Introdução

O longa teve uma rica abordagem filosófica principalmente no campo da ética e do conhecimento, contou também com uma inspiração religiosa de cunho protestante e algo também de psicologia, visto que fica evidenciado o trabalho com a psique humana, com as perturbações ou perversões humanas e no âmbito da religião pode-se perceber um apelo ao símbolos como o pomar onde se colhia as maçã e onde também, de certa forma, está o pecado também temos uma menção ao conceito de submissão, no caso, quando Grace chega à Dogville, ela de mulher arrogante e aristocrática passa a recalcar seus atributos para não se sentir como um outro, um alheio, nesse caso Grace quer pertencer e é disse pertencimento que depende a vida dela.

O que chamou atenção foi como o diretor soube conduzir uma temática filosófica com uma essencialidade religiosa.

Pode-se lembrar com facilidade de Nietzsche e seu livro Humano Demasiado Humano quando se faz uma menção ao conceito de espírito livre e espírito cativo.1

No que tange a questões religiosas, é preciso de antemão perceber a intenção do diretor em trabalhar as questões morais, atrelado a religião e algumas cifras que são necessárias para uma compreensão mais profunda. Os elementos místicos são vários. Temos o pomar que pode ser a representação do jardim do Éden até o nome da Grace que lembra algo como a graça que chega para dar um novo sentido (ou anistia) ao que está construído, constituído.

Comentário técnico

O que impressiona é o espaço cenográfico que é montado por macacões no solo que indicam a rua e as casas. De certo modo provoca naquele que recebe as imagens uma sensação de desconforto, pois a disposição cenográfica é diferente do que se costuma notar no cinema.

Sinopse

O filme escolhido foi Dogville. O longa metragem conta a história de Grace, uma fugitiva que se refugia em uma cidade isolada, Dogville, onde recebe ajuda de Tom, um morador da cidade. Tom, que num primeiro momento, intercede em favor da Grace. Tom ajuda Grace a fugir dos gangsteres que à procuram, ajuda ela a se adaptar a cidade e a se relacionar com os habitantes da cidade, esse que em primeira instância não a receberam bem; primeiro por não ser uma das mesma, ou seja, não possuir os mesmos hábitos e segundo por ser uma fugitiva o que sugerira que Grace poderia por em risco a tranqüilidade da cidade.

O filme se passa nos Estados Unidos no período da grande depressão. Grace chega á isolada cidade de Dogville, onde é auxiliada por Tom, um morador, que intercede em seu favor junto à comunidade local: eles a ajudam a se esconder e, em troca, ela se compromete a lhes prestar pequenos serviços. O problema é que os bandidos intensificam a busca, o que faz com que os habitantes da cidade passem a correr perigo também. Eles querem receber mais em troca dos riscos ao qual estão expostos, e Grace percebe que sua tranqüilidade custa mais do que supunha. O filme chama a atenção pelo espaço cenográfico sem cenários, substituído por indicações representando as ruas do vilarejo, as casas e alguns objetos. Dogville é o primeiro filme de uma trilogia do diretor Lars Von Trier sobre os Estados Unidos. Os demais são Manderlay e Washington.

Comentário do filme

Dogville é uma imagem distorcida do mundo cristão e neste mundo percebemos uma gama de conflitos morais e o estabelecimento gradativo dos devires pessoais. A cidade é repleta de cidadãos que num primeiro momento se mostram pacatos, inofensivos e não tolerante ao diferente, ao que vem de fora, neste caso seria a Grace.

Grace (Graça, absolvição, anistia, dispensa, perdoar, absolvição, remissão, indulto) é um personagem que vem de uma classe social distinta. Ela é requintada, é a representação do Belo, do ideal (figura linda, mãos macias, a perfeição). Ela, em certos momentos, lembra a caridade, a justiça, e o ócio. Grace aparece como um presente, aquilo que vai despertar o interior das pessoas, o que vai perturbar as pessoas, o que vai causar mudança, movimento, vai acusar e revelar os simulacros.

Tom é uma espécie de profeta, um pastor ou um líder, embora sem a mínima capacidade para ser. Mas é Tom que organiza as reuniões. Tom é em potencial um pensador, pois durante o filme percebemos que ele elabora pensamentos e trata de questões morais. Tom é uma espécie de aparelhamento moral donde se percebe um tom de rendição a moralidade para se viver em Dogville. Grace2 parece que vai ser a peça que impulsiona o aniquilamento moral em Dogville.

