A - Introdução

O presente trabalho tem duas temáticas, uma que diz respeito a forma como se dá o relacionamento entre os novos meios de produção de arte áudios-visuais e a própria conteúdo de arte, no caso, curtas-metragens; e uma outra temática que diz respeito ao próprio conteúdo filosófico dessa arte, que corresponde ao tema “o que é filosofia?”

Não é a minha pretensão dizer o que é filosofia a partir desses pequenos vídeos, mesmo porque, não sei se conseguiria. Antes disso, pretendo relacionar esse vídeos com questões simples. Do tipo: “quem é o filósofo?”, “qual o seu instrumento?”, e “com o que ele lida?”

Todos os seis curtas listados na sinopse tem alguma relação com essas questões.

Na “fundamentação teórica”, exponho uma breve situação atual sobre a produção áudio-visual pela Internet, relacionando-a com a globalização e depois coloco um texto filosófico de Russell, no qual ele expõe o valor da filosofia.

B – Sinopse dos curtas.

Dadas as particularidade de alguns desses curtas-metragens, ou cenas, não foi possível estabelecer com precisão todas as informações relevantes para a identificação adequada de cada um deles. Em alguns, é difícil até de determinar o diretor da cena. Mas dentro do possível, foi fornecido os dados pertinentes.

1 – Afinação da interioridade. – 2001 - 1:15min.

Direção: Roberto Berliner

Sinopse: Gilberto Gil, Ministro da Cultura, define o que é música. Um filme sobre o espaço entre pensamento e palavras.

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Endereço: http://www.youtube.com/watch?v=93PLX0SPrr4

2 – Paradoxo da espera do ônibus. – 2007 – 4:00min.

Direção:Christian Caselli

Sinopse: Um cara espera pelo ônibus. Ele virá? Quando? O que fazer? Desenho desanimado visto mais de 260 mil vezes na internet.

Endereço: http://www.youtube.com/watch?v=UKv6VP2HcMo

3 – Pensamento matemático. – 5:15min.

Uma desenho animado da Disney

Sinopse: Donald no país da Matemática

Endereço: http://www.youtube.com/watch?v=T8PIIk3_qt8

4 – Trecho do documentário “A linha – matéria e sentido”. – 2005 – 4:32min.

Direção: Thaís Aguiar

Sinopse: “A linha - matéria e sentidos” são dois documentários, um para televisão e um para exibição em salas de cinema sobre o homem morador das cidades pelas quais passam os trens de carga de leste à oeste do Estado do Paraná. A produção passeia por seis municípios. O enfoque é o homem, seus pensamentos, suas idéias, sua expressão, sempre destacando os trilhos de ferro e o que isto modifica ou interfere seus sentidos.

Uma equipe de 10 profissionais registra o trajeto Paranaguá – Cascavel com o intuito de proporcionar ao espectador a sensação de viajar num dos mais antigos meios de transportes do mundo, ainda que num Auto de Linha.

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Endereço: http://www.youtube.com/watch?v=eRmaEwTljmQ

5 – O poder da palavra. – 2008 – 3:58min.

Direção: Turma de 2006 da Curso Superior do Audiovisual da Universidade de São Paulo, tem 35 alunos e a maior parte dos vídeos publicados são resultados de exercícios.

Sinopse: Uma análise filosófica das relações sociais pós-apocalípticas.

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Endereço: http://br.youtube.com/watch?v=1VGq71SphOw



6 – Futebol dos filósofos. – 1982 – 3:44min.

Direção: Esquete do Monty Phyton, intérpretes da série cômica da televisão britânica.

Sinopse: “Eletrizante” partida de futebol entre filósofos gregos e alemães.

Endereço: http://www.youtube.com/watch?v=moWZm66J_yM

C – Fundamentação teórica.

Com o crescimento da Internet, muitas ferramentas começaram a fazer sucesso, Orkut, Fotolog, Myspace, e Wikipedia, só para citar alguns exemplos, e ainda com mais força, surgiram sistemas de compartilhamento de vídeos, como o YouTube, que permitem a divulgação de trabalhos particulares, bem como o acesso a uma indefinível quantidade de vídeos dos mais variados conteúdos.

