Introdução

O objetivo deste trabalho é investigar a relação que a filosofia pode manter com outras áreas do saber, mais especificamente o cinema. Mas por que filosofia e cinema? É que a partir desta relação é possível ligar a educação com outras áreas do saber. Cinema é movimento, é vida. Ele aborda temas como a liberdade, a amizade, a arte, o existencialismo. Neste trabalho foi abordado o existencialismo, lido a partir de Blade Runner – o caçador de andróides. A relação cinema e filosofia é, sem dúvida, útil à educação, especialmente na formação e na educação dos mais jovens. Assim, jovens estudantes do ensino médio formam o público alvo deste trabalho. A exibição do filme e sua posterior discussão podem e deve ser apresentada em sala de aula à alunos do ensino médio.

Sinopse do filme

A trama do filme Blade Runner se passa numa Los Angeles, EUA, do início do século XXI. Mais especificamente se está em novembro de 2019, numa cidade futurista, numa época de alta tecnologia e num cenário de decadência urbana e social. Já no plano inicial do filme apresenta-se um quadro destes tempos. Há uma forte e constante chuva ácida, muitos gases são gerados existindo torres com incineradores que, ao queimarem esses gases, geram bolas de fogo. Os prédios são altíssimos (o protagonista do filme vive num apartamento no 97º andar) e são inclinados formando a silhueta de pirâmides. Há muita luz e poluição visual. Tudo isso insinuando mudanças climáticas decorrentes da ganância humana que degradou a vida na Terra, a superpovoou, gerando a necessidade de exploração e colonização interplanetária. Na verdade, a Los Angeles de 2019 é uma imensa Chinatown, de homens e mulheres incapazes de migrar para o paraíso distante, outras terras privilégio territorial da classe dos capitalistas e congêneres.

Uma grande corporação – Tyrell – desenvolveu andróides que são seres virtualmente identificados com seres humanos. O senhor desta gigantesca corporação vive numa cobertura acima das nuvens e da chuva ácida. Ele pode ver o sol e o céu azul. Seus andróides são seres chamados de replicantes. Estes são superiores em força e agilidade e pelo menos iguais em inteligência aos engenheiros genéticos que os criaram. Foram criados para exploração de colônias interplanetárias. São máquinas geneticamente projetadas pelos homens. Sua condição é clara: são escravos.

Replicantes foram criados a imagem e semelhança do homem tendo todos os órgãos, estrutura e funções destes. Eles foram criados com o propósito específico de trabalhar em tarefas altamente especializadas em ambientes particularmente difíceis nas fronteiras da exploração espacial. Eles são dotados de forças, de inteligência e de poderes que estão além do limite dos seres humanos. Replicantes também têm sentimentos. Somente assim, ao que parece, podem adaptar-se à dificuldade de, em suas tarefas, fazer julgamentos que correspondem aos requisitos humanos. É onde surge o ponto de inflexão do filme. Eles não são meras imitações, mas reproduções totalmente autênticas, indistinguíveis em quase todos os aspectos dos seres humanos. São antes simulacros do que robôs. Foram projetados como a forma última de força de trabalho de curto prazo, de alta capacidade produtiva e grande flexibilidade. Mas, como todos os trabalhadores diante da ameaça de uma vida de trabalho encurtada, os replicantes não aceitam felizes as restrições do seu curto tempo de vida, infiltrando-se no coração do aparelho produtivo que os fez e, ali, persuadindo ou forçando seus criadores a reprogramarem sua estrutura genética. De alguma maneira inesperada replicantes começaram a desenvolver emoções como ódio, amor, medo, raiva e inveja. Tanto que o filme inicia com a narração de um sangrento motim. Os amotinados são replicantes de última geração chamados Nexus 6. Esta geração, por motivos de controle, segurança e principalmente econômica, somente vive quatro anos, ou melhor, tem durabilidade e são consumidos em quatro anos. São ainda proibidos de permanecer na Terra. Durante o motim eles atacam uma nave, matam os tripulantes humanos e regressam a Terra. Contudo, há a Blade Runner, polícia especial, com ordens de atirar para matar assim que detecte qualquer transgressão replicante. O ato de matar um replicante não é denominado execução, e sim “recolhimento”.

