UM OLHAR FILOSÓFICO POR SOBRE OS MUROS DA CONSCIÊNCIA HUMANA.

 

 

nada há de surpreendente, em que a tristeza se siga ao cometimento de atos equivocados, pois isso é conseqüência da educação recebida”

 

Spinoza.

 

 

 

Introdução

 

A proposta de se trabalhar com o filme “Pink Floyd – The Wall” em uma abordagem especialmente filosófica provém do interesse em se ressaltar e discutir questões pertinentes apresentadas pelo longa-metragem dirigido por Alan Park em 1982, e de roteiro escrito por Roger Walters, concernentes Ao problema específico da consciência moral/existencial do sujeito enquanto atuante no mundo. Assim como, dos diversos fatores exteriores a consciência, mas que acabam por exercer uma influência muito significante na construção do “Eu” subjetivo do sujeito enquanto um ser inscrito no, e para o mundo que é exterior a sua consciência. Como os temas críticos que dizem respeito ao comportamento humano abordados em “The Wall – O filme” e no álbum homônimo da banda de rock progressivo Pink Floyd. Temas como relacionamentos, drogas, guerra, educação, relação pais-filhos, acabam moldando de forma doentia a constituição desse “Eu” próprio do sujeito, apresentado pela personagem de Pink (Bob Geldof) no filme. Fazendo com que este buscasse um isolamento dentro de sua própria mente através da construção de barreiras psicológicas (o muro) que supostamente o impediria de ser afetado pelos agentes exteriores a sua consciência. No entanto, a questão que se coloca é a seguinte: O que fazer quando a sua própria consciência, o “Eu interior”, começa a afetar negativamente as representações de si mesmo no mundo exterior? Até que ponto é válido isolar-se em sua própria consciência, a fim de evitar os possíveis traumas decorrentes da convivência humana e assim, acabar negando todas as formas de ação no mundo concreto? Tais questões são dignas de serem expostas e analisadas ao longo deste trabalho em volta da temática em questão.

 

 

 

Sinopse

 

O Filme The wall teve seu roteiro escrito pelo músico integrante da banda Pink Floyd, Roger Walters com direção de Alan Parker e produzido por Alan Marshall nos estúdios da MGM. Lançado na Inglaterra em 1982, o filme é considerado como sendo do gênero Dramático-musical (já que, as canções do álbum homônimo do Pink Floyd compõem a ambientação das cenas e do conceito do filme). The Wall trata da história de um rapaz, Pink, astro de rock que vive em um quarto de hotel e que aos poucos enlouquece com suas próprias lembranças. Em sua infância ele era um menino igual aos outros meninos de sua época, um “war babies”, brincando de militar com as roupas do pai morto durante a 2° guerra mundial. Pink é uma criança sofrida pela ausência paterna e pela represália na escola. Além dos impactos causados em sua vida pela super proteção de sua mãe, que agia com a intenção de compensar a ausência do pai na vida do garoto. Depois de adulto, casa-se com uma bela mulher, mas que lhe trai e depois o abandona. Cansado de todo o sofrimento que a sua vida lhe impunha, Pink decide isolar-se em sua própria mente, através do muro que foi erguido em sua consciência ao longo de toda a sua vida impedindo-o de amadurecer naturalmente, e dos quais os tijolos que foram utilizados para a construção do muro não foram nada mais do que os próprios agentes de seus traumas, como seus pais, a educação de sua escola, a traição de sua mulher, a sociedade sufocante. Em sua mente, Pink acha que tem o conforto necessário para se manter por um longo tempo isolado de todo o mundo exterior. No entanto, aos poucos este seu isolamento começa a destruir sua sanidade, e a partir daí, Pink começa a sofrer de crises Histéricas até entrar em colapso. Em seu estado inconsciente, Pink é levado a julgamento por todos os agentes de seus traumas. E por fim, é sentenciado a se expor novamente aos seus semelhantes. Ou seja, O juiz ordena que derrubem o muro, obrigando Pink a aceitar a dor do convívio humano.

 

Pink Floyd – The Wall

 

Data: 1982. Direção: Alan Parker. Roteiro: Roger Walters

 

Gênero: Musical/Drama País de origem: Inglaterra. Duração: 95 min

 

Estúdio: MGM

 

Elenco:

 

Bob Geldof – Pink

 

Christine Hargreaves – Mãe de Pink

 

James Lurenson – Pai de Pink

 

Eleanor David – esposa de Pink

 

Alex mc Avoy – professor de Pink

 

 

 

Fundamentação Teórica

 

