para a vida contemplativa que perscruta pela essência dos movimentos celestes, que especula as ciências teóricas da física e da matemática e, mais ainda, a vida do pensamento que se interpela pelas primeiras causas e pelos primeiros princípios da realidade enquanto tal, o ser (ente) enquanto ser. O filósofo quer filosofar, o artista que viver a vida da arte, que lhes importa de onde vem o financiamento da vida do filosofar, o representar por conceitos, e do representar artístico por imagens e sons!

Por isso, ao pensarmos a relação entre filosofia e política, não caímos numa impulsividade repulsiva e ignorante do tipo “ah! Heidegger era nazista!” Talvez fosse tanto quanto Höfgen, e tanto quanto todos nós somos democráticos, única e exclusivamente porque o fervor geral da massa de intelectuais, políticos, trabalhadores e mais quem sejam repetem a todo instante as “verdades” democráticas. Até isso se nos aparece como mera reprodutibilidade técnica: “o discurso de esquerda”, “o discurso de direita”, “o fascismo”, “o totalitarismo”, todos já sabem o que falar e todos não se cansam de repetir o que já se sabe falar, e assim vai como foi e vice-versa.

O general nazista de nossa consciência de classe e de nosso Eros freudiano grita e ecoa pelo vazio de nosso desejo de apropriação que se apropria de nós, como gritou para Höfgen, “vamos dominar o mundo”, e nós todos respondemos justificando nossos próprios desígnios perdidos na mascarada mefistofélico-gorgônica que nos oculta nosso próprio ser que já nem sabemos ser se é isso ou se é só um fantasma flutuando no Hades da multimídia e da informação “devemos estar acima de tudo o que acontece no mundo”. Mas todos nós sabemos que, enquanto atores sociais do mundo, como Höfgen discursou em certa festa sob a bandeira nazista que ninguém sabe até hoje o que significa, todos dizemos em prol de nossa arte (vida): “sem patronos, a arte é um pássaro sem asas”... e a corrida desenfreada pela liberdade é a esperança de um salário digno, de um plano de carreira, de um poder de aquisição e consumo, de fama e usufruto das relações sociais e das pessoa humanas a bel prazer com declarações solenes e pomposas de honra ao mérito ou qualquer representação que seja. Portanto que me importa se Höfgen (o artista) e Heidegger (o filósofo) eram nazistas! Pois eu acho que todo funcionário público é um nazista em potencial, na medida em que serve ao Estado estabelecido e reproduz o que se permite pela reprodutibilidade técnica da vida contemporaneamente produzida e reproduzida pela política.

A arte, a filosofia, a política costumam ser pensados democraticamente como terrenos distintos nos quais crescem diversos modos de manifestação do que se persegue e do que se não consegue, a liberdade (talvez também a igualdade e a fraternidade). Cada um de nós, porém, guarda dentro de si o espírito de um artista provinciano que almeja ser revolucionário e reunir, sob sua fama resplandecente, a totalidade da nação e da pátria teatral das máscaras do ser. Mantemos uma relação oculta com uma negra sensual e, com ela aprendemos a dançar com desenvoltura. Mas nos apaixonamos por uma germânica linda, delicada e burguesa, que passa a financiar nosso existir teatral em meio às máscaras do ser no baile dos entes na era da reprodutibiblidade técnica de tudo que é e está sendo. De modo que desistimos da fedentina dos botequins bolcheviques, abandonamos o espírito russo em prol da luz da fama a fim de que o ser possa ser sensação em nosso corpo transmutado em fenômeno originário da realidade pela unidade de palco e platéia nos aplausos doentios de uma massa de ignaros cuja mente é forjada para servir os interesses da nação e da pátria, seja esta nacional socialista ou internacional capitalista.

Bolcheviques russos, burgueses e farsantes franceses, nacional-socialistas alemães, ou hoje, cidadãos de um mundo globalizado pela tecnologia e pela ciência, pela multimídia e pela mônada lebniziana do sistema monetário no qual as ações dos atores sociais ficam chacoalhando a bolsa de valores à procura do lucro que prepara as próximas possibilidades de mascaramento de nosso sepulcro.

O filme nos mostra a arte a serviço de ideologias políticas, não só do nazismo, mas de todas elas. Na arte há espaço para todas as máscaras. A função do artista é representar, eis sua labuta, vestir a máscara e assumir a persona do meio social em que está (o poder político, o povo, os trabalhadores, a burguesia, o bolchevismo...)

“O que querem de mim? Eu sou só um ator.”

Hendrick Höfgen

“Tu serás o que tu és.”

 

Mefhisto.

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