Seis replicantes Nexus 6 chegam à Terra e tentam invadir a Tyrell. Dois morrem nesta tentativa frustada. Restam quatro, e “recolhê-los” é a tarefa do Blade Runner, o policial Rick Deckard. Dois são do sexo masculino e dois do feminino: Leon é um combatente, Roy é um líder militar nato, Zhora é uma assassina profissional, é a própria encarnação da bela e da fera. Pris é uma bela mulher, um modelo básico de prazer criado para satisfazer os homens (soldados) longe de casa. Há ainda uma quinta replicante, esta de uma geração superior ao Nexus 6. Seu nome é Rachel, ela tem implantes de memória de uma sobrinha do poderoso Tyrell. Rachel não tem um dia preestabelecido de terminação, isto é, não tem uma data definida para morrer. Ela é uma utopia, um delírio de Tyrell.

Blade Runner é um filme de caçada humana, onde, de certo modo, todos buscam algo: Deckard busca encontrar os replicantes; mas percebe-se também que ele busca a si próprio. E persegue o amor de Rachael, que está imersa na busca de sua identidade inexistente. E os replicantes Nexus 6 buscam desesperadamente ter mais tempo de vida. Enfim, o filme é uma pequena odisséia de homens e mulheres, humanos e pós-humanos, em busca da sua identidade perdida. Deckard, é um homem fragilizado, tem em sua presença e discurso masculinos um forte acento de vulnerabilidade, tanto que já havia se desligado da polícia. Ele é chamado de volta e forçado a aceitar novamente a tarefa de caçador de andróides. O argumento final para tal coação é vaticinado sobre ele pelo chefe Blade Runner, Bryant: “ou você é polícia ou é escória”. Se, sob este ponto de vista, todo ser humano que não for policial é um ser inferior, pode-se imaginar a situação dos replicantes. De fato, na sociedade econômica de 2019, o replicante não é parte do negócio, ele é o negócio, a mercadoria. Deckard fica intrigado com a decisão dos seis replicantes em retornar a Terra. No decorrer da trama fica claro que eles voltam atrás de algumas respostas. Sobre sua morfologia, sua longevidade e sua data de ativação.

Os replicantes em seu processo de humanização e de sobrevivência procuram forjar um passado, com fatos e fotos que os faça passar por humanos. Buscam na experiência humana, ou seja, na vivência, uma base para suas emoções. Buscam uma memória, uma lembrança. De fato eles demonstram entre si afeto, amizade e tristeza. Mas acima de tudo eles buscam longevidade. Esta é a razão de sua volta a Terra e a inconseqüente tentativa de invasão da Tyrell. Eles querem encontrar com seu criador, seu pai, e descobrir como podem obter longevidade. A trama toda gira em torno deste eixo. Os replicantes tentando chegar até Tyrell ao mesmo tempo em que Deckard os caça. Paralelo a isto são apresentados nuances da sociedade futurista, visivelmente tecnificada e decadente, personificada no dia-a-dia da uma grande metrópole. Percebe-se claramente ícones capitalistas: Coca-cola, PAM AM, Budweiser, Bulova. Videofones, computadores comandados por comando de voz, carros que voam trazem toda a temática tecnológica. A miscigenação racial, o ar cosmopolita de Los Angeles, chineses, turcos, negros, brancos, a moda, a alimentação, as ruas imundas traz uma sensação noir à trama. De fato Blade Runner é um filme noir por ser de um estilo de filme primariamente associado a filmes policiais, que retrata seus personagens principais num mundo cínico e antipático. Contraposta a estes ícones, aos arranha-céus, à tecnologia, entram as vivências puramente humanas. Muitas fotos de familiares, jornais em papel, uma angústia sempre presente trazem à luz estas reminiscências essencialmente humanas.

