De acordo com o roteiro proposto, introduzimos este trabalho evocando o tema cinema e filosofia política, sem, contudo, deixarmos de lado a relação desta com a dimensão ética e a estética. Isso porque nos baseamos no texto base do curso: a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, no qual Benjamin nos deixa clara a relação entre uma estética ou filosofia da arte com a filosofia política, deixando claro também que seus conceitos não são apropriáveis pelo fascismo, porém podendo ser utilizados com intuitos revolucionários na política artística. Por isso, se constata também a presença de certo ethos objetivado para a atitude “revolucionária” no âmbito social-político.

 

Pensamos justificar a escolha da temática e do filme evocando os aspectos pertinentes à situação e à configuração do mundo contemporâneo ao longo dos acontecimentos do século XX: 2ª Guerra Mundial, polarização do mundo em socialista-comunista X capitalista / sociedades fechadas X sociedades livres ou abertas. Temos em mente, por exemplo, as reflexões de Benjamin sobre as mudanças na arte com o advento da fotografia e do cinema e a relação da arte com os acontecimentos políticos do mundo contemporâneo.

 

Com efeito, Benjamin pensa criticamente em relação ao totalitarismo fascista e procura viabilizar uma perspectiva revolucionária para a arte e as políticas a ela referidas, bem como ao uso que propagandas ideológicas podem fazer da arte, como vemos no filme denominado Mephisto.

 

Portanto, pensamos justificar ao longo do próprio trabalho a escolha do filme Sete Anos no Tibet, e nos perguntamos se, em um mundo globalizado, a essência humana se determina mesmo pelos modismos consumistas que se apropriam de todos os discursos “científicos” a fim de produzir, através dos meios de comunicação (cinema = imagem em movimento + música e toda técnica ou arte possíveis, incluindo o mundo dos esportes e eventos mundiais) novos mercados de consumo e mentalidades voltadas ao consumo e ao mero entretenimento na busca ilimitada por diversão e prazer.

 

Em meio a um mundo “hedonista” em que todos buscam o próprio prazer, a fama, o lucro e ganho pessoal, o que inclui a determinação do homem pelo psiquismo freudiano que, por sua vez, determina a psiqué humana como desejo ou impulso libidinal; em meio a um mundo em que o ser e pensar “revolucionariamente” já se tornou um modismo ultrapassado que não se percebe enquanto tal, tentando renovar-se num materialismo banal que só justifica e conserva o próprio andar vigente do processo de internacionalização do mundo, submetendo todas as relações humanas ao modus operandi do comércio, da produção, das relações de propriedade, e da política reduzida à luta de classes em vista do poder (corporativismo, sindicalismo, programas eleitorais e mercado da política das sociedades liberais democráticas etc.)..., enfim, em meio a isso tudo, pensamos que o filme escolhido talvez possa trazer um pouco de repouso e paz àqueles que já não suportam mais o barulho e o rebuliço das opiniões massificadas, sejam estas provenientes de especialistas e técnicos em produzir crítica científica, ou de meros espectadores cansados de seu trabalho que se sentam em bares e, alcoolizados, discutem o desfile de informações dispostos pelos programas de televisão e de mídia comunicativa em geral.

 

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SINOPSE DO FILME: O diretor do filme se chama Jean-Jacques Annaud; o filme data do ano de 1997; sua duração é de 134 minutos; a fotografia é de Robert Fraisse, a música é de John Williams; o figurino é de Emrico Sabbatini; o roteiro é de Becky Johnson baseado na história de Heinrich Harrer.

 

RESUMO: Este filme é uma narrativa da história do alpinista austríaco Heinrich Harrer, personagem estrelado por Brad Pitt. Harrer vive na época da expansão nazista pela Europa; como era uma ambição nacional escalar o Nanga Parbat, um dos picos mais altos do Himalaia, Harrer se aproveita disso para realizar uma ambição pessoal, a fim de obter fama e glória pessoais, afinal, a cena em que pega a bandeira nazista demonstra certa antipatia de Harrer por questões nacional-socialistas ou políticas em geral. Seu egoísmo é tamanho que abandona a esposa grávida para realizar tal empreitada. Durante sua aventura, Harrer é capturado por ingleses em território britânico no período em que se dava a Segunda Guerra Mundial. Consegue fugir com o companheiro Peter Aufschnaiter (David Thewlis), e ambos passam por muitos perigos até se instalarem em Lhasa, Capital do Tibet. Ali, Peter conhece uma nativa, com quem se casa, e Harrer conhece o Dalai Lama com quem estabelece um vínculo de amizade, aprendendo a desatar-se de seus apegos individuais e desejos egoístas, convivendo com uma cultura simples e comedida. Harrer presencia as dificuldades daquele povo no contexto da invasão do exército da China, esta tendo estabelecido governo Comunista, cuja doutrina histórico-materialista-dialética da luta de classes não tolera a simples cultura espiritual tibetana. Ao final da Segunda Guerra, Harrer retorna a seu país, encontra seu filho já rapaz e sua esposa já casada com outra pessoa; o filme termina com a bela cena de Harrer e seu filho no pico do monte com a bandeira tibetana nele fincada.

 

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Tendo em vista o que dissemos acima, fundamentamos teoricamente este trabalho constatando a pertinência da mensagem do filme com relação ao assunto da filosofia política em nossa época contemporânea. Isso inclui as reflexões sobre o papel da arte e das políticas artísticas determinadas por contextos e interesses, à luz das reflexões do texto de Benjamin acima citado. Este texto é explícito em apresentar perspectivas revolucionárias de compreensão da política, partindo da reflexão marxista sobre os modos de produção capitalista.

 

Benjamin chama nossa atenção para a perda da autenticidade (aura) da obra de arte com a transformação do valor de culto da arte para o de exibição, transformação esta sofrida por causa do advento da reprodutibilidade técnica na fotografia e no cinema. Com isso, a arte perde sua função ritual e assume outra forma de práxis, a função política.

 

Com efeito, a configuração político-econômica do mundo contemporâneo internacionalizado é tal que submete toda visão de mundo possível à questão da produção e do consumo, de quem detém os meios de produção, de como se dá a divisão do trabalho e de como as nações se organizam politicamente em defesa de seus interesses próprios no mercado mundial. Essa configuração de mundo objetiva as produções artístico-culturais de cada distinta etnia de modo a convertê-las em uma circulação de artigos de compra e venda no seio de uma indústria cultural, preenchida com artigos e produtos consumíveis para a multiplicidade indefinida de variabilidade de gostos no mundo do entretenimento e da categorização do cidadão comum como “consumidor”. Do mesmo modo, a cultura é dissociada do mundo da vida, a religião se torna um assunto político ou uma formalidade social ou folclórica, e a natureza segue servindo de fundo de reservas de matéria bruta disponível para a intervenção do maquinário dos diversos setores produtivos, que asseguram a produção das necessidades utilitárias da civilização humana.

 

Portanto, pensamos que este filme apresenta uma situação na qual seja possível uma contextualização dos acontecimentos históricos e políticos do século XX, os quais se desdobram no estado atual das relações e da configuração do mundo globalizado hodierno, bem como nos mostra uma experiência de leveza e paz espiritual no encontro do homem ocidental (figuração do homo universalis e cosmopolita, sem fronteiras)1 com uma tradição antiqüíssima que vai sendo devastada por essa ânsia de universalização e materialização ateísta e anti-tradicionais2.

 

As guerras e os acordos de paz, a definição das fronteiras geográficas ou étnicas, a polarização do mundo e a corrida armamentista, o desenvolvimento de tecnologias e o investimento em pesquisas científicas que viabilizem a produção de novas técnicas e de novas possibilidades de tecnologias desenvolvidas, a corrida pelas conquistas de territórios “extraterrestres” empreendida pelos programas espaciais, a competição por mercados, a queda da URSS, as invasões e conflitos no Oriente Médio, o projeto de globalização e inserção de todas as culturas como fantasias passadas e fetichismos capazes de se tornarem produtos consumíveis no mercado mundial do entretenimento e do materialismo de todo tipo que assola toda a humanidade; tudo isso chama nossa atenção para a impossibilidade de, no mundo contemporâneo, o homem poder experimentar a simplicidade de uma relação harmoniosa com tudo que é, com a Terra, com a fauna, com a flora, com o Céu, e consigo mesmo, em meio à perturbação do mundo do trabalho, do mercado, da computação, do cálculo das ações e das objetivações, das programações e projeções, da globalização do modo de pensar ocidental europeu, cuja culminância na consumação da metafísica se dá em Nietzsche, o arauto da Morte de Deus, instalando o domínio incondicional da produção humana sobre os entes, o império da técnica, conforme o pensamento de Heidegger.

