Vimos pelo filme que Giordano Bruno era uma figura que se poderia denominar, em sentido talvez nietzscheano, dionisíaca. Ele foi batizado Filipe e recebeu o nome Giordano ao ingressar no convento de São Domingos, este localizado em Nápoles. Neste lugar, Bruno foi ordenado sacerdote no ano de 1572. Teve uma vida movimentada e, após ser acusado de assassinar um confrade, foi para o norte da Itália. Em 1579 viveu em França, em 1583 foi pra a Inglaterra. Neste lugar, alguns doutos o teriam acusado de plagiar as doutrinas herméticas de Ficino. Mais dois anos, ele retorna a Paris, onde, sem proteção real, entra em conflito com os pensadores aristotélicos. Dali vai à Alemanha e, após tentar obter ajuda do imperador da Áustria, retorna à Alemanha e ali ingressa na comunidade luterana, da qual é expulso em pouco tempo. Em 1590, um nobre de Veneza convida Bruno a fim de que possa receber ensinamentos na arte da memória (mnemotécnica). Este nobre, chamado Mocenigo, denunciará Bruno ao Santo Ofício. O processo termina com a retratação de Bruno, mas isso não o impede de ser levado à cidade de Roma, onde é condenado a morrer na fogueira.

No filme, Bruno é uma figura de conduta dissoluta e depravada, freqüenta tabernas e redutos de prostituição, lugares onde, embriagado, professa suas doutrinas de maneira um tanto quanto “mística”, demonstrando talvez que sua conduta esteja em consonância com os ritmos de estruturação da realidade da natureza e do universo, segundo suas concepções de um universo infinito e congregado numa totalidade una, na qual a divindade aparece como manifestada em cada um dos entes presentes como formas animais, vegetais, conjunto dos seres vivos, sistemas solares etc.

Trata-se de um pensamento panteísta, que percebe em cada ente singular uma manifestação da divina potência criadora, a qual se identificaria com cada um desses entes e com a totalidade das relações entre os seres. A própria espécie humana traria resquícios das diversas espécies animais, aves, bovinos, suínos etc. a matéria constituindo certa integridade entre toda a natureza e todo ente presente na e gerado pela natureza.

Talvez o pensamento de Bruno seja semelhante à doutrina da substância única e infinita de Spinoza, a qual, como natureza naturante, manifesta muitos modos de seu ser, assim gerando a totalidade múltipla dos entes finitos e presentes como natureza naturada, no interior da movimentação incessante de geração e corrupção dos entes finitos que assumem uma forma, manifestando um modo individuado da substância infinita. Sejam as comparações pertinentes ou não, Schelling escreveria mais tarde também seu diálogo Bruno ou do princípio natural e divino, no qual se percebe a influência do panteísmo de Giordano Bruno.

As influências deste pensador vêm do hermetismo mágico e da recuperação de doutrinas pagãs vindas do Egito e de procedência teórica neoplatônica que circulavam nos tempos do Renascimento. A magia egípcia influenciava mais o pensamento de Bruno do que o Corpus Hermeticum propriamente dito, considerado um prenúncio místico do cristianismo. Desse modo, as influências de Ficino e do pensamento misteriosófico e mágico em geral contribuem para a elaboração de uma doutrina extática cujo fim seja a experiência da inserção da consciência individuada na unidade da totalidade infinita, assim mostrando como havia certa tendência para a hybris mental no pensamento de Bruno, já que um ser humano não suportaria tal experiência de dilaceração do indivíduo no uno total infinito, da mesma maneira que da embriaguez ou se volta à sã consciência sob os efeitos de estrago percebidos na ressaca, ou simplesmente o organismo não suporta e morre, o que não deixa de ser uma experiência de êxtase e dilaceração do finito no infinito universal.

A elaboração de uma arte da memória, a mnemotécnica, trabalha em conjunto com a experiência extática do uno infinito. Confunde-se com a magia porque a memorização das imagens arquetípicas do universo traria à mente humana um acesso à ordem cósmica total, conferindo poderes mágicos diretamente fornecidos pela sua inserção harmônica na pulsão da totalidade do cosmos infinito. Trata-se, pois, de uma técnica de memorização e resgate do infinito poder gerador da natureza para o livre acesso da mente humana a tal poder; trata-se de magia ocultista, e não de simples técnica de memorização de textos ou regras de linguagem para um exercício meramente intelectual e erudito. Daí a acusação de magia por parte do Santo Ofício.

O pensamento de Bruno conjuga a magia astral e o culto solar egípcios com o heliocentrismo e a infinitude do universo. De fato, a Igreja não poderia aceitar uma doutrina como esta. A doutrina do Sol como centro do universo se harmonizava perfeitamente com o símbolo do Sol como imagem figurada do intelecto divino, e também se harmonizava com a idéia da existência de mundos infinitos no interior da totalidade cósmica, permitindo deixar de lado a teoria aristotélica do cosmos finito.

Interessante também é o fato de Bruno estabelecer certa diferença entre o universo e Deus, embora este seja mente presente em todas as coisas. De fato, o Universo é tido paradoxalmente por Bruno como infinito e não infinito, pois é todo infinito por não ter superfície, limite e fim, mas não é totalmente infinito, como Deus, este sendo também infinito em cada uma de suas partes como causa que as abrange; no universo, derivado de Deus, as partes que por ele abrangidas são finitas. De qualquer modo, Deus é presente no universo como causa imanente.

Gostaríamos de concluir este trabalho sobre Bruno com uma menção do texto de Reale sobre os “furores heróicos”, referente ao mito de Actéon e Diana. Actéon foi transformado em veado por ter visto a deusa no banho, simbolizando uma caça selvagem devorada por seus cães. Diana representa a divindade como imanente à natureza. Actéon é o intelecto que caça a verdade e a beleza divinas; seus mastins são representações ou figurações das volições; seus galgos simbolizam os pensamentos. Há no mito a conversão do caçador naquilo que caçava, sendo devorado por seus próprios cães, que são figuras dos seus pensamentos e volições. O sentido do mito, conforme interpretação de Bruno, é que a verdade que caçamos está em nosso interior, se nos rememoramos disso através da arte mnemônica, somos anelados por nossos próprios pensamentos, percebemos a divindade presente em nós e não a procuramos fora. Assim, a culminância do furor heróico reside na visão da totalidade inteira, o homem assimilando-se ao todo numa experiência de êxtase que retorna a si.

BRUNO, Giordano. Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1998.

REALE, Giovanni. História da Filosofia: Do Humanismo a Kant. São Paulo: Paulus, 1990.