Deckard “recolhe” primeiro Zohra, a quem chama de Salomé. Após o violento recolhimento de Zohra, presenciado por Leon. Este, num sentimento de vingança tenta matar Deckard. Ele é salvo por Rachel, que ao “recolher” Leon sente tremores e calafrios, sensações tipicamente humanas. Obviamente ela não entende essas emoções e fica ainda mais confusa quando Deckard se insinua para a ela. Rachel se afasta, ele insiste e a ensina a demonstrar suas emoções. Rachel está num processo de humanização. O chefe Bryant procura Deckard, parabeniza-o pelos dois “recolhimentos” e avisa que faltam ainda três. Ele insiste que faltam dois (Rachel está fora de sua lista).

Enquanto isso Roy e Pris estão tentando chegar a Tyrell. Pris se aproxima do engenheiro genético J. F. Sebastian, um jovem gênio de 25 anos, portador da síndrome de Matusalém (decrepitude precipitada). Devido a sua enfermidade Sebastian não conseguiu ir para alguma colônia extraterrestre e vive só, num prédio abandonado, com alguns amigos que ele mesmo criou. A bela Pris se aproxima do envelhecido Sebastian, o cativa, vai para a sua casa e chama Roy. É através de Sebastian que Roy finalmente se encontra com Tyrell. O replicante quer sua resposta: mais longevidade. Tyrell explica não ser possível, e qualquer tentativa de alterar fatalmente o terminará antes do tempo previsto. Furioso Roy chama Tyrell de Pai, o beija e o mata com as próprias mãos. Em seguida mata também a Sebastian. A polícia descobre as mortes, Deckard vai até a morada de Sebastian e “recolhe” Pris. Em seguida Roy chega e encontra Pris morta, chora, a beija e, numa inversão de papéis, a caça vira caçador e vai atrás de Deckard. Esta é a seqüência final do filme e acontece toda no prédio de Sebastian. Durante a caçada Roy começa a perceber e sentir seu processo de terminação. Após um longo e nervoso jogo de gato e rato, Roy finalmente está em posição de matar Deckard. Nas cenas finais do filme Deckard está pendurado no alto de um prédio, está caindo, quando não agüenta mais e solta as mãos, um Roy quase sem vida o pega pelo braço e o salva. Roy “expira”. Deckard deixa a cidade com Rachel.

Fundamentação teórica

Blade Runner expressa, no melhor estilo pós-moderno, uma bricolage (uma tessitura de relevos) de situações típicas da temporalidade estendida e presente do fenômeno da acumulação flexível do capital. Passado, presente e futuro estão contidos numa temporalidade hipertensa, efêmera e transitória devido à compressão tempo-espaço decorrente da tecnologia. Não existem, a partir da ótica da narrativa, perspectivas de “negação da negação”. No bom estilo de Hollywood, as contradições sociais se traduzem em meras saídas individuais. Mas o que interessa são os significados críticos do filme. Ele é um pré-texto magistral onde são apreendidos os dilaceramentos humanos diante da opressão do capital. O mundo social de Blade Runner é um mundo capitalista, com a presença visível dos ícones das corporações globais, cintilando em luzes néon num cenário anômalo. Torna-se visível através do exagero metodológico da ficção-científica alguns elementos contraditórios desta estranha sociabilidade.

Blade Runner é muito fértil em sua relação com a filosofia. Diferentes problemáticas filosóficas podem ser investigadas a partir do filme. Em primeiro lugar, é um filme de ação intensa que contém uma profunda reflexão filosófica sobre o problema da identidade do homem, debilitada pela descentralização antropológica diante da vigência de estruturas corporativas tecnocráticas do mundo do capital flexível (financeiro e rentista). Em segundo lugar, a questão da impossibilidade da vida plena de sentido num sistema de tempo de vida restringido e problemas relacionados às lembranças e à memória. Em terceiro lugar, o drama explícito da tragédia humana dentro de uma sociabilidade estruturada: a finitude e a morte. Neste sentido, um paradoxo interessante do filme é a relação de Sebastian, projetista genético, um dos criadores dos Nexus 6, que, tal como eles, sofre de decrepitude acelerada. Ou seja, Sebastian sofre naturalmente de envelhecimento precoce, enquanto os replicantes sofrem de um “envelhecimento” programado.