 

Neste mundo, tudo que é sólido se desmancha no ar. Talvez este sólido a desmanchar-se seja o mais simples e o essencial, esquecido pelo homem contemporâneo e talvez vivenciado por Harrer na sua estada no Tibet, junto ao Dalai Lama. É desse modo que interpretamos uma frase escrita na capa do DVD do filme em questão, angustiados em nosso mundo globalizado e sem fronteiras: Quando a última fronteira... é o início de uma nova vida. O início de uma nova vida no ultrapassar da última fronteira, porém, requer a experiência do aprendizado. E o que o homem contemporâneo talvez precise aprender seja a simplicidade diante do que pura e simplesmente é em seu resguardo de ser. Com isso, passamos ao tema da discussão do que poderia ser pensado a partir deste filme no Ensino Médio.

 

Este filme nos ajuda a pensar o choque de mentalidades distintas e o aprendizado que este choque pode nos provocar. Este aprendizado, porém, não vem sem o esforço e a dor do choque. Harrer se nos apresenta como um típico homem ocidental, que pensa que tudo existe para si, para a fruição de seu prazer, de sua vaidade, de sua ânsia de sensação e adrenalina, de aventura ao acaso, de vontade de poder e dominação sobre a totalidade dos entes; trata-se de uma figuração do modo ocidental de ser, em seu modo de organização democrático e liberal, assegurando os direitos ao individualismo e à plena satisfação dos prazeres pela capacidade de consumo como ilusão da liberdade.

 

De outro lado, vemos um governo forte e autoritário se estabelecer na China e invadir o Tibet, demonstrando a disciplina imperial do Estado centralizador de poder calcado no materialismo dialético produzido pela crítica da economia política tal qual esta se dá como evolver histórico do mundo ocidental, não obstante o socialismo acontecer com mais força naqueles lugares onde não há tradição histórica de lutas por democracia e reivindicações “revolucionárias”, a saber, a parte oriental (leste) da Europa que formou o bloco soviético, e a China mais a Coréia do Norte, cujas tradições remontam a governos “imperiais” ou “reais”.

 

Tais acontecimentos não acontecem, contudo, sem o advento da expansão ocidental, francesa e inglesa, sobretudo, no século XIX, assim estruturando o capitalismo mundial e devastando as tradições culturais de todos os povos da Terra, configurando a categorização geopolítica do nosso mundo atual dividido em continentes e países demograficamente delimitados etc. Trata-se da expansão ocidental e sua dominação sobre Ásia e África. E se a dominação se torna norte-americana no século XX, isso não exclui o fato de ser uma dominação cultural ocidental que se internacionaliza e pretende unificar a multiplicidade cultural sob a ânsia de domínio manifestada nos cálculos e objetivações de tudo que se mostra sendo. Com isso, as diversidades culturais servem de matéria para a reprodutibilidade técnica das manifestações artísticas produzidas com base nas culturas devastadas e nos povos e modos de vida dizimados pelo avanço técnico-científico mundial (ocidental), com forte ajuda da perspicácia dos japoneses, estes já ocidentalizados. A reprodutibilidade técnica, no entanto, não assola só o campo da arte, mas também tudo que é produção humana em geral, até as tentativas de clonar animais e humanos.

 

Em seu texto, percebemos que Benjamin procura delinear a situação da obra de arte na contemporaneidade, esta caracterizada por constituir uma sociedade, a nosso ver, cujos elementos constituintes são a técnica de reprodutibilidade serial de objetos em todos os níveis. Com isso, acontece a extrema massificação do homem e da arte sob dois contrapontos: o fascismo e o comunismo. O primeiro com uma estética da natureza bélica em sua política; o segundo com um preenchimento de significados políticos na arte, que deve representar a ideologia da classe ou da luta de classes. No contexto contemporâneo das discussões entre capitalismo e socialismo, de qualquer modo, reina o fenômeno da massificação humana e de sua redução às determinações do modo de organização da produção em geral; de utensílios, máquinas, tecnologias, realidades, fetiches, entretenimentos, modas, mentalidades, gostos, opiniões. A arte que melhor configura o homem contemporâneo é o cinema, mostrando como se efetiva o domínio de aparelhos sobre o homem (a luta do artista contra o poder das câmeras, as quais já estão espalhadas pelas ruas a fim de controlar o insaciável Eros do homem contemporâneo, incapaz de autogoverno), de modo que o homem efetive o seu domínio sobre o real a partir do aparato técnico e de sua capacidade de reprodutibilidade serial, assim também produzindo o fenômeno da massificação da arte e da estética da guerra, pela qual as massas são objetivadas e as relações de produção vigentes se mantêm preservadas.