O que deve fazer um sujeito quando o mundo a sua volta decide lhe dar as costas? Parece óbvio para muitas pessoas que só existem duas vias a seguir: ou o sujeito encara a rejeição exterior de forma madura, e aprende a conviver com todo o sofrimento que os outros podem lhe proporcionar ao longo da vida. Ou então, isola-se em um mundo próprio afim de que nenhum agente exterior a este mundo possa lhe trazer dor. No entanto, esta é uma questão tão complicada que merece ser discutida com muito cuidado. Porque parece que estas duas vias acabam no fundo sendo insustentáveis para a resolução efetiva do problema de um sujeito que esteja em tal situação. Isto é, parece não atender objetivamente ao problema da constituição da consciência moral/existencial do sujeito. Ou seja, a questão que se sobrepõe é: até que medida é aceitável que um sujeito abra mão de grande parte da constituição subjetiva de seu próprio “Eu” interior para se adequar as exigências de uma convivência forçada com o mundo, isto é, com os “Outros”. E, no entanto, parece plausível um isolamento igualmente forçado pelo sujeito em sua própria consciência, negando desta maneira grande parte de sua própria natureza humana? E a partir daí que pode se perceber que a questão é muito mais pertinente do que parecia ser. Se nos utilizarmos do exemplo de Pink, podemos analisar bem esta questão. Como já visto, Pink foi um garoto que sofreu muito em sua infância, desde a ausência do pai que morreu na segunda guerra e da super proteção de sua mãe que fez de tudo para compensar essa ausência, passando pela represália na escola por parte de seu professor que no fundo também era um repreendido, culminando seu sofrimento com a traição e o progressivo abandono de sua esposa em sua fase adulta. A questão se coloca diante de Pink: por conta de tudo o que ele sofreu em sua vida, é de direito dele buscar um isolamento em sua própria mente e dar as costas para os outros? Ele tem o direito de negar sua própria natureza humana, que desde o início de nossas vidas nos condena a convivência constante com nossos semelhantes, para se fechar em si mesmo como uma espécie de Deus que basta a si próprio? O problema de Pink é que, ele esquece, ou não compreende que ele não é o único que sofre no mundo. Pelo contrário, se bem examinado, pode se ver claramente que todo o sofrimento que chegou até sua vida é decorrente do sofrimento causado nas vidas daqueles que o fizeram sofrer. Como sua mão que é super protetora em decorrência do sofrimento que têm da perda de seu esposo, pai de Pink. Ou então, seu professor da escola que age de maneira repressora por conta da mesma repressão que sofre em casa através de sua esposa. Ou mesmo, sua mulher, que acaba o traindo porque Pink parece não se interessar mais por ela, ela sofre com sua ausência e por conta disso, esse sofrimento é refletido a Pink. Ou seja, um sofrimento causado por ele mesmo. Portanto, o que pode se dizer da consciência moral de Pink? Isto é, o que pode se dizer da representação que ele tem de si para com os outros no mundo em que vive? É a ele concedido o direito de fechar-se em si mesmo, mesmo estando em pé de igualdade com os demais agentes de sua vida?

 

Em contrapartida, a questão torna-se ainda mais complexa se conduzida ao plano da consciência existencial do sujeito. Ou seja, da representação de seu “Eu” interior para si mesmo. Da consciência de sua existência determinada por fatores exteriores à mesma, e que, no entanto, não permite ao sujeito uma representação própria de si como um ser para o mundo, mas sim para si mesmo. Afinal de contas o que somos nós, nós que sabemos que somos? Ou seja, a existência parece a nós uma realidade da qual não se pode escapar, da qual estamos condenados desde os nossos nascimentos e que talvez nem mesmo a morte possa nos livrar dela. Mas, a questão que se coloca é a quem deve ser atribuída esta existência? Somos seres de e para nós mesmos? Durante séculos e mais séculos a história do pensamento filosófico discutiu esta questão e, algumas vezes atribuiu tal existência a existência de um ser maior, supremo e que garantiria a existência dos demais entes e seres dos entes. Este ser é freqüentemente conhecido como Deus. No entanto as divergências acerca de sua compreensão por parte da humanidade nunca puderam garantir a validade da existência a partir de Deus, justamente porque a existência do próprio é colocada em questão. Então como validar, ou antes, garantir a existência? A partir de quê, temos na consciência a idéia da existência, o que causa em nós essa idéia? E mesmo que pudéssemos encontrar um critério de validade para a existência, para que seria ela? Isto é, para que nós existimos? Volta mais uma vez a questão: somos seres para que? Para nós mesmos, para a consciência de nosso próprio “Eu”? Ou há verdadeiramente um sentido maior na existência que nos obriga a sermos seres para outras coisas que não para nós mesmos?

 

Estas são questões que, apesar de difíceis, merecem serem trabalhadas com bastante atenção quando se faz filosofia. Pois afinal de contas são questões muito primitivas. Mas que, no entanto, ainda continuam em voga despertando à consciência para questões filosóficas que dizem respeito nada mais do que a toda a humanidade.

 

Conclusão

 

Para que se possa concluir o raciocínio que foi desempenhado para a consecução final do objetivo deste trabalho, deve-se observar que, diante destas questões que foram apresentadas, tal objetivo último gira em torno tão somente da intenção de despertar a consciência dos alunos de filosofia, tanto do ensino médio quanto dos demais, uma noção crítica do que geralmente compreendemos por ela mesma, isto é, a consciência. Que como bem exposta pelo filme, pode-se observar que não há somente um sentido para designarmos o termo consciência, mas sim vários. Como na abordagem de uma consciência moral, existencial ou mesmo moral/existencial, fazendo com que estas possam culminar no âmbito da consciência crítica do sujeito. Tornando-os aptos ao desenvolvimento de uma reflexão que gira em torno de questões fundamentais para a constituição de seu próprio “Eu”, tanto pessoal (subjetivo), quanto social (coletivo). Afim de que se possam formar seres humanos mais esclarecidos acerca dos problemas fundamentais que atingem o âmago da existência humana.

 

BIBLIOGRAFIA:

 

Pink Floyd – The Wall. O Filme. MGM Estúdios. Direção: Alan Parker. Roteiro: Roger Walters. 1982

 

The Wall – Álbum. Banda: Pink Floyd. 1979.

 

 

 

The Wall adaptado para o ensino médio.

 

A proposta de se trabalhar com The wall no ensino médio gira em torno da possibilidade de se explorar os temas apresentados pelo álbum e o filme referentes à questão da educação escolar britânica que Pink, personagem principal, recebeu em sua infância e que influenciou fortemente na constituição de seus pensamentos para com o mundo. A repressão das crianças por parte dos professores, decorrente da própria repressão exercida pelas mulheres destes na maneira como estas controlavam suas vidas. A questão do tratamento do conhecimento como algo puramente conteudísta e sem significação para a vida dos alunos, a exposição das fraquezas das crianças em sala de aula por parte dos professores. Tudo isto são temas que, se forem bem discutidos, podem levar os alunos de nosso sistema de ensino a refletirem sobre a situação em que estes vivem em suas escolas. Questões como: que tipo de conhecimentos, conteúdos devem ser ensinados pelos professores, afim de que seus alunos possam tirar um melhor proveito dos mesmos conhecimentos para suas vidas? O que leva certos professores a serem tão autoritários e repressores em sala de aula? Quais são os medos que os conduzem a terem tal conduta? Uma revolta no estilo anarquista, como apresentado nos pensamentos de Pink em “The Wall”, seria a melhor forma de se tratar os problemas referentes ao sistema educativo de tipo repressor, ou a razão, através de diálogos e argumentações, talvez pudesse conduzir a uma forma de consenso sobre os melhores métodos educativos possíveis? Qual é o papel dos alunos nessa discussão? Até que ponto os professores devem deixar os alunos interferirem em tais questões sem que com isso acabem sendo repressores, controladores dos pensamentos dos alunos? Portanto, nota-se que estas questões não dizem respeito apenas aos alunos em sala de aula, mas devem se dirigir também aos professores, e melhor ainda, a todo o sistema educativo, como os pedagogos, os pais dos alunos, a sociedade em que todos estão inseridos. Portanto, daí a importância de se trabalhar com The Wall em uma sala de aula do ensino médio!

 

Além destas questões, referentes ao sistema educativo, The Wall ainda permite aos profissionais da área de filosofia no ensino médio, a se trabalhar com conteúdos estritamente filosóficos: como a questão da consciência do sujeito, da consciência moral, dos valores da sociedade contemporânea. Questões estéticas apresentadas pelas músicas ou pelas cenas do filme (como as animações, por exemplo). Questões relativas à Teoria do Conhecimento (como a repressão por parte dos professores pode interferir no processo de construção do conhecimento por parte dos alunos?). Enfim, The Wall apresenta uma gama crítico – filosófica muito maior do que se possa imaginar e pode ser trabalhado com muitos conceitos filosóficos tanto isoladamente quanto relacionados com outros conceitos ou questões pertinentes. A questão é saber expressar fielmente a dimensão que a obra traz, sem omitir ou mascarar nenhum dos problemas apresentados pela trama. Pois existem muitos pedagogos que compartilham da opinião de que The Wall não seria um bom filme para ser trabalhado no ensino médio por conta do “peso” que envolve a trama. Ou seja, tais pedagogos se utilizam de argumentos que consideram The Wall um filme que abrange conceitos muito pesados para se trabalhar com adolescentes em processo de formação. No entanto, a meu ver, estas questões têm de serem debatidas em sala de aula sim, e os problemas tem de serem muito bem esmiuçados a fim de que, justamente por esses adolescentes estarem em processo de formação de consciência, eles possam evoluir racionalmente, a fim de tornarem-se pessoas mais esclarecidas sobre os problemas que afetam a humanidade. E isto, cabe tão somente ao exercício próprio da filosofia.