A cidade é hostil, num segundo momento, torna-se hospitaleira e depois hostil novamente. Os habitantes avaliam se Grace é digna de co-habitar na cidade. Neste momento temos a suspeita de que a cidade é justa, integra e agrega valores morais.

Grace aos poucos conquista a cidade e todos se rendem a sua sutil beleza e destreza nos relacionamento. Ela mostra uma capacidade de interferir e provocar mudanças estruturais nas pessoas. Ela é de criação arrogante, porém se mostra humilde.

O pai de Grace coloca a polícia para persegui-la, no caso a filha é uma subversora aos olhos do pai. Uma harmonia que se estabelecia começa a ser dissolvida e os personagens pactos se revelam, mostram o seu verdadeiro ser.

Os personagens parecem assumir novas formas, novos devires. Não uma semelhança com que deles se esperaria. A questão do ideal3 é quebrada, a questão da moralidade é suprimida. A uma espécie de entrega aos desejos. Grace sofre injustiças, humilhações e explorações de forma mais apurada possível. Os personagens se mostram e se envergonham.



Os mesmos personagens parecem não agüentar o ritmo imposto por Grace e decidem expulsa-la isso que soa como uma traição, visto que foi acordado, aceito que Grace era hábil para habitar na cidade.

Os habitantes querem de volta a antiga vida onde regia o simulacro, a grotesco, a ficção.

A lei é aclamada pelos moradores. Os moradores conduzem a lei quando se utilizam do cartão entregue pelo gangster no início do filme. A lei é firme. A lei é o gangster, no caso o pai da Grace. A lei representa naquele momento a força, a arrogância e a violência. A lei estabelece a ordem. A força não é pacífica é violenta, e arrogante. Destruir o simulacro4 era a finalidade daquela cena5.

De Grace podemos concluir que ela age segundo e se expressa de acordo com estímulos naturais e com seus desejos. O filme tenta mostrar essa dificuldade do ser em agir desta forma, mostra a questão de refrear, reprimir os desejos e impulsos. Grace mostra a possibilidade de agir segundo a própria vontade. O filme tenta mostrar também o íntimo devastador que se esconde por traz de cada pessoa. O que tem de imoral em cada pessoa.

No final destruí-los é o melhor a fazer, é um crime menor que construí-los. Destruir para estabelecer a ordem.6 Grace passa de anjo caído a anjo exterminador.

Conclusão geral

A partir de uma analise geral do filme, podemos aqui detectar pontos de confluência com o conceito de nietzschiano de forte e fraco (ou espírito livre e espírito cativo). Como já mencionado Grace tem muitos aspectos que explicitam a atitude do forte. Primeiro que ela leva seu pensamento, sua maneira de agir e consegue, em um dado momento abalar com as convicções e os hábitos alheios. Ela é, na comunidade, o ser diferente e que traz mudanças, mudanças radicais e profundas. Ela consegue fazer sair do outro os desejos, os anseios. Ela sugestiona o outro a ser livre, livre de forma absoluta7. Grace é uma pessoa muito distante daqueles habitantes porque seus hábitos são livres e espontâneos, ela é sincera e audaciosa, pois sabe que pode mudar e quer mudar os outros, que são fracos de espíritos, agarrados a uma tradição homogênea. Grace busca conhecer todos os moradores, conhecer sua tradição e seus detalhes. E é nesse ponto que Grace promove as desconfigurações e instaura o caos. Na verdade, Grace quer romper com a inalterabilidade, com a pachorra que envolve Dogville.

Quando Grace conclui esse processo, ela é tolhida. Os fracos percebem que não são mais os mesmo. Eles se vêem diferentes, alterados. Seus modos são diferentes do normal, do padrão, do ideal. Eles não estão agindo conforme as normas morais e ai que residi o problema, visto que, às vezes, as ações e o pensamento que não se pauta nos preceitos anteriormente citados, causam desordem e podem causar certos malefícios aos que aderem. Os fracos no geral, não suportam viver sem uma forma de dominação, de controle, de lei, de algo que os institucionam8. Os fracos se sentem culpados por se entregarem sem restrições aos seus desejos e se sentem sujos, impuros, arrependidos. E para concluir, o final aludi ao apocalipse. Todos os ímpios são friamente executados, são tirados da terra (Dogville).

