O filme escolhido para ser trabalhado, foi devido aos temas que este aborda. Mephisto foi dirigido pelo húngaro Ivan Szabo. O filme trata sobre a “angústia” e os desejos de um ator de teatro em plena ascensão do nazismo na Alemanha. O ator se vê em um dilema, aceitar ou rejeitar o novo regime.

No filme encontramos diversos temas para ser abordado e de vital importância para ser tratado em nossos dias. Temas tais como: fascismo; liberdade; arte; política; ideologia, totalitarismo; alteridade e outros.

Através do filme podemos ver a relação da arte com a política. Neste trabalho abordaremos a importância da arte através do cinema e do teatro como ferramentas políticas. Sejam essas ferramentas usadas para manipular e dominar as massas ou para levar as pessoas a reflexão e a busca da liberdade “autônoma”.

Para justificar a importância da arte cinematográfica e o teatro na política, usaremos para fazer um paralelo com o filme, os textos de Walter Benjamin “A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica” e o texto de Adoux Huxley “Regresso ao admirável mundo novo”.

O filme dirigido por Szabo é baseado no romance de Klaus Mann. Mephisto foi dirigido em 1981. Klaus Maria Brandavel faz o papel de Hendrik Hofgen. Szabo é um diretor húngaro e tanto ele quanto Klaus Maria (alemão) tem em suas vidas historias relacionadas a guerras e regimes totalitários. Hendrik é um ator de teatro de uma cidade portuária da Alemanha que ambicionava com a fama por todo o país. E quando tem a oportunidade de conseguir o que desejava, não perde tempo e aceita. O convite de abandonar a sua cidade e sua vida anônima chega. E Hendrik parte rumo ao sucesso na capital Berlim onde sua vida irá mudar para sempre. Conseguindo fama, sucesso e status com o qual sempre desejou, acontece o inesperado. Sobe ao poder na Alemanha um governo ditador que irá mudar a sua vida e de toda humanidade para sempre.

O nazismo está no poder e agora Hendrik tem que escolher, se deve ou não aderir a este novo estado. Em meio esta “angustia”, de se manter no sucesso e ser um simpatizante de um estado fascista ou abandonar tudo e se exilar em outro país, Hendrik fica e aceita.

Um dos papeis mais importante encenados por é o de Mefistófeles na peça Fausto de Goethe. O filme apresenta uma relação da vida de Hendrick com a de Fausto. Um homem ambicioso e que se vende a qualquer preço para conseguir poder e fama como Hendrik. Mas durante a peça os papeis se invertem. Hendrik não é mais Fausto, ele agora é Mephisto, o exemplo de um “espírito livre”, um criador, um homem além dos homens. Mephisto jamais seria Hendrik e Hendrik só pode ser Mephisto no teatro.

No filme, Hendrik no inicio de sua carreira lutava para levar o teatro as massas operárias e trabalhadoras, não aceitava que o teatro fosse apenas uma diversão burguesa e que o teatro deveria ter uma missão política.

“—Não quero peças de conversa burguesa, queremos um teatro para todos. Estivadores, operários (...) faremos peças no porto, nas fabricas. Provar a responsabilidade política do teatro é difícil”. 1

Nos primeiros períodos até a subida dos nazistas ao poder, Hendrik atuava para a classe trabalhadora. Algumas vezes atuando em peças de Brecht. Peças onde atacava a burguesia, apresentando-a como uma classe suja e hipócrita, dominante e fascista.

Como neste trabalho a intenção é abordar a relação da arte como ferramenta política. Trataremos somente as passagens onde constatamos a atuação do teatro e do próprio filme como atividade política. A intenção é apresentar o cinema e o teatro como duas formas fundamentais de levar informação as massas. Apresentando o teatro e o cinema como arte revolucionaria ou como arte alienante e formadora como Benjamim e Erwin Panofsk colocam.

Anteriormente falávamos sobre a atuação de Hendrick no teatro revolucionário. É constante a influencia de Brecht em Hendrick. Nas suas primeiras peças ainda em Hamburgo até os seus últimos dias em uma Alemanha democrática. Peças no qual o publico participava e de temas que abordavam assuntos onde os espectadores participassem se identificando nos atores. Vemos que em seus ataques a burguesia, Hendrik segue os passos do mestre Brecht em nome da igualdade e de uma sociedade justa.

Em sua juventude Brecht atacava a burguesia e a sua posição em relação com a sociedade. Ainda jovem, Brecht já identificava o inimigo: “O dinheiro é o centro do mal”.2

Em sua peça Mahagonny, estreada em 1930 em Leipzig, no templo sagrado da burguesia, em pleno palco de teatro lírico, Brecht faz uma acusação violenta ao público. Em uma cena em que um personagem morre de tanto comer, a platéia se ofende. A peça se passa em um período onde muitos trabalhadores morrem de fome por não ter o que comer.

Para Brecht, a poesia é um instrumento de combate. O que não significa de deixar de ser poesia.

Porém no decorrer do filme as coisas mudam. Surge na Alemanha um novo estado. Um estado autoritário e conservador. Brecht passa a escrever peças criticando o novo governo. Poesias e protestos estimulando a conscientização do povo e a revolução proletária. Mas Brecht não pode com o novo regime e para não aderir ao novo sistema, vai a exílio. Brecht rejeita o nazismo o regime fascista.

E Hendrik? Aceita, não rejeita, logo, nunca será perdoado.

Hendrik não agüenta. É fraco como um inseto. O seu espírito não é o de Mephisto. O seu espírito é o de Fausto.

É em busca do sucesso e da fama que Hendrik aceita a condição do regime nazista e passa atuar no teatro formador. Um teatro que vai colaborar com o envenenamento das almas alemãs.

O teatro que Hendrik passa a atuar não é mais o teatro crítico e revolucionário. Passou a atuar no teatro propaganda a serviço do Reich. Mephisto vai encenar o ideal do novo espírito alemão idealizados pelos nazistas. A intenção do teatro propaganda é divulgar os ideais nazistas reforçando assim o sistema totalitário.

Hendrik não era mais o socialmente útil e efetivamente eficaz propagador da verdade popular e democrática, com a qual Brecht via na posição do artista.

Hendrik acreditava que poderia ser um ator em pleno regime nazista e não estar ligado ao sistema. Estava enganado. Ele se filiou ao partido nazista e passava a atuar no ministério da propaganda. Hendrik passou a ser mais uma ferramenta do fascismo.

E é através da arte, seja pelo teatro ou pelo cinema que o regime fascista na Alemanha foi conduzindo os seus interesses para dominar a nação alemã e marcar para sempre a historia da humanidade.

Seja nas telas ou no palco, quem conduz o jogo é quem cita as regras. O capitalismo e o fascismo usam o teatro e o cinema para alcançarem seus perversos objetivos. Usam e abusam da arte, a manipulam. Porque tanto um quanto o outro detém o poder.

O meio de comunicação em uma palavra não é bom nem mau; é simplesmente um poder, e, como qualquer outro poder, pode ser bem ou mal empregado. (Adoux Huxley em Regresso ao admirável mundo novo.)”.

Enquanto o capitalismo prostitui a arte transformando-a em mercadoria visando somente os altos lucros adquiridos por suas grandes produções deixando de levá-la aos homens a sua verdadeira função de agente social. Não permitindo as massas uma identificação do indivíduo com a arte como nos adverte Walter Benjamin:

... a exploração capitalista da indústria cinematográfica recusa satisfazer as suas pretensões do homem contemporâneo de ver sua imagem reproduzida. Nestas condições os produtores de filmes tem interesses em estimular a atenção das massas para representações ilusórias e espetáculos equívocos.

(A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica)”

Por um outro lado ainda mais terrível, o fascismo com seus regimes totalitários, usam a arte para manipular e controlar as pessoas. Mantendo assim o seu regime totalitário, um estado de exceção maquiado para aparentar um estado de direito. Escondendo assim a verdade, que se trata de um regime ditador. E é através da arte cinematográfica ou do teatro que os ditadores e os grandes empresários vão tentar moldar e controlar as almas e corpos dos homens.

Utilizados de certa maneira a imprensa, o radio e o cinema, são imprescindíveis para a sobrevivência da democracia. Utilizados de modo diverso, encontram-se entre as armas mais poderosas do arsenal dos ditadores. (Regresso ao admirável mundo novo)”.

O teatro e o cinema sempre estarão para servir ao povo, nunca para o próprio ator. Como no fundo acha o egoísta Hendrik. Este sempre servirá como um canal para levar as mensagens às massas. Seja para levar o pensamento critico ou para levar a alienação e o condicionamento.

Através do cinema ou através do teatro, a arte é uma ferramenta, uma arma da filosofia para levar aos homens posicionamentos críticos e criadores.

A filosofia nos ensina a ter duvidas em relação as coisas que nos parece ser evidentes por si mesmas. A propaganda no extremo oposto, nos ensina a aceitar, como por si mesmo evidente, aquilo de que seria razoável duvidar ou que obscurece nosso juízo ( Regresso ao admirável ao mundo novo)”.

A arte deve ser criadora. Deve nos levar a voar e não aceitar a estabilidade, a ordem que a propaganda capitalista e reacionária nos oferece. Pois podemos contar com o cinema clandestino que realmente estão ligados nos problemas coletivos, um cinema social oposto ao filme individualista, preso ao intimismo. Um cinema diferente do que o capitalismo deseja que, está indo contra a alienação do consumo e o comercio.

O cinema social é um cinema de luta de sangue e de revolução.” 3

Manter nos dias de hoje acesa a luz destes filmes como o de Szabo, Einsenstein, Pudovki e diretores de teatro como Brecht e Cláudio Boal, é uma forma de politizar a arte e de como disse Klaus Maria: “—Fazer filmes sobre estas temáticas e evitar que tudo isso posso se repetir no futuro.”4

Neste mundo novo, não podemos nos deixar hipnotizar pelas imagens e sons em movimentos transmitidos pelos grandes geradores. Que fazem de nos engrenagens para fazer funcionar a maquina capitalista do planeta. Esta maquina deve e pode ser parada.

Bibliografia consultada:

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reprotutibildade técnica. (im. Teoria da cultura de massa) Rio de Janeiro: editora saga 1969.

PANOFSK, Erwin. Estilo e meio no filme. (im. Teoria da cultura de massa)Rio de Janeiro: editora saga, 1969

HUXLEY, Adoux. Regresso ao admirável ao mundo novo. São Paulo: circulo do livro, 1984

PEIXOTO, Fernando. “Teatro em questão”. São Paulo: Hucitec, 1989

SILVA, Aberto. “Cinema e humanidade”. Rio de Janeiro, 1975

ADAPTAÇÃO DO TRABALHO PARA O ENSINO MÉDIO

No intuito de abordar em sala de aula temas relacionados a ética e a política, o filme Mephisto pode colaborar bastante para levar os alunos à uma reflexão critica filosófica e histórica. Conhecendo o passado e entendendo os muitos problemas que passamos em nossos dias, trataremos temas como a aceitação do outro, a manipulação das massas através da mídia e dos políticos, o valor da vida, a arte na sociedade contemporânea e o individuo como sujeito político “cidadão”.

... o meio de comunicação (...) é simplesmente um poder (...) pode ser bem ou mal empregado. (Adoux Huxley em Regresso ao admirável mundo novo)”.

Adaptando o texto de Benjamin, apresentando o valor do cinema como arte e ferramenta política e o texto de Adoux Huxley de como o cinema serve também para manipulação das massas, podemos fazer uma ótima relação dos textos como o filme Mephisto.

Mephisto é um filme dirigido pelo húngaro Szabo. O filme baseado no romance de Klaus Mann, dirigido no ano de 1981, o filme narra a vida de um ambicioso ator de teatro que enfrenta um grande dilema, aderir ou não ao regime nazista.

A maior parte do filme se passa em Berlim a capital da Alemanha onde acontece a subida e a queda do nazismo. Com a ascensão do partido nazista ao poder e o ator já partidário do regime, ele se questiona sobre sua escolha.

As mensagens, são melhor transmitidas pelas imagens do que pela leitura. E no momento em que os jovens estão cada vez mais se afastando da leitura, eis ai o cinema um recurso para levar ao aluno a busca da reflexão e do pensamento critico.

Walter Benjamim teve a sensibilidade de perceber que

É mais fácil levar a arte ao espectador através do cinema do que pela literatura (A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica)”.

Nos dias de hoje os jovens vivem em um momento da “cultura da imagem em movimento”. Logo trabalhar com filmes para facilitar algumas leituras é essencