Um paralelo entre a Ética e a Estética da Violência no filme “Battle Royale e a Ética de Levinas

No presente trabalho pretendemos abordar a relação entre o poder e a violência, sob sua perspectiva ética, enquanto presente na linguagem cinematográfica, colocando-a em paralelo com a ética de Emmanuel Levinas. Para tanto selecionamos o filme “Battle Royale” (Batoru Rowaiaru, de Kinji Fukusaku. Ação/Drama. Japão, 2000), cujo foco acreditamos ser apropriado ao desenvolvimento destas questões.

A história do filme se passa no Japão, em um futuro próximo. O país está a beira de um colapso, com a economia falida levando a altíssima taxa de desemprego. Nessa situação, a juventude perde a perspectiva, resultando em desistência em massa da escola e índices alarmantes de delinqüência. O governo japonês, uma ditadura totalitária e militarista, toma uma medida drástica para conter a revolta da juventude, que ameaça seu poder: por meio de um ato institucional, o governo decreta a criação do programa “Battle Royale”. Este programa estipula a realização de um evento anual onde uma turma de alunos do ciclo escolar equivalente ao nosso ensino médio é escolhida por sorteio para participar, compulsoriamente, de um jogo brutal: Os jovens são isolados numa ilha desabitada, controlada por militares, onde devem matar uns aos outros para sobreviver. Somente um sobrevivente é permitido; se não houver um vencedor em três dias, todos são mortos.

O verdadeiro objetivo do jogo, como é esclarecido durante o filme, é espalhar a desconfiança e a discórdia entre a juventude. Para tanto, o jogo é coberto pela imprensa, que trata o sobrevivente como um herói, como demonstrado na cena de abertura do filme.

Primeiramente delimitaremos nossa análise a dois aspectos: o enredo e a estética cinematográfica. As análises desses dois aspectos se complementam, devido à própria natureza do filme: como resolver a questão levantada pela aparente oposição entre a crítica ao uso da violência sem sentido presente no enredo (que foi por sua vez baseado no romance homônimo de Koushun Takami) e a violência altamente estilizada, de estética própria usada na apresentação do próprio filme, uma produção comercial e voltada para o público jovem japonês?

Sob a questão desenvolvida no enredo, tomaremos como referência alguns textos acadêmicos que tratam o tema da violência sob seu aspecto ético, especificamente à partir da obra de Emmanuel Levinas. A primeira questão apresentada no filme é provavelmente a mesma que o espectador se fará: mas porquê? Qual o motivo dessa violência imposta e sem sentido? Uma possível resposta é: a violência não passa de uma forma de manutenção de poder; “a tirania - como ação exercida sobre uma "massa inimiga" - cuja violência se aproxima da vontade de domínio com a qual o homem, por meio do trabalho, serviliza para si as coisas.”(1).

Existem outros aspectos relevantes à caracterização dessa violência propriamente política: o fator da diferença de oportunidades entre os indivíduos, por um lado. Comum a uma sociedade capitalista, é representada na distribuição das armas e equipamentos entre os jovens “competidores” – as armas são entregues em bolsas fechadas, que podem conter desde armas de fogo até objetos inúteis, como a tampa de pote recebida pelo protagonista.

A questão da “totalização” presente em Levinas pode ser observada na onipresente “lista de chamada” da classe. Todos os alunos são inicialmente referidos por meio desta lista, que os separa inicialmente pelo gênero (existem duas listas, a dos garotos e das garotas) pelo nome e por um número. Tais informações são sobrepostas na tela toda vez que algum dos jovens morre, relatando quantos ainda sobram, e nas leituras periódicas feitas pelo professor, anunciando as baixas daquele período. A redução dos indivíduos a números aqui demonstra um nível extremo da “totalização” dos indivíduos, forçada muito propriamente pelo governo totalitário que está por trás de tudo. Esta seria uma primeira violência, na ótica de Levinas, já que ele “calls this violence "totalization" and it occurs whenever I limit the other to a set of rational categories, be they racial, sexual, or otherwise.”(2)

As armas recebidas pelos alunos, em muitas sequências usadas contra seus donos originais representam ali algo observado por Levinas: “…every war employs arms that turns against those

who wield them.”(3). Tal idéia é ainda mais significativa no desfecho da trama, onde o grupo de sobreviventes se rebela contra as regras do jogo, que só permitiriam um sobrevivente, e o protagonista mata único representante que sobrava do governo (os verdadeiros organizadores e beneficiários daquele “jogo de guerra”) com uma das armas entregues aos participantes.