 

Tendo isso em vista, podemos substituir o fascismo tal qual Benjamin experimentou no contexto do nazismo pelo fascismo da democracia liberal implantado pelos EUA em todo o mundo, com o apoio das nações ditas aliadas, e perceber como vivemos em uma rede emaranhada de poderes e constituição de verdades e saberes correspondentes à preservação das relações vigentes de produção. A reflexão de Benjamin sobre o uso do cinema em prol da revolução ou em prol do fascismo, como seria com toda arte em geral, só nos mostra como a arte é apropriada para legitimar e formar as mentalidades conforme o estado vigente das relações de produção, ou melhor, do projeto de civilização vigente; o cinema norte americano é o melhor exemplo, pois reina em todo mundo e domina os mercados cinematográficos, bem como determina as subjetividades em vista de seu projeto consumista de sociedade.

 

Hoje em dia, quem não é individualista o suficiente como o personagem Heinrich Harrer? No entanto, o Tibet já não é mais o que era, e o Dalai Lama está exilado nos EUA. Isto porque o mesmo espírito totalitário e controlador reinam na China. Alguém poderia se aventurar em ir ao Tibet e ter a experiência do simples viver em harmonia com a natureza tal qual o alpinista austríaco? É possível perceber o mundo sem que se incorra nestas determinações materialistas de visão de mundo? No campo da biologia, a genética e o tema da clonagem, o evolucionismo darwinista; no campo da história, da geografia política e das ciências sociais, da psicologia e do direito (positivo), quem não pensa de maneira “materialista”? Quem não pensa com um arcabouço conceitual marxista no âmbito das ciências humanas? Não são esses os grandes mantenedores do status quo? A vigência da proposta de Comte acerca da religião da Humanidade e do governo dos técnicos e cientistas, que só oculta o controle dos investidores em técnicas e pesquisas científicas com vistas ao progresso e à ordem em consonância à manutenção das relações de propriedade e produção assim perpetuando os lucros gerados pelo carrossel das civilizações globalizadas?

 

O exemplo da experiência de Harrer no Tibet não nos convoca a experimentarmos em nós mesmos uma possibilidade mais branda de estar-no-mundo e, assim, compreender o ser em um modo de abertura da totalidade dos entes que nos harmonize com o todo e conosco? Isso não seria repensar e refletir o ethos humano? O requerimento por interdisciplinaridade no Ensino Médio, e a tarefa singular da Filosofia neste aspecto, não nos convoca à reflexão sobre a própria ciência e o modo de fazer ciência como um modo não essencial de estar, habitar em um mundo, construindo um mundo em que estejamos e habitemos assim e assado? Não foi essa a experiência de Harrer? O questionamento do próprio ser (vida), esse ser que eu sou e tenho sido, e a transformação da atitude perante tudo que é e está sendo? Não seria o caso de o próprio ser acontecer de modo a apropriar o homem para sua simplicidade harmoniosa neste momento da ausência de fronteiras (limites) para a humanidade? Como se lê na capa do filme escolhido: Quando a última fronteira... é o início de uma nova vida. Talvez o ser deva acontecer em sua simplicidade para que o homem seja por ela acolhido com propriedade, de modo a estarmos mais humildes diante da graça de seu advento, mantendo nossa reverência humilde em face de seu respeitoso resguardo:

 

Resguardar é, em sentido próprio, algo positivoe acontece quando deixamos alguma coisa entregue de antemãoao seu vigor de essência, quando devolvemos, de maneira própria, alguma coisa ao abrigo de sua essência, seguindo a correspondência com a palavra libertar (freien): libertar para a paz de um abrigo. Habitar (...) permanecer pacificado na liberdade de um pertencimento, resguardar cada coisa em sua essência. O traço fundamental do habitar é esse resguardo. (...) Mostra-se tão logo nos dispomos a pensar que ser homem consiste em habitar e, isso, no sentido de um demorar-se dos mortais sobre essa terra.”

 

“”Sobre essa terra” já diz, no entanto, “sob o céu”. Ambos supõem conjuntamente “permanecer diante dos deuses” e isso “em pertencendo à comunidade dos homens”. Os quatro: terra e céu, os divinos e os mortais, pertencem um ao outro numa unidade originária.”

 

(...) Enquanto resguardo, o habitar preserva a quadratura naquilo junto a que os mortais se demoram: nas coisas.”

 

(...) Cultivar e edificar significam, em sentido estrito, construir. Habitar é construir desde que se preserve nas coisas a quadratura (...)” (HEIDEGGER, 2008, p. 129-131)

 

Coisificando, a coisa deixa perdurar a união dos quatro, terra e céu, mortais e imortais na simplicidade da sua quadratura, que unifica por si mesmo.”

 

A terra é o sustentáculo da construção, a fecundidade na aproximação, estimulando o conjunto das águas e dos minerais, da vegetação e da fauna.

 

(...)”

 

O céu é o caminho do sol, o curso da lua, o brilho das constelações, as estações do ano, a luz e claridade do dia, a escuridão e densidade da noite, o favor e as intempéries do clima, a procissão de nuvens e a profundeza azul do éter.”

 

Os imortais são acenos dos mensageiros da divindade. É, na regência encoberta da divindade, que Deus aparece, em sua vigência essencial, que o retira de qualquer comparação com o que é e está sendo.”

 

Os mortais são os homens. São assim chamados porque podem morrer. Morrer significa: saber a morte, como morte. (...) A morte é o escrínio do Nada, do que nunca, em nível algum, é algo que simplesmente é e está sendo. Ao contrário, o Nada está vigindo em vigor, como o próprio ser. (...) Os mortais são mortais, por serem e vingarem, no resguardo do ser. São a referência vigente ao ser, como ser.”

 

Dá-se o nome de mundo a este jogo em espelho, onde se apropria a simplicidade de terra e céu, de mortais e imortais. Mundo é mundo, no vigor que instaura mundo, que, portanto, mundaniza. (...) O querer explicar do homem não alcança a unidade simples da singularidade unitária do mundanizar. Ao serem representados, apenas, como um real particular, fundando-se e explicando-se um pelo outro, os quatro conjugados são sufocados em sua vigência essencial.” (HEIDEGGER, 2008, p. 155-157)

 

 

 

Essa simplicidade de ser da quadratura descrita por Heidegger, e seu resguardo no abrigo pacificador da liberdade junto às coisas, talvez seja semelhante à experiência de Harrer no Tibet. Uma experiência de tonalidade afetiva sim, que diz respeito à nossa correspondência com os outros entes que não somos sem que nos lancemos a uma dominação incondicionada do ser destes entes através da ciência e da linguagem (logos) como vigência da técnica consumada pela metafísica ocidental, que hoje impera no globo terrestre e para além dos céus nos programas espaciais.

 

A experiência de Harrer foi, por que não, uma experimentação semelhante à do sentido originário do logos de Heráclito e da ataraxia helenista em meio à loucura dos totalitarismos políticos e da marcha progressiva da ciência, da história e do espíritoabsoluto em sua vontade de poder. Essa experiência não precisa ser documentada ou enunciada, ela é de cada um que a alcança em sua singularidade, no encontro consigo mesmo, pelo qual cada um vem a ser o que é e realiza a máxima délfica: γνώθι σαυτόν (conhece a ti mesmo).

 

 

 

BIBILOGRAFIA:

 

 

 

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica IN Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. – (Obras escolhidas; v. 1)

 

HEIDEGGER, Martin. Construir, Habitar, Pensar/A Coisa IN Ensaios e Conferências; tradução de Emanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

 

1 O que não pode acontecer sem o Humanismo Renascentista, o Iluminismo, o advento da economia liberal capitalista e do Estado Laico de Direito, da democracia e da derrubada das monarquias, das expansões territoriais européias e das instituições capitalistas nas formas empresariais e bancárias e nas revoluções industriais e tecno-científicas, enfim, a destruição de toda cultura não-européia pela manifestação ôntica da consumação da metafísica e da técnica ocidentais uniformizando o mundo.

 

 

2 Nietzsche = transvaloração de todos os valores = Morte de Deus / Marx = a religião é o ópio do povo / evolucionismo = homem provém de símios / Freud = homem é subjetividade inconsciente e sem fundo, abismo de energia psíquica e libidinal em busca de prazer (vida) e potência de perversão da libido na pulsão de morte...