E de Grace, podemos concluir que a mesma se faz parece com Jesus Cristo, pois a mesma é livre, não cede a condições adversas e é indiferente às condições humilhantes a que é submetida. E nesse sentido ela deveria ser protegida, como acontece (no momento final quando o pai de Grace a encontra no vilarejo), dos fracos9, esses que são um perigo para a existência dela. Os hábitos de Grace são muito arrojados e perturbam a consciência do fraco que se sente incomodado e deseja suprimi-la na medida em que este (o fraco) se sente deslocado, desterritorializado, sem rumo, desatinando.

Em fim, podemos notar que o filme é muito semelhante, no que toca os conceitos de fraco e forte nietzschiano. A obra é muito cifrada, mas permite essa interpretação.

Texto filosófico

Titulo: “É preciso proteger os fortes contra os fracos”10 os mesmo trazem a mudança e o conhecimento.

É preciso proteger os fortes contra os fracos remete a idéia de espírito livre e espírito cativo respectivamente. Esses dois elementos estão bem conceituados no livro de Nietzsche Humano Demasiado Humano11.

O espírito livre é aquele que está forro de toda coisa que o aprisiona, bloqueia e inibe. No mesmo livro Nietzsche cita nos aforismos 225 a 227 esses elementos que são as instituições (a família, o direito, a educação). Nietzsche cita também o Estado12.

Nietzsche critica o Estado porque este impede o desenvolvimento do espírito livre, pois o mesmo age de forma a moldar, a formatar a tolher o individuo que faz parte dele. O bloqueio e tão severo que impede qualquer ato independente, espontâneo, criativo autônomo ou distinto que o individuo tente esboçar. A família e a educação, ao que parece, age da mesma forma, castra a criatividade, aprisiona o instinto, o desejo de ser livre, de criar, de ser diferente.

Contudo, esse ambiente é propício para o espírito cativo, aqui são os fracos13, no sentido de que para Nietzsche o espírito livre exige razões e o espírito cativo só precisa de fé, eles acreditam nas instituições, visto que essas já foram constituídas antes deles. O espírito livre busca sempre a verdade, mesmo que essa esteja distante ou lhe cause inconvenientes ou desconfortos. A este o que importa é o desejo de conhecer. O espírito cativo não faz exigências esta é de costume capturado pela cultura, pela doutrina, pelos hábitos e pelo Estados que são fortes e sólidos e possuem um poder de persuasão intenso e violento.

Em suma, é de se concluir que o forte deve ser, de forma sistemática, protegido contra os fracos. Estes se sentem incomodados com a ousadia, o afrontamento em relação aos hábitos libertários dos fortes. Os atos do espírito livre são em geral desconcertante, porque vai de acordo com o que se deseja, com o que se quer conhecer e poder. independente das normas, dos costumes ou das instituições. É claro, aquele que está acomodado e que vive bem e de acordo com os preceitos institucionais, no geral, não quererá ousar, mudar ou conhecer algo diferente, visto que para ele, o fraco, sua vida basta, sua cultura é suficiente, já o espírito livre não se contenta apenas com sua vida ele quer potencializar a cultura.

O espírito fraco não busca e nem produz um conhecimento autentico ou que provoca no sentido de desconsertar e desconstruir.

O forte deve ser protegido porque ele busca conhecer, busca razões e, acima de tudo, busca compreender porque age de tal forma custe o que custar. São esse os fieis14 na busca pelo conhecimento, os fortes correm em direção a novos horizontes, a novas perspectivas. O forte não se vende, não se dobra, não se entrega, é um guerreiro, porque luta contra a tradição, busca se libertar de tudo o que enfraquece o espírito. Para o fraco, segundo Nietzsche, não basta ter a opinião mais correta ou descobrir a pretensa verdade, o que importa é romper com aquilo que aprisiona e impede o continuo conhecer.

Enfim, o espírito cativo é uma peça que compõe e fortalece os costumes, a tradição, o mesmo, a estagnação, a sociedade, o Estado e as sua instituições. O espírito livre é o construtor, o engenheiro, o que cria, o que imagina, o que inventa e o que desconcerta é o que abre caminhos alternativos. Nesse mesmo sentido o forte é o que desbrava, é o que quebra as doutrinas, e paradigmas e é neste rumo que ele faz avançar o conhecimento e sendo assim Nietzsche vê a necessidade de dar amparo ao forte.