A motivação do outro personagem estranho aquele grupo, outro “aluno transferido” Shogo Kawada, também levanta uma questão interessante: este revela que havia sido o sobrevivente de um jogo anterior, mas devido a um erro havia sido colocado neste novamente. Um flashback recorrente mostra a situação final do jogo do qual este fez parte anteriormente: sua namorada se sacrifica por ele e morre em seus braços, sorrindo. O personagem diz que seu objetivo era “entender o que ela queria dizer” – “é o olhar do outro a impedir qualquer conquista: nele está inscrito o comando, o imperativo, a proibição do "não matar", ou melhor, de acordo com a importante especificação de Transcendência e inteligibilidade, o "fazer de tudo para que o outro viva"”(4).

No final, ele diz, pouco antes de sucumbir a ferimentos adquiridos na heróica fuga que orquestrou com seus recém formados amigos, ele diz que finalmente compreendeu o significado daquele último sorriso: “ele havia, assim como ela, encontrado a verdadeira amizade”. Podemos fazer um paralelo entre essa imagem do sorriso e o conceito de “face” em levinas. Como é dito “The face puts into question the sufficiency of my identity as an I, it compels me to an infinite responsibility. It is by substitution for the other, or by taking on the fate of the other, that I embrace a responsibility for which I never signed up.”(5). Ouseja, toda a condutado personagem é justificada como uma implicação ética perante o outro, independente da situação, e mesmo que ele não tenha sido culpado pela situação dos outros, nem obtenha vantagem alguma, ainda assim se sente compelido a ajudá-los.

Com relação ao aspecto estético analisado, cabe tentar responder ao dilema: será que a utilização da violência enquanto estética é válida como linguagem de transmissão de conceitos anti-violência, como ocorre neste filme?

Para tanto, evocamos a análise da obra de Levinas: “can only have for us an evocative appeal. The goal of presenting ethics in this fashion is not to discover the truth of ethics, but to make na appeal for ethical transformation. Levinas invites us to listen, not only to what he has to say, but, more importantly, to the voice of the Other, who sanctions all of our moral obligation.” (6); ora, vemos na própria obra de Levinas, teórico da ética antes de tudo, a necessidade da exposição da necessidade de uma ética.

Uma forma de demostrar essa necessidade é por meio da exposição do absurdo da violência. “Levinas’ common approach to violence is more descriptive than definitive. Nonetheless, his descriptions would always be basic yet vivid – they bear on affectivity, immediately appealing to the human condition although in some instances he speaking merely of a general intellectual attitude”(7). Da mesma forma como ocorre neste filme.

Diferentemente dos tradicionais filmes de ação ou terror hollywoodanos, com seus atos de violência “limpos” ou justificáveis” (seja pela justa motivação do mocinho ou pela maldade inata/ inumanidade do vilão/monstro, a violência aqui é injustificável, perturbadora, pois seus executores são inocentes, levados pelos fatos, colocados naquela situação por elementos externos. Embora exista a figura do vilão e do mocinho, a maioria das cenas de violência (e as mais perturbadoras) são protagonizadas por outros personagens, jovens comuns, muitas vezes acabando por matar seus amigos ou mesmo amados.