Os números são manjados, mas vale sublinhá-los: no YouTube são mais de 200 milhões de vídeos assistidos diariamente, quase 100 mil novos vídeos “uploadados” todos os dias e quase meio bilhão de visitantes por mês – fora o 1.6 bilhão de dólares que o Google pagou para comprá-lo em novembro de 2006. Definitivamente, não é pouca coisa.

Em paralelo a isso, equipamentos de filmagem começam a se tornar corriqueiros, seja em câmeras fotográficas digitais, handycams cada vez mais simples, celulares com a função câmera de vídeo e o barateamento do hardware de vídeo digital como um todo. A possibilidade de criação áudio-visual se torna cada vez mais maior, e por conseguinte verifica-se um processo de democratização nos meios de produção artísticas; basta um celular na mão, uma idéia ou uma situação corriqueira no meio rua para que todos possam conhecer a sua visão de mundo ou descoberta. Quase todos os novos nomes revelados pela indústria da música no último ano – um conceito mais amplo que a indústria do disco – têm seu histórico embasado por uma geração de músicos e empresários que já haviam entendido a internet mais do que como parceira, e sim veículo-chave na distribuição e divulgação de seus trabalhos – Lily Alen, Artic Monkeys, Cansei de Ser Sexy são alguns exemplos; sem mencionar, fora do âmbito cultural, a atual campanha do candidato a presidência dos Estado Unidos Barack Obama, que está ocorrendo em grande parte pela Internet, com pedido de pequenas quantias aos eleitores, através de e-mails e vídeos no YouTube.

Do outro lado desse fenômeno cultural, as conseqüências da internet também são não são poucas, grande parte do sucesso do YouTube vem do fato de seu conteúdo liberar o espectador da grade de televisão tradicional, permitir acesso a todo um acervo até então sem canal para vazão (parados em acervos pessoais, produções independentes e arquivos de emissoras de TV).

Dois dados simples: só no Brasil o número de assinatura de internet em banda larga é maior do que a de assinantes de TV a cabo e o número de computadores vendidos ultrapassa a quantidade de aparelhos de TV. É obvio que isso não matar o cinema ou televisão, mas sim, cria uma nova via de diálogo com o público, que se sente mais à vontade e próximo do conteúdo filmado, que, pouco a pouco, ganha resolução e qualidade na tela do computador.

Sem duvida nenhuma, essa situação remete ao conceito de “aldeia global” do filósofo Marshall McLuhan: “Aldeia global quer dizer simplesmente que o progresso tecnológico estava reduzindo todo o planeta à mesma situação que ocorre em uma aldeia, ou seja, a possibilidade de se intercomunicar diretamente com qualquer pessoa que nela vive.

Como paradigma da aldeia global, ele elegeu a televisão, um meio de comunicação de massa em nível internacional, que começava a ser integrado via satélite. Esqueceu, no entanto, que as formas de comunicação da aldeia são essencialmente bidirecionais e entre dois indivíduos. Somente agora, com o celular e a internet é que o conceito começa a se concretizar.”

Por fim, faz pouco tempo que a sociedade está passando por mudanças nos meios de comunicação; novos produto são criados, mais accessíveis, novas formas e maneiras diferentes cada vez mais complexas se estabilizam, e ainda é cedo para se dizer quais as conseqüências disso nas relações humanas. Mas as possibilidade dessas novas fermentas de maneira nenhuma se mostram como prejudiciais.

D – Texto filosófico

Todo autor filosófico, em algum parte, de algum modo, se pergunta porque faz o que faz, e o que é que faz. Sobre esse tema, é fácil escolher um texto e colocá-lo aqui, pois todos têm alguma consideração a fazer sobre “o que é Filosofia”. O último capítulo do livro “Os Problemas da Filosofia” de Bertrand Russell me pareceu o mais conveniente, por ser relativamente pequeno e por já estar digitalizado, e também porque aquela piado na qual diz que “a filosofia é a tal, com e sem a qual, tudo permanece tal e qual”; já perdeu a graça.

O valor da filosofia.

