A única opção que temos é de seguir sempre em frente”.

O filme que escolhi para fazer esse trabalho chama-se “Alemanha, ano zero” do diretor italiano Roberto Rossellini. A intenção desse filme é mostrar para o mundo a imensa destruição ocorrida em Berlim, após o final da segunda guerra mundial. Onde uma população de mais de três milhões e meio de pessoas levavam uma vida terrível, sobre intenso desespero.

Segundo Rossellini, essas pessoas viviam essa tragédia como se fosse um elemento natural, mas não por serem fortes ou por terem fé, mas por estarem cansadas. Não se trata de uma acusação contra o povo alemão, e nem de defesa. O filme tem a pretensão de mostrar uma simples constatação dos fatos para o mundo, pois as crianças alemãs precisam de alguma forma reaprender a amar a vida...

O primeiro plano do filme mostra os escombros e a destruição que se espalhou por toda Alemanha em 1946. A câmera segue mostrando um garoto, que se chama Edmund, cavando covas para enterrar as dezenas de milhares de mortos que foram resultantes da guerra. O menino precisa achar meios para ajudar a manter o sustento da família, que é formada por um pai doente, um irmão que foi soldado nazista – que inclusive usa esse subterfúgio para fugir de suas obrigações - há ainda duas irmãs que parecem estar alheias à realidade a qual se encontram.

Edmund é o herdeiro de todas as mazelas que caíram sobre o povo alemão. É uma espécie de metáfora que nos mostra o estigma carregado por pessoas que nada tinham a ver com a ideologia nazista, e que foram também duramente penalizadas. Há uma cena específica no filme que marcou profundamente: foi no momento em que o menino Edmund vende um vinil com a voz de Hitler para dois soldados americanos. Podemos entender essa metáfora em forma de imagem do seguinte modo: enquanto a voz de Hitler ecoa pelos escombros, a câmera de Rossellini nos faz ver o presente e o passado do povo alemão, diante de um futuro obscuro e incerto. Toda essa experiência da simultaneidade proustiana ocorre na imagem de uma criança de mãos dadas com um idoso, onde as mesmas observam estagnadas para o fundo de um imenso corredor vazio por onde perpassa a voz do Führer, como o vento da morte que atravessa por toda a extensão do corredor, a linha do tempo pela qual precisamos atravessar. Não há outro caminho. Temos que seguir sempre em frente sem olhar para trás, pois todo o nosso futuro depende de nossas decisões que são tomadas em cada instante.

É nesse ponto que o pensamento existencialista de Sartre, que foi formulado no pós-guerra, se encaixa perfeitamente com essa temática neo-realista abordada no filme. Pois o existencialismo afirma-se como uma Filosofia da práxis. Um modo de ser, uma ética. No decorrer da História, o homem sempre tentou buscar as respostas para seus problemas a partir da perspectiva do outro. O pensamento sartriano caminha ao oposto disso, pois, segundo ele, temos que ter a consciência de que estamos sós - Como o menino Edmund que caminha por todos os lados buscando uma saída - Precisamos aprender a navegar pelo mar da desesperança que tenta a todo custo nos afogar. É assim que o existencialismo de Sartre se torna humanista, quando ele traz todos os problemas para a esfera do “eu”. O homem é responsável por todas os seus atos, o único animal que pode fazer escolhas; podendo assim pavimentar todo o seu caminho por onde vai caminhar ao longo da vida. E isso se dá quando o homem tem a liberdade plena para pensar e tornar seu pensamento em ação, em realidade. E essa moral de ação é o que caracteriza perfeitamente o existencialismo de Sartre. A partir da ação é que o pensamento pode ganhar forma e consistência, agindo direto no mundo em que vivemos.

Por mais que os críticos de Sartre apontem para um pessimismo em sua Filosofia, ela é otimista a partir do momento que o homem tem o poder de construir e destruir a sua própria história. Não podemos viver o presente apenas nos guiando por um espelho retrovisor embaçado que sempre está olhando para trás. Precisamos agir aqui e agora. Não podemos mais jogar as nossas responsabilidades no passado e nem nos outros. Temos que refletir sobre nossos problemas e suas causas, mas não só isso; é preciso agir com um espírito de coragem visando uma coexistência equilibrada e justa entre todos os seres e nosso mundo. Só assim poderemos construir um mundo melhor.

Trecho do livro: “O existencialismo é um humanismo”

O existencialista, pelo contrário, pensa que é muito incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele toda a possibilidade de achar valores num céu inteligível; não pode existir já o bem a priori, visto não haver já uma consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que não devemos mentir, já que precisamente estamos agora num plano em que há somente homens. Dostoiévsky escreveu: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Aí se situa o ponto de partida do existencialismo.

Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue.

Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade.

Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e no entanto livre, porque uma vez lançado ao mundo é responsável por tudo quanto fizer. (...)

O existencialista não pensará também que o homem pode encontrar auxílio num sinal dado sobre a terra, e que o há de orientar; Porque pensa que o homem decifra ele mesmo esse sinal como lhe aprouver. Pensa portanto que o homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar o homem. Disse Ponge num belo artigo: "O homem é o futuro do homem".

É perfeitamente exato. Somente, se entende por isso que tal futuro está inscrito no céu, que Deus o vê, nesse caso é um erro, até porque nem isso seria um futuro. Mas se entender por isso que, seja qual for o homem, tem um futuro virgem que o espera, então essa frase está certa. Mas em tal caso o homem está desamparado.

O quietismo é a atitude das pessoas que dizem: os outros podem fazer aquilo eu não posso fazer. A doutrina que vos apresento é justamente a oposta ao quietismo visto que ela declara: só há realidade na ação; e vai aliás mais longe, visto que acrescenta: o homem não é senão o seu projeto, só existe na medida em que se é portanto nada mais do que o conjunto dos seus atos, nada mais do que a sua vida.

De acordo com isto podemos compreender por que a nossa doutrina causa horror a um certo número de pessoas. Porque muitas vezes não têm senão uma única de suportar a sua miséria, isto é, pensar "as circunstâncias foram contra mim, eu muito mais do que aquilo que fui; é certo que não tive um grande amor, ou uma grande amizade, mas foi porque não encontrei um homem ou uma mulher que fossem dignos disso, não escrevi livros muito bons, mas foi porque não tive tempo livre para o fazer; não tive filhos a quem me dedicasse, mas foi porque não encontrei o homem com quem pudesse realizar a minha vida. Permaneceram, portanto, em mim e inteiramente viáveis, inúmeras disposições, inclinações, possibilidades que me dão um valor que da simples série dos meus atos se não pode deduzir".

Ora, na realidade, para o existencialista não há amor diferente daquele que se constrói; não há possibilidade de amor senão a que se manifesta no amor, não há gênio senão o que se exprime nas obras de arte; o gênio de Proust é a totalidade das obras de Proust; o gênio de Racine é a série das suas tragédias, e fora disso não há nada; por que atribuir a Racine a possibilidade de escrever uma nova tragédia, já que precisamente ele a não escreveu? Um homem embrenha-se na sua vida, desenha o seu retrato, e para lá desse retrato não há nada.

Que significa aqui o fato de a existência preceder a essência? Significa que o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo, e que só depois se define.

O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeiramente não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza, visto que não há Deus para a conceber.

O homem é, não só como ele se concebe, mas como ele quer ser; como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência, o homem não é mais do que o que ele faz de si mesmo. Tal é o primeiro princípio do existencialismo.

É também a isto que chamamos subjetividade e pelo que somos censurados sob o mesmo nome. Mas que queremos dizer com isso, senão que o homem tem uma dignidade maior do que uma pedra ou uma mesa? Pois o que nós queremos dizer é que o homem primeiro existe, ou seja, que o homem, antes de mais nada, se lança para um futuro, e que é consciente de se projetar no futuro.

O homem é, antes de mais nada, um projeto vivido subjetivamente, ao invés de ser um creme, qualquer coisa podre, ou uma couve-flor; nada existe anteriormente a este projeto; nada há no céu inteligível, e o homem será antes de tudo o que ele houver projetado ser. Não o que ele quiser ser. Pois o que vulgarmente entendemos por querer é uma decisão consciente que, para a maior parte de nós, é posterior ao que alguém fez de si mesmo. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me; tudo isso não é mais do que a manifestação duma escolha mais original, mais espontânea daquilo que se chama vontade.

Mas se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é. Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo homem de posse do que ele é e atribuir-lhe a responsabilidade total por sua existência. E, quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o homem é responsável por sua estrita individualidade, mas que é responsável por todos os homens. Há dois sentidos para a palavra subjetivismo, e é com isso que jogam nossos adversários. Subjetivismo quer dizer, de um lado, escolha do sujeito individual por si próprio; e, por outro, impossibilidade do homem em superar a subjetividade humana. O segundo é que é o sentido profundo do existencialismo.

Quando dizemos que o homem se escolhe, queremos dizer que cada um de nós se escolhe; mas, com isso, também queremos dizer que, ao se escolher, ele escolhe todos os homens.

Com efeito, não existe um ato nosso que, ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser.

Escolher ser isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, pois nunca podemos escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos.

Se a existência, por outro lado, precede a essência e se quisermos existir, ao mesmo tempo em que construímos a nossa imagem, esta imagem é válida para todos e para toda a nossa época. Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve a humanidade.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA : “O existencialismo é um Humanismo. Lisboa, Presença, s/d/, p. 241” J.-P. Sartre.