Identidade do homem

As anomalias da Los Angeles em 2019 são opressivas, onde a individualidade humana é tão-somente uma sombra molhada pela constante chuva negra, decorrente de um ecossistema devastado. Como construção histórica, a identidade do homem como sujeito da modernidade, encontra-se irremediavelmente obliterada. A localização anômala (noir) de Blade Runner tende a negar, em si, qualquer identidade do homem consigo mesmo. O sistema do capital, com suas derivações destrutivas no plano do ecossistema, coloca no centro do cosmo, o fetiche das coisas, isto é, as tecnocracias urbano-corporativas com seus aparatos policiais e de manipulação midiática,

Mas a identidade humana é debilitada não apenas pela Los Angeles de 2019, com seu urbanismo opressor e sua humanidade sem a utopia, mas pelo próprio desenvolvimento tecnocientífico e da engenharia genética que criou os replicantes, imagens perfeitas do homem, objetos técnicos complexos que desencantam irremediavelmente qualquer idéia de uma unicidade humana.

Walter Benjamin já demonstrou que a reprodutibilidade técnica tende a ocasionar a perda da aura da obra de arte e pode-se dizer, no caso de replicantes, da própria vida. Tal perda é percebida a partir da idéia de tempo e eternidade na obra de arte autêntica, retomada por Benjamin que tenta retraduzir essa experiência estética fundamental em uma relação histórica. Benjamin constrói o conceito de “tempo-presente” – depósito de um tempo messiânico ou acabado, com ajuda do tema da mímesis facilmente pressentido no fenômeno replicante. Assim, para Benjamin:

A Revolução Francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado (...) O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como a concebeu Marx”. (BENJAMIN, 1996:230).

Benjamin não se rebela apenas contra a emprestada normatividade de uma compreensão da história que resulta da imitação de modelos passados; ele luta igualmente contra aquelas concepções que, já no terreno da compreensão moderna da história, interrompem e neutralizam a provocação do novo e do absolutamente inesperado. Benjamin se volta,

Por um lado, contra a idéia de um tempo homogêneo e vazio, preenchido pela “obstinada fé no progresso” do evolucionismo e da filosofia da história, mas também, por outro, contra aquela neutralização de todos os critérios que o historicismo opera quando encerra a história em um museu e desfia “entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário””. (BENJAMIN, 1996:232).

A Los Angeles de 2019 é o resultado de uma obstinada fé no progresso que não só abriu caminho para a sociedade capitalista interplanetária como também abriu caminho para as intervenções estéticas ativas da vida cultural e política, exercendo sobre a sociedade um poder positivo, uma verdadeira função sacerdotal, um sentimento, de marchar vigorosamente na dianteira de todas as faculdades intelectuais na época do seu maior desenvolvimento, a colonização interplanetária. O problema desse sentimento é o fato de ver o vínculo estético entre ciência e moralidade, entre conhecimento e ação, de maneira a nunca serem ameaçados pela evolução histórica. O juízo estético, como nos casos de Benjamin, podia levar com a mesma facilidade para a direita ou para a esquerda do espectro político. Como Baudelaire (1995) logo percebeu, se o fluxo e a mudança, a efemeridade e a fragmentação formavam a base material da vida moderna, então a definição de uma estética futurista dependia de maneira crucial do posicionamento do artista diante desses processos. A criação de replicantes é o retorno da arte modernista, aquilo que Benjamin (1996) denomina arte áurica, no sentido de que o artista tinha de assumir uma aura de criatividade, de dedicação à arte pela arte, para produzir um objeto cultural original, sem par e, portanto, eminentemente comercializável a preço de monopólio. O comércio de replicantes é um monopólio da Tyrell. No filme, o resultado foi uma perspectiva altamente individualista, aristocrática, desdenhosa, particularmente da cultura popular, e até arrogante da parte dos produtores “culturais”, mas também indicou como a realidade foi construída e reconstruída através da atividade informada pela estética. Por um lado, a modelagem benjaminiana é a de invocar um passado correspondente, carregado de tempo presente, para romper o continuum inerte da história onde a modernidade diluída em atualidade tem de colher sua normatividade das imagens refletidas de passados incitados, tão logo alcance a autenticidade de um tempo-presente. Estes não serão mais percebidos como passados originalmente exemplares. Por outro, o modelo baudelairiano é aquele do criador de moda que focaliza antes a criatividade que se opõe ao ideal estético de imitação dos modelos clássicos e, do ato do claro pressentimento de tais correspondências.