Tendo agora chegado ao término de nossa breve e incompletíssima revisão dos problemas da filosofia, será conveniente considerar, para concluir, qual é o valor da filosofia e por que ela deve ser estudada. É da maior importância considerar esta questão, em vista do fato de que muitos homens, sob a influência da ciência e dos negócios práticos, propendem a duvidar se a filosofia é algo melhor que um inocente mas inútil passatempo, com distinções sutis e controvérsias sobre questões em que o conhecimento é impossível.

Esta visão da filosofia parece resultar, em parte, de uma concepção errada dos fins da vida humana e em parte de uma concepção errada sobre o tipo de bens que a filosofia empenha-se em buscar. As ciências físicas, por meio de invenções, são úteis para inumeráveis pessoas que a ignoram completamente; e por isso o estudo das ciências físicas é recomendável não somente, ou principalmente, por causa dos efeitos sobre os estudantes, mas antes por causa dos efeitos sobre a humanidade em geral. É esta utilidade que faz parte da filosofia. Se o estudo de filosofia tem algum valor para outras pessoas além de para os estudantes de filosofia, deve ser somente indiretamente, através de seus efeitos sobre as vidas daqueles que a estudam. Portanto, é em seus efeitos, se é que ela tem algum, que se deve procurar o valor da filosofia.

Mas, além disso, se não quisermos fracassar em nosso esforço para determinar o valor da filosofia, devemos em primeiro lugar libertar nossas mentes dos preconceitos dos que são incorretamente chamados homens práticos. O homem prático, como esta palavra é freqüentemente usada, é alguém que reconhece apenas necessidades materiais, que acha que o homem deve ter alimento para o corpo, mas se esquece que é necessário prover alimento para o espírito. Se todos os homens estivessem bem; se a pobreza e as enfermidades tivessem já sido reduzidas o mais possível, ainda ficaria muito por fazer para produzir uma sociedade verdadeiramente válida; e até no mundo existente os bens do espírito são pelo menos tão importantes quanto os bens materiais. É exclusivamente entre os bens do espírito que o valor da filosofia deve ser procurado; e somente aqueles que não são indiferentes a esses bens podem persuadir-se de que o estudo da filosofia não é perda de tempo.

A filosofia, como todos os outros estudos, visa em primeiro lugar o conhecimento. O conhecimento que ela tem em vista é o tipo de conhecimento que confere unidade sistemática ao corpo das ciências, bem como o que resulta de um exame crítico dos fundamentos de nossas convicções, de nossos preconceitos e de nossas crenças. Mas não se pode dizer, no entanto, que a filosofia tenha tido algum grande êxito na sua tentativa de fornecer respostas definitivas a seus problemas. Se perguntarmos a um matemático, a um mineralogista, a um historiador ou a qualquer outro cientista, que definido corpo de verdades foi estabelecido pela sua ciência, sua resposta durará tanto tempo quanto estivermos dispostos a lhe dar ouvidos. Mas se fizermos essa mesma pergunta a um filósofo, ele terá que confessar, se for sincero, que a filosofia não tem alcançado resultados positivos tais como tem sido alcançados por outras ciências. É verdade que isso se explica, em parte, pelo fato de que, mal se torna possível um conhecimento preciso naquilo que diz respeito a determinado assunto, este assunto deixa de ser chamado de filosofia, e torna-se uma ciência especial. Todo o estudo dos corpos celestes, que hoje pertence à Astronomia, se incluía outrora na filosofia; a grande obra de Newton tem por título: Princípios matemáticos da filosofia natural. De maneira semelhante, o estudo da mente humana, que era uma parte da filosofia, está hoje separado da filosofia e tornou-se a ciência da psicologia. Assim, em grande medida, a incerteza da filosofia é mais aparente do que real: aquelas questões para as quais já se tem respostas positivas vão sendo colocadas nas ciências, ao passo que aquelas para as quais não foi encontrada até o presente nenhuma resposta exata, continuam a constituir esse resíduo, que é chamado de filosofia.

Isto é, no entanto, só uma parte do que é verdade quanto à incerteza da filosofia. Existem muitas questões ainda – e entre elas aquelas que são do mais profundo interesse para a nossa vida espiritual – que, na medida em que podemos ver, deverão permanecer insolúveis para o intelecto humano, a menos que seus poderes se tornem de uma ordem inteiramente diferente daquela que são atualmente. O universo tem alguma unidade de plano e objetivo, ou ele é um concurso fortuito de átomos? É a consciência uma parte permanente do universo, dando-nos esperança de um aumento indefinido da sabedoria, ou ela não passa de transitório acidente sobre um pequeno planeta, onde a vida acabará por se tornar impossível? São o bem e o mal importantes para o universo ou somente para o homem? Tais questões são colocadas pela filosofia, e respondidas de diversas maneiras por vários filósofos. Mas, parece que se as respostas são de algum modo descobertas ou não, nenhuma das respostas sugeridas pela filosofia pode ser demonstrada como verdadeira. E, no entanto, por fraca que seja a esperança de vir a descobrir uma resposta, é parte do papel da filosofia continuar a examinar tais questões, tornar-nos conscientes da sua importância, examinar todas as suas abordagens, mantendo vivo o interesse especulativo pelo universo, que correríamos o risco de deixar morrer se nos confinássemos aos conhecimentos definitivamente determináveis.

Muitos filósofos, é verdade, sustentaram que a filosofia poderia estabelecer a verdade de certas respostas a tais questões fundamentais. Eles supuseram que o que é mais importante no campo das crenças religiosas pode ser provado como verdadeiro por meio de estritas demonstrações. A fim de julgar tais tentativas, é necessário fazer uma investigação sobre o conhecimento humano, e formar uma opinião quanto a seus métodos e suas limitações. Sobre tais assuntos é insensato nos pronunciarmos dogmaticamente. Porém, se as investigações de nossos capítulos anteriores não nos induziram ao erro, seremos forçados a renunciar à esperança de descobrir provas filosóficas para as crenças religiosas. Portanto, não podemos incluir como parte do valor da filosofia qualquer série de respostas definidas a tais questões. Mais uma vez, portanto, o valor da filosofia não depende de um suposto corpo de conhecimento definitivamente assegurável, que possa ser adquirido por aqueles que a estudam.

O valor da filosofia, na realidade, deve ser buscado, em grande medida, na sua própria incerteza. O homem que não tem algumas noções de filosofia caminha pela vida afora preso a preconceitos derivados do senso comum, das crenças habituais de sua época e do seu país, e das convicções que cresceram no seu espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão deliberada. Para tal homem o mundo tende a tornar-se finito, definido, óbvio; para ele os objetos habituais não levantam problemas e as possibilidades infamiliares são desdenhosamente rejeitadas. Quando começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente nos damos conta (como vimos nos primeiros capítulos deste livro) de que até as coisas mais ordinárias conduzem a problemas para os quais somente respostas muito incompletas podem ser dadas. A filosofia, apesar de incapaz de nos dizer com certeza qual é a verdadeira resposta para as dúvidas que ela própria levanta, é capaz de sugerir numerosas possibilidades que ampliam nossos pensamentos, livrando-os da tirania do hábito. Desta maneira, embora diminua nosso sentimento de certeza com relação ao que as coisas são, aumenta em muito nosso conhecimento a respeito do que as coisas podem ser; ela remove o dogmatismo um tanto arrogante daqueles que nunca chegaram a empreender viagens nas regiões da dúvida libertadora; e vivifica nosso sentimento de admiração, ao mostrar as coisas familiares num determinado aspecto não familiar.

Além de sua utilidade ao mostrar insuspeitas possibilidades, a filosofia tem um valor – talvez seu principal valor – por causa da grandeza dos objetos que ela contempla, e da liberdade proveniente da visão rigorosa e pessoal resultante de sua contemplação. A vida do homem reduzido ao instinto encerra-se no círculo de seus interesses particulares; a família e os amigos podem ser incluídos, mas o resto do mundo para ele não conta, exceto na medida em que ele pode ajudar ou impedir o que surge dentro do círculo dos desejos instintivos. Em tal vida existe alguma coisa que é febril e limitada, em comparação com a qual a vida filosófica é serena e livre. Situado em meio de um mundo poderoso e vasto que mais cedo ou mais tarde deverá deitar nosso mundo privado em ruínas, o mundo privado dos interesses instintivos é muito pequeno. A não ser que ampliemos nosso interesse de maneira a incluir todo o mundo externo, ficaremos como uma guarnição numa praça sitiada, sabendo que o inimigo não a deixará fugir e que a capitulação final é inevitável. Não há paz em tal vida, mas uma luta contínua entre a insistência do desejo e a impotência da vontade. De uma maneira ou de outra, se pretendemos uma vida grande e livre, devemos escapar desta prisão e desta luta.