Texto de apoio15

39. A fabula da liberdade inteligível.16- A história dos sentimentos em virtude dos quais tornamos alguém responsável por seus atos, ou seja, a história dos chamados sentimentos morais, tem as seguintes fases principais. Primeiro chamamos as ações isoladas de boas ou más, sem qualquer consideração por seus motivos, apenas devido às conseqüências úteis ou prejudiciais que tenham. Mas logo esquecemos a origem dessas designações e achamos que a qualidade de “bom” ou “mau” é inerente às ações, sem consideração por suas conseqüências: o mesmo erro que faz a língua designar a pedra como dura, a árvore como verde – isto é, apreendido o que é efeito como causa. Em seguida, introduzimos a qualidade de ser bom ou mau nos motivos e olhamos os atos em si como moralmente ambíguos. Indo mais longe, damos o predicado bom ou mau não mais ao motivo isolado, mas a todo ser de um homem , do qual o motivo brota como a planta do terreno. De maneira sucessivamente tornamos o homem responsável por seus efeitos, depois por suas ações depois por seus motivos e finalmente por seu próprio ser. E afinal descobrimos que tampouco este ser pode ser responsável, na medida em que é inteiramente uma conseqüência necessária e se forma a partir dos elementos e influxos de coisas passadas e presentes: portanto, que não se pode tornar o homem responsável por nada, seja por seu ser, por seus motivos, por suas ações ou por seus efeitos. Com isso chegamos ao conhecimento de que a história dos sentimentos morais é a história de um erro, erro da responsabilidade, que se baseia no erro do livre-arbítrio. – Schopenhauer, por outro lado,raciocinou assim: desde que certas ações acarretam mal-estar (“consciência de culpa”), deve existir responsabilidade, pois não haveria razão para esse mal-estar se não apenas todo o agir do homem ocorresse por necessidade – como de fato ocorre, e também segundo a visão desse filósofo -, mas se o próprio homem adquirisse o seu inteiro ser pela mesma necessidade – Schopenhauer acredita poder demonstrar uma liberdade que o homem deve ter tido de algum modo, não no que toca às ações, é certo, mas no toca ao ser: liberdade, portanto, de ser desse ou daquele modo, não de agir dessa ou daquela maneira. Do esse [ser], da esfera da liberdade e da responsabilidade decorre, segundo ele, o operari [operar], a esfera da estrita causalidade, necessidade e irresponsabilidade. É certo que aparentemente o mal-estar diz respeito ao operari – na medida em que assim faz é errôneo -, mas na verdade se refere ao esse, que é p ato de uma vontade livre, a causa fundamental da existência de um indivíduo; o homem se torna o que ele quer ser, seu querer precede sua existência. – Ai o erro de raciocínio está em, partindo do fato do mal-estar, inferir a justificação, a admissibilidade racional desse mal-estar; com essa dedução falha, Schopenhauer chega à fantástica conclusão da chamada liberdade inteligível. Mas o mal-estar após o ato não precisa absolutamente ser racional: e não o é, de fato, pois se baseia no errôneo pressuposto de que o ato não tinha que se produzir necessariamente. Logo: porque o homem se considera livre, não porque é livre, ele sofre arrependimento e remorso. – Além disso, esse mal-estar é coisa que podemos deixar para trás; em muitas pessoas ele não existe em absoluto, com respeito a ação pelas quais muitas outras o sentem. É algo bastante variável, ligado à evolução dos costumes e da cultura, só existente num período relativamente breve da história do mundo, talvez. – Ninguém é responsável por suas ações, ninguém responde por seu ser; julgar significa ser injusto. Isso também vale para quando o indivíduo julga a si mesmo. Essa tese é clara como a luz do sol; no entanto, todos preferem retornar à sombra e à inverdade: por medo das conseqüências.

40. O superanimal.17 – A besta que existe em nós quer ser enganada; a moral é mentira necessária, para não sermos por ela dilacerados. Sem os erros que se acham nas suposições da moral, o homem teria permanecido animal. Mas assim ele se tomou por algo mais elevado, impondo-se leis mais severas. Por isso ele tem ódio aos estágios que ficaram mais próximos da animalidade: de onde se pode explicar o antigo desprezo pelo escravo, como sendo um não-humano, uma coisa.

225. o espírito livre, um conceito relativo. – É chamado espírito livre àquele que pensa de modo diverso do que se espera com base em sua procedência, seu meio, sua posição e função, ou com base nas opiniões que predominam em seu tempo. Ele (o espírito livre) é a exceção, os espíritos cativos são a regra; este (o espírito cativo) lhe objetam que seus princípios livres têm origem na ânsia de ser notado ou até mesmo levam à inferência de atos livres, isto é inconciliáveis com a moral cativa. Ocasionalmente se diz também que tais ou quais princípios livres derivariam da excentricidade e da excitação mental; mas assim fala apenas a maldade que não mente o testemunho da maior qualidade e agudeza intelectual do espírito livre está escrito em seu próprio rosto, de modo tão claro que os espíritos cativos compreendem muito bem. (...). no conhecimento da verdade o que importa é possui-la, e não o impulso que nos fez busca-la nem o caminho pelo qual foi achada. Se os espíritos livres estão certos, então aqueles cativos estão errados, pouco interessando se os primeiros chegaram à verdade pela imoralidade e os outros se apegaram á inverdade por moralidade. – de resto, não é próprio da essência do espírito livre ter opiniões mais corretas, mas sim ter se libertado da tradição, com felicidade ou com um fracasso. Normalmente, porém ele terá ao seu lado a verdade, ou pelo menos o espírito da busca da verdade: ele exige razões; os outros, fé.”

226. Origem da fé. – O espírito cativo não assume uma posição por esta ou aquela razão, mas por hábito; ele é cristão, por exemplo não por ter conhecido as diversas religiões e ter escolhido entre elas; ele é inglês não por haver se de3cidido pela Inglaterra, mas deparou com o cristianismo e o modo de ser inglês e os adotou sem razões, como alguém que, nascendo numa região vinícola, torna-se bebedor de vinho. Mais tarde, já cristão e inglês, talvez tenha encontrado algumas razões em prol de seu hábito; (...). Se obrigarmos um espírito cativo a apresentar suas razões contra a bigamia, por exemplo, veremos se o seu santo zelo pela monogamia é baseado em razões ou no hábito. Habituar-se a princípios intelectuais sem razões é algo que chamamos de fé.”

227. Deduzindo razões e não-razões das conseqüências. – Todos os Estados e ordens da sociedade: a classe, o matrimonio, a educação, o direito, adquirem força e duração apenas da fé que neles têm os espíritos cativos – ou seja, da ausência de razões, pelo menos da recusa de inquirir razões. Isso os espíritos cativos não gostam de admitir e sentem que é um pundendum [algo de que se tem vergonha]. O cristianismo, que era muito ingênuo nas concepções intelectuais, nada percebeu desse pundendum, exigiu fé e nada mais que fee rejeitou apaixonadamente a busca de razões; apontou para o êxito da fé: vocês logo sentirão a vantagem da fé, insinuou, graças a ela se tornarão bem-aventurados. O Estado procede da mesma forma, na realidade, e todo pai educa o filho também assim: apenas tome isso por verdade, diz ele, e sentira o bem que faz. Mas isso significa que a verdade de uma opinião seria demonstrada pela utilidade pessoal que encerra(...).”

228. O caráter bom e forte. – (...). O ambiente em que é educada (uma pessoa) tende a tornar cada pessoa cativa, ao lhe pôr diante dos olhos um número mínimo de possibilidades. O indivíduo é tratado por seus educadores como sendo algo novo, mas que deve se tornar uma repetição. Se o homem aparece inicialmente como algo desconhecido, que nunca existiu, deve ser transformado em algo conhecido, já existente. O que se chama de bom caráter, numa criança, é a evidência de seu vínculo ao já existente; pondo-se ao lado dos espíritos cativos, a criança manifesta seu senso de comunidade que desperta; é com base neste senso de comunidade que ela depois se tornará útil a seu Estado ou classe.”

Filmografia:

Dogville

Diretor: Lars Von Trier.

Produção: 2003.

Origem: França.

Elenco: Nicole Kidman, Harriet Anderson, Lauren Bacall, Jean-marc Barr, Paul Bettany, Blair Brown e James Caan

Bibliografia:

Humano demasiado humano: Um livro para espíritos livres” / Fridrich Wilhelm Nietzsche; tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. – São Paulo: Companhia das Letras, 2005

1 “225. o espírito livre, um conceito relativo. – É chamado espírito livre àquele que pensa de modo diverso do que se espera com base em sua procedência, seu meio, sua posição e função, ou com base nas opiniões que predominam em seu tempo. Ele (o espírito livre) é a exceção, os espíritos cativos são a regra; este (o espírito cativo) lhe objetam que seus princípios livres têm origem na ânsia de ser notado ou até mesmo levam à inferência de atos livres, isto é inconciliáveis com a moral cativa. Ocasionalmente se diz também que tais ou quais princípios livres derivariam da excentricidade e da excitação mental; mas assim fala apenas a maldade que não mente o testemunho da maior qualidade e agudeza intelectual do espírito livre está escrito em seu próprio rosto, de modo tão claro que os espíritos cativos compreendem muito bem. (...). no conhecimento da verdade o que importa é possui-la, e não o impulso que nos fez busca-la nem o caminho pelo qual foi achada. Se os espíritos livres estão certos, então aqueles cativos estão errados, pouco interessando se os primeiros chegaram à verdade pela imoralidade e os outros se apegaram á inverdade por moralidade. – de resto, não é próprio da essência do espírito livre ter opiniões mais corretas, mas sim ter se libertado da tradição, com felicidade ou com um fracasso. Normalmente, porém ele terá ao seu lado a verdade, ou pelo menos o espírito da busca da verdade: ele exige razões; os outros, fé.” Aforismo tirados do livro “Humano demasiado humano: Um livro para espíritos livres” de Fridrich.

2 Grace é o personagem que remete ao espírito livre nietzschiano.

3 Não se tem mais a idéia de culpa e de pureza cristã. Com o conhecimento adquirido pode-se fazer coisas novas, ousar a fazer o que se tem desejo. Os desejos afloram.

4 O falso, o que não corresponde com o real.

5 A cena que marca o desfecho, onde é decretada a execução sumária de todos os habitantes de Dogville.

6 Cabe aqui também destruir para fazer valer a diferença. Talvez a normalização do pensamento pode ser um fator que, de certa forma, causou esquizofrenias nos habitantes. Então podemos concluir que era melhor destruir para fazer valer a diferença, filosofia da diferença.

7 Lembra a liberdade natural de Hobbes, onde o homem pode exercer sua livre vontade.

8 “227. Deduzindo razões e não-razões das conseqüências. – Todos os Estados e ordens da sociedade: classe, o matrimonio, a educação, o direito, adquirem força e duração apenas da fé que neles têm os espíritos cativos – ou seja, da ausência de razões, pelo menos da recusa de inquirir razões. Isso os espíritos cativos não gostam de admitir e sentem que é um pundendum [algo de que se tem vergonha]. O cristianismo, que era muito ingênuo nas concepções intelectuais, nada percebeu desse pundendum, exigiu fé e nada mais que fee rejeitou apaixonadamente a busca de razões; apontou para o êxito da fé: vocês logo sentirão a vantagem da fé, insinuou, graças a ela se tornarão bem-aventurados. O Estado procede da mesma forma, na realidade, e todo pai educa o filho também assim: apenas tome isso por verdade, diz ele, e sentira o bem que faz. Mas isso significa que a verdade de uma opinião seria demonstrada pela utilidade pessoal que encerra(...).”Aforismo tirados do livro “Humano demasiado humano: Um livro para espíritos livres” de Fridrich

9 “É preciso proteger os fortes contra os fracos”

10 Fragmento extraído do livro “Humano demasiado humano: Um livro para espíritos livres” de Fridrich Wilhelm Nietzsche.

11 Em específico no capitulo cinco denominado “ Sinais de cultura superior e inferior”

12 Cabe lembrar que a estabilidade de certos valores vigentes são necessários contra a anarquia. Esse que Nietzsche, sem sombra de duvida, rejeita, pois ele é tem uma linha de pensamento aristocrático.

13 Nesse caso existe ai uma certa força, pois eles têm a tradição do seu lado.

14 Fieis pois acreditam que a busca pelo conhecimento é que potencializa a vida.

15 O presente texto de apóio foi a base para a elaboração de todo o trabalho, desde o texto filosófico até as análise do filme, ou seja, foi com a estrutura filosófica do texto que surgere a proposta.

16 Aforismo 39, tirado do livro “Humano demasiado humano: Um livro para espíritos livres” de Fridrich Nietzsche.

17 Idem.