Reconhecendo essas características, tanto Baudelaire quanto Benjamin, cada um a seu tempo, tentaram mobilizar suas capacidades estéticas para fins revolucionários ao fundir arte com a cultura popular. É desse modo que Blade Runner internaliza seu próprio turbilhão de ambigüidades, de contradições e de mudanças estéticas pulsantes, ao mesmo tempo em que busca afetar a estética da vida diária, não só na arte, mas também avançando sobre a política e a economia. Por mais que Benjamin proclamasse uma aura de “arte pela arte”, os fatos da vida cotidiana de 2019 têm mais do que uma influência passageira sobre a sensibilidade estética criada no interior da sociedade. Para começar, a capacidade técnica mutante de produzir, disseminar e vender produtos, serviços e imagens a públicos de massa, com o auxílio de sistemas multimídia mudaram radicalmente as condições materiais de existência de artistas, políticos e trabalhadores, classificados como consumidores e, portanto, alterando radicalmente o papel econômico, social e político da sociedade. E, sem relação com a consciência geral do fluxo e da mudança representada pela Los Angeles de 2019, um fascínio pela técnica, pela velocidade, pelo movimento e pela máquina, bem como pela cadeia de novas mercadorias que penetraram na vida cotidiana (corujas e cobras artificiais, alimentos, bebidas, etc.), provocou uma ampla gama de respostas estéticas que vão da negação à especulação sobre possibilidades utópicas, passando pela imitação. São dessa espécie as diversas reações que fizeram do filme uma questão tão complexa e, com freqüência, contraditória.

Trata-se de uma extraordinária combinação entre o futuro e o niilismo, uma celebração de uma era tecnológica e a sua condenação, uma excitada aceitação da crença de que os velhos regimes da cultura tenham chegado ao fim e a um profundo desespero diante desse temor; uma mistura de convicções de que as novas formas são fugas do historicismo e das pressões da sociedade capitalista do futuro, com convicções de que essas formas foram e continuam a ser, precisamente, a expressão viva dessas coisas. A crença no progresso linear, nas verdades absolutas e no planejamento racional de ordens sociais ideais sob condições padronizadas de conhecimento e de produção foi e ainda é particularmente forte. Por isso, o filme mostra uma globalização positivista, tecnocêntrica e racionalista, ao mesmo tempo em que se impõe como obra de uma elite de trabalhadores intelectuais.

Os avanços da técnica tendem a desencantar, mas, de forma contraditória, afirmam a identidade do homem. Pode-se dizer que é através da experiência de vida dos replicantes que tende a ocorrer à apreensão da identidade perdida, ou em processo de perda, do homem. Na verdade, o homem se encontra através de seus objetos vivos (uma contradição em termos). É no decorrer desta busca desesperada dos Nexus 6 que conseguimos apreender o significado (e valor) da experiência humana.

Impossibilidade da vida plena de sentido: tempo de vida e memória

Os replicantes buscam o mesmo que todo ser humano: tempo de vida e memória. Esta é base da hominização em Blade Runner. Mas o que se encontra, homens e replicantes, é passível de debilitação sob o sistema do capital. O tempo de vida se converte em tempo de trabalho e a memória se degrada por conta da presentificação crônica instaurada pelo metabolismo do capital. Mas a ciência humana de Blade Runner está imersa num paradoxo: ainda não conseguiu compatibilizar vida intensa e maior inteligência com maior tempo de vida. Ao reivindicar mais tempo de vida “o criador pode consertar a criação?” – pergunta o replicante Roy. Ele ouve de seu criador Tyrell o seguinte: “Fazer alterações na evolução de um sistema orgânico é fatal. Um código genético não pode ser alterado depois de estabelecido. Quaisquer células que tenham sofrido mutações de reversão dão origem a colônias reversas, como ratos abandonando o navio...” E Tyrell conclui: “A luz que brilha o dobro arde a metade do tempo.” Este diálogo é uma das cenas mais significativas do filme. Expressa o um agudo paradoxo: “você foi feito o melhor possível, mas não pode durar”, diz Tyrell. É a suprema contradição entre o desenvolvimento complexo do processo civilizatório e das forças produtivas do trabalho e a forma social do capital. É uma aguda injustiça ter tanta inteligência e intensa ânsia de viver e tempo de vida tão curto. O drama replicante é o drama humano. É através dele que se apreende a tragédia humana. Ao ouvir de Tyrell que não podem obter um tempo de vida estendido, os replicantes colocam-se diante de uma impossibilidade concreta dada pelo estágio de desenvolvimento da engenharia genética. Existe, deste modo, um limite técnico – mas perguntaríamos: é apenas um limite técnico, tecnológico, econômico ou moral? É claramente um limite econômico: os replicantes são uma mercadoria com prazo de validade. Nasce, contudo, nesta mercadoria, a noção do cogito ergo sum , como disse a replicante Pris: “penso, Sebastian, logo existo”. Ou seja, não basta apenas pensar para existir. Há aí uma referência sarcástica à famosa frase de Descartes, o que sugere uma crítica ao racionalismo cartesiano, base da filosofia do sujeito e da civilização do capital. Estamos diante de uma aguda contradição: o homem demonstrou ser capaz de dar a vida, mas não conseguiu ainda ser capaz de dar-lhe um sentido. Ou melhor, o homem ainda não se tornou capaz de constitui um campo de desenvolvimento humano, onde a vida possa ser plena de sentido.

Os replicantes podem ser considerados a síntese intensa da tragédia humana. A cena do criador sendo dilacerado pela própria criatura é uma das mais significativas cenas do filme. É um gesto supremo de insatisfação existencial. É um gesto totalmente absurdo. Ao esmagar o cérebro de Tyrell, Roy dilacera e contesta a perversidade da inteligência humana. Se ao matar Tyrell, Roy expressa um gesto de afirmação da vida, demonstrando uma suprema indignação com seu destino, ao poupar Deckard da morte, demonstra ser a vida um valor supremo para ele. Ou seja, na sua derradeira cena, o replicante Roy traduz o que é próprio da condição humana sob o sistema do capital. Disse ele: “Uma experiência e tanto viver com medo, não? Ser escravo é assim.” E sentindo toda a angustia do paradoxo de Blade Runner, isto é, a amargura de inteligências agudas e de alta sensibilidade estética diante de uma vida fugaz e supérflua, Roy observa: “Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam”, e arremata “todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva.” O replicante sente a angústia do tempo, destacando a unicidade (e fluidez) da sua experiência singular de vida. Conclui, dizendo: “É hora de morrer”.

Na busca de hominização, as fotografia de Rachel são necessárias para afirmar para si própria o simulacro de sua identidade pessoal. Na verdade, tais representações, ou melhor, signos, de memória, são quase uma extensão de si. O que se coloca, a partir da experiência de Rachel é o seguinte: até que ponto memórias pessoais pertencem às pessoas e não são apenas representações ou signos protéticos, implantados pelo complexo midiático vigente do sistema do capital, que produzem, por exemplo, nostalgia de um tempo não-vivido, mas percebido no plano imagético? Na verdade, como percebemos, o mundo social do filme é o mundo da aguda manipulação da subjetividade.

Deckard sente amor por Rachel. Por isso ele irá ensiná-la a ter instintos sociais (sociabilidade dos afetos), quase para dar completude ao simulacro de sua identidade humana. Nesse caso, o que parece ser, tende a se tornar. De fato, ao agir como mulher, Rachel tornar-se-á mulher. Em Blade Runner, a afirmação da hominização ocorre através da práxis autoconsciente, reflexiva e mimética.

Neste momento, se está diante da pedagogia da práxis mimética, aquilo que Aristóteles considerava fundamental no próprio ato da educação. Em Aristóteles, a arte de aprender se reduz a imitar por muito tempo e a copiar por muito tempo. Ou seja, adquire-se tal ou qual disposição ética agindo de tal ou qual maneira. O caráter não é mais o que recebe suas determinações da natureza, da educação, da idade, da condição social; é o produto da série de atos dos quais se é o principio. Pode-se ser declarado autor de seu próprio caráter, como de seus próprios atos. Ao ensinar a Rachel a sociabilidade dos afetos através da formação de hábitos, da imitação, de ações ponderadas, Deckard se contrapunha à imposição da natureza dada, do destino inscrito pela Natureza ou pela lógica da tecnologia.

Conclusão

Blade Runner é uma parábola de ficção científica em que temas pós-modernos, situados num contexto de acumulação flexível do capital e de compressão do tempo-espaço, são explorados com todo o poder de imaginação que o cinema pode mobilizar. O conflito ocorre entre pessoas que vivem em escalas de tempo distintas e que, como resultado, vêem e vivem o mundo de maneira bem diferente. Os replicantes não têm história real, mas talvez possam fabricar uma. A história foi, para todos, reduzida à prova de fotografia. Embora a socialização ainda seja importante para a história pessoal, também ela pode, como mostra Rachel, ser replicada. O lado depressivo do filme é justamente que, no final, a diferença entre o replicante e o ser humano fica tão irreconhecível que eles podem até se apaixonar um pelo outro. O poder do simulacro está em toda parte. O final do filme é uma cena de puro escapismo, tolerada, deve-se notar, pelas autoridades, que deixa como estão tanto o problema dos replicantes como as péssimas condições da frenética massa humana que habita as ruas criminosas de um mundo pós-moderno decrépito, desindustrializado e decadente.

Bibliografia

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Aplicabilidade ao ensino médio

A história de Blade Runner se refere a um pequeno grupo de seres humanos geneticamente produzidos, chamados replicantes, que voltam para enfrentar seus criadores. O filme é situado na Los Angeles do ano de 2019 e gira em torno da investigação do especialista Deckard, destinada a descobrir a presença dos replicantes e eliminá-los ou “recolhê-los” como um sério perigo para a ordem social. Seus fabricantes lhes deram um tempo de vida de apenas quatro anos. Mas quando escapam ao controle durante estes quatro anos é preciso “recolhê-los”. Isto é tão perigoso quanto difícil, pois eles têm uma capacidade superior em força e inteligência, se comparados com os engenheiros que os projetaram.

A relação cinema e filosofia fica claro neste filme ao tratar do tema do existencialismo, especialmente a finitude e a morte, a condição de trabalhador livre e do escravo.

Apresentar tal problemática à alunos do ensino médio não é uma tarefa fácil. Talvez, um bom início seja ressaltar a presciência do filme, já em 1982, época em que foi lançado. Com mais acertos do que erros, este filme previu muitas coisas que estão sendo vivenciadas e experienciadas atualmente: degradação social e ambiental, alta tecnologia, densidade demográfica, etc. outro aspecto importante é realçar o excesso de consumo, a desindustrialização, o individualismo exacerbado. Após tal contextualização, apresentar o filme aos alunos e discuti-lo após tal projeção.