Uma válvula de escape é pela contemplação filosófica. A contemplação filosófica não divide, em suas investigações mais amplas, o universo em dois campos hostis: amigos e inimigos, aliados e adversários, bons e maus; ela encara o todo imparcialmente. A contemplação filosófica, quando é pura, não visa provar que o restante do universo é semelhante ao homem. Toda aquisição de conhecimento é um alargamento do eu, mas este alargamento é melhor alcançado quando não é procurado diretamente. Este alargamento é obtido quando o desejo de conhecimento é somente operativo, por um estudo que não deseja previamente que seus objetos tenham este ou aquele caráter, mas adapte o eu aos caracteres que ele encontra em seus objetos. Esse alargamento do eu não é obtido quando, tomando o eu como ele é, tentamos mostrar que o mundo é tão similar a este eu que seu conhecimento é possível sem qualquer aceitação do que parece estranho. O desejo para provar isto é uma forma de egotismo, é um obstáculo para o crescimento do eu que ele deseja, e do qual o eu sabe que é capaz. O egotismo, na especulação filosófica como em tudo o mais, vê o mundo como um meio para seus próprios fins; assim, ele faz do mundo menos caso do que faz do eu, e o eu coloca limites para a grandeza de seus bens. Na contemplação, pelo contrário, partimos do não-eu, e por meio de sua grandeza os limites do eu são ampliados; através da infinidade do universo, a mente que o contempla participa um pouco da infinidade.

Por esta razão a grandeza da alma não é promovida por aquelas filosofias que assimilam o universo ao Homem. O conhecimento é uma forma de união do eu com o não-eu. Como toda união, ela é prejudicada pelo domínio, e, portanto, por qualquer tentativa de forçar o universo em conformidade com o que descobrimos em nós mesmos. Existe uma tendência filosófica muito difundida em relação a visão que nos diz que o Homem é a medida de todas as coisas; que a verdade é construção humana; que espaço e tempo, e o mundo dos universais, são propriedades da mente, e que, se existe alguma coisa que não seja criada pela mente, é algo incognoscível e de nenhuma importância para nós. Esta visão, se nossas discussões precedentes forem corretas, não é verdadeira; mas além de não ser verdadeira, ela tem o efeito de despojar a contemplação filosófica de tudo aquilo que lhe dá valor, visto que ela aprisiona a contemplação do eu. O que tal visão chama conhecimento não é uma união com o não-eu, mas uma série de preconceitos, hábitos e desejos, que compõem um impenetrável véu entre nós e o mundo para além de nós. O homem que se compraz em tal teoria do conhecimento humano assemelha-se ao homem que nunca abandona seu círculo doméstico por receio de que fora dele sua palavra não seja lei.

A verdadeira contemplação filosófica, pelo contrário, encontra sua satisfação no próprio alargamento do não-eu, em toda coisa que engrandece os objetos contemplados, e desse modo o sujeito que contempla. Na contemplação, tudo aquilo que é pessoal e privado, tudo o que depende do hábito, do auto-interesse ou desejo, deforma o objeto, e, portanto, prejudica a união que a inteligência busca. Levantando uma barreira entre o sujeito e o objeto, as coisas pessoais e privadas tornam-se uma prisão para o intelecto. O livre intelecto enxergará assim como Deus poderia ver: sem um aqui e agora; sem esperança e sem medo; isento das crenças habituais e preconceitos tradicionais; calmamente, desapaixonadamente, com o único e exclusivo desejo de conhecimento – conhecimento tão impessoal, tão puramente contemplativo quanto é possível a um homem alcançar. Por isso, o espírito livre valorizará mais o conhecimento abstrato e universal em que não entram os acidentes da história particular, que ao conhecimento trazido pelos sentidos, e dependente – como tal conhecimento deve ser – de um ponto de vista pessoal e exclusivo, e de um corpo cujos órgãos dos sentidos distorcem tanto quanto revelam.

A mente que se tornou acostumada com a liberdade e imparcialidade da contemplação filosófica preservará alguma coisa da mesma liberdade e imparcialidade no mundo da ação e emoção. Ela encarará seus objetivos e desejos como partes do Todo, com a ausência da insistência que resulta de considerá-los como fragmentos infinitesimais num mundo em que todo o resto não é afetado por qualquer uma das ações dos homens. A imparcialidade que, na contemplação, é o desejo extremo pela verdade, é aquela mesma qualidade espiritual que na ação é a justiça, e na emoção é o amor universal que pode ser dado a todos e não só aos que são considerados úteis ou admiráveis. Assim, a contemplação amplia não somente os objetos de nossos pensamentos, mas também os objetos de nossas ações e nossos sentimentos: ela nos torna cidadãos do universo, não somente de uma cidade entre muros em estado de guerra com tudo o mais. Nesta qualidade de cidadão do mundo consiste a verdadeira liberdade humana, que nos tira da prisão das mesquinhas esperanças e medos.

Enfim, para resumir a discussão do valor da filosofia, ela deve ser estudada, não em virtude de algumas respostas definitivas às suas questões, visto que nenhuma resposta definitiva pode, por via de regra, ser conhecida como verdadeira, mas sim em virtude daquelas próprias questões; porque tais questões alargam nossa concepção do que é possível, enriquecem nossa imaginação intelectual e diminuem nossa arrogância dogmática que impede a especulação mental; mas acima de tudo porque através da grandeza do universo que a filosofia contempla, a mente também se torna grande, e se torna capaz daquela união com o universo que constitui seu bem supremo.

Considerações sobre os curtas.

A atitude filosófica decorre do quotidiano, é procurar explicações e sentidos, interroga-se, indaga-se, duvidar de tudo o que o rodeia e querer tornar o mundo numa realidade com sentido. É disso que trata animação “Paradoxo da espera do ônibus”. E extrapolando as suas conseqüências, podemos dizer que a crítica filosófica é o questionamento radical que anima o verdadeiro filósofo, pois não admite compromissos com as ambigüidades, as idéias contraditórias, os termos imprecisos, ela tem rigor. A critica filosófica no seu espírito não admite nenhuma afirmação pretensiosa.

Sobre o assunto que trata a filosofia, isso é o que há de mais problemático.

O que é “certo”? O que é “errado”? Há algo de “absoluto” que sirva de referência às nossas ações? Ou será tudo “relativo”, dependendo de época e de lugar? Deus existe? Ou será que inventamos deuses e os fazemos portadores de nossas “verdades” e de nossos interesses? Perguntas assim sempre foram feitas, independentemente de tempo e de lugar. São perguntas que não querem calar! Perguntas que fazem de nós seres pensantes – e não, tão-somente, seres viventes.

Nas palavra de Desmond Morris que seguem na abertura do site do documentário “A linha”, sobre essas peculiaridades do filósofo, e do ser humano em geral, podemos afirmar que “Todos nós somos observadores de homens, de vez em quando tomamos nota mentalmente de uma palavra ou gesto particular. Em todo lugar, onde há pessoas, lá está o observador de homens a aprender alguma coisa – alguma coisa sobre seus semelhantes e, em essência, sobre si mesmo.”

E no premiado curta com Gilberto Gil, não podemos desconsiderar, modo, nem sempre eficiente, e até então misterioso, pelo qual as pessoas fazem isso.

E – Conclusão.

Os temas abordados aqui são amplos e dariam teses e mais discussões, sobre o impacto dos novos meios de comunicações das relações humanas e para que serve a filosofia. A abordagem aqui foi simples, adaptado para o ensino médio.

F – Bibliografia

http://www.curtaocurta.com.br

http://www.gardenal.org/trabalhosujo/2007/02/a_era_de_ouro_do_videoclipe.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Marshall_McLuhan

http://www.cfh.ufsc.br/~conte/russell.html

http://www.youtube.com.br

RUSSELL, Bertrand. Os Problemas da Filosofia. Reimpresso em 1971-2

© Tradução: Jaimir Conte. Florianópolis, setembro de 2005.