Concluímos nosso trabalho afirmando que, embora trate-se de uma obra declaradamente comercial, o filme “Battle Royale” desenvolve em sua execução diversos questionamentos filosóficos do campo da ética, que podem ser interpretados dentro da ótica da obra de Levinas devido a sua temática de violência em relação ao outro e sua crítica ao totalitarismo, no campo da política. Também ressaltamos que, embora por vezes propositalmente explícita e aparentemente gratuita, a violência apresentada no filme tem sua função dentro de uma estética que não só não impossibilita a veiculação de questões éticas fundamentalmente contrárias a violência como em Levinas, mas sim possibilita a linguagem mais apropriada para a transmissão de tais ideais, assim como percebido em Levinas.

Referências:

1- Banal and Implied Forms of Violence in Levinas’ Phenomenological EthicsFleurdeliz R. Altez KRITIKĒ VOLUME ONE NUMBER ONE (JUNE 2007) 52-70

2- Introducing Levinas to Undergraduate Philosophers Anthony F. Beavers

http://faculty.evansville.edu/tb2/PDFs/UndergradPhil.pdf

3- Emmanuel Levinas, Totality and Infinity: an essay on exteriority, trans. by Alphonso

Lingis, (Pennsylvania: Duquesne University Press, 2001)

4 - EMMANUEL LEVINAS:

PARA UMA SOCIEDADE SEM TIRANIAS ROSSANA ROLANDO Educação & Sociedade, ano XXII, no 76, Outubro/2001

5- Introducing Levinas to Undergraduate Philosophers Anthony F. Beavers http://faculty.evansville.edu/tb2/PDFs/UndergradPhil.pdf

6- Banal and Implied Forms of Violence in Levinas’ Phenomenological EthicsFleurdeliz R. Altez KRITIKĒ VOLUME ONE NUMBER ONE (JUNE 2007) 52-70

7-6- Banal and Implied Forms of Violence in Levinas’ Phenomenological EthicsFleurdeliz R. Altez KRITIKĒ VOLUME ONE NUMBER ONE (JUNE 2007) 52-70

Bibliografia:

Banal and Implied Forms of Violence in Levinas’ Phenomenological EthicsFleurdeliz R. Altez KRITIKĒ VOLUME ONE NUMBER ONE (JUNE 2007) 52-70

Introducing Levinas to Undergraduate Philosophers Anthony F. Beavers http://faculty.evansville.edu/tb2/PDFs/UndergradPhil.pdf

EMMANUEL LEVINAS:

PARA UMA SOCIEDADE SEM TIRANIAS ROSSANA ROLANDO Educação & Sociedade, ano XXII, no 76, Outubro/2001

Emmanuel Levinas's Ethics of Responsibility

Dr. Michael Smith Berry College Mike Ryan Lecture Series, Kennesaw State College, October 7, 2003.

Emmanuel Levinas, Totality and Infinity: an essay on exteriority, trans. by Alphonso

Lingis, (Pennsylvania: Duquesne University Press, 2001)

Adaptação do material do trabalho para o ensino médio:

Sinopse do filme “Battle Royale” para o ensino médio:

Neste thriller japonês, passado num futuro próximo, uma turma de adolescentes de uma escola japonesa escolhida ao acaso por forças do governo totalitário no poder naquele país é levada a força para uma ilha abandonada onde são obrigados a participar de um jogo brutal: tendo como única forma de defesa uma arma ou equipamento sorteado aleatoriamente, eles devem matar uns aos outros, pois só um poderá sair de lá com vida.

Texto explicativo sobre as relações entre filosofia e cinema tendo como base o filme “Battle Royale” para o Ensino Médio:

Uma lição de Ética em meio a violência: encontrando Levinas no filme “Battle Royale”

Ao assistir um filme onde a premissa básica é um grupo de jovens se matando, alguém mais desavisado pode simplesmente supor que trata-se simplesmente de mais um filme de ação/terror que se utiliza de cenas e situações chocantes de violência como modo de diversão.

No entanto uma análise um pouco mais profunda revela que se pode tirar um proveito maior do filme em questão que mero entretenimento. Não que se negue a função deste filme como entretenimento: sua estética, com cenas de violência estilizada baseada nos mangás (quadrinhos japoneses) (o próprio livro que originou o roteiro foi adaptado nessa mídia) e seu ritmo incessante de thriller, onde o encadeamento de situações deve sempre deixar o espectador sem fôlego estão aí para evidenciar o aspecto de entretenimento comercial.

Mas para além desta apresentação, é possível se perceber diversas questões Éticas desenvolvidas ao longo do filme. Para compreendermos essas questões de um ponto de vista propriamente filosófico, nos basearemos na obra do filósofo Emmanuel Levinas, cuja obra trata basicamente de Ética.

A principal proposta da filosofia de Levinas, que contraria a maioria das concepções de ética da filosofia ocidental, como Kant ou os existencialistas, é que a Ética deve preceder a Ontologia (estudo do Ser). De modo simplificado pode-se dizer que para Levinas a relação entre os indivíduos (do eu para o outro) deveria preceder o próprio Ser, o “Todo”. Ou seja, levando a um nível mais próximo, significa que nossas relações com os outros(o objeto da Ética) importam mais que nós mesmos.

Mas onde essa Ética de Levinas pode ser percebida no filme em questão? Bem, em diversas cenas e elementos presentes ao longo do filme. Por exemplo: a lista de chamada, sempre mostrada toda vez que alguém morre, representaria o conceito de “Totalização” presente na obra de Levinas. Este conceito é definido como um ato de violência que ocorre com a limitação de indivíduos a categorias racionais, como nome, classe, gênero, etc, sem que se estabeleça ao menos uma relação com esses indivíduos para que eles possam se definir por si mesmos. Ora, no filme a lista torna os jovens meros números, desprovendo eles de sua humanidade, fato ainda mais cruel quando usada para relatar suas mortes, meras baixas em um jogo impessoal, como jogadores vencidos em um videogame.

Podemos também observar, sob um viés filosófico o comportamento do personagem Shogo Kawada, sobrevivente de um jogo anterior que se alia ao casal de protagonistas. Kawada declara, em uma cena do filme, que o motivo que o fazia continuar era descobrir o porquê do sorriso de sua namorada, ao morrer em seus braços após se sacrificar por ele. No final Kawada, morrendo devido aos ferimentos decorrentes de sua luta para proteger seus recém conhecidos companheiros, revela que havia finalmente descoberto o motivo daquele sorriso: ele, como sua namorada, havia encontrado um sentido para a vida na verdadeira amizade desenvolvida naquela situação, ao se sacrificar por outros. Tal comportamento é claramente um exemplo da ética de Levinas posta em prática: Kawada encontra o sentido da vida ao se sacrificar por outros, colocando o outro acima de si mesmo, e obedecendo a lei de não deixar de ajudar o próximo.

Por fim não podemos deixar de comentar a inquietante violência presente em todo o filme. Não simplesmente violência gráfica; o mais inquietante certamente não é o sangue jorrando, mas os jovens amigos e colegas matando uns aos outros. Mas mesmo essa violência não detrai a importância da mensagem ética do filme. A violência como linguagem pode ser associada a uma função importante. Esta está presente mesmo nos textos de Levinas: este necessitava evocar o terror da violência nas descrições presentes em seus textos, para que o leitor sentisse a importância de escolher o caminho da ética para evitar tal horror. Da mesma forma, ao mostrar o horror e o absurdo da matança sem sentido entre colegas, o filme faz um contraponto a amizade, a bondade a ao sacrifício dos personagens que conseguem fugir a barbárie e se unir, baseados no amor ao próximo.

Comcluindo: mesmo em um filme aparentemente superficial, por se tratar de uma produção comercial, é possível se constatar diversas questões filosóficas, bastando para isso um olhar treinado, à partir do estudo de textos filosóficos; e com isso o cinema, assim como as demais artes, pode se provar não somente um bom entretenimento, mas também uma fonte de reflexão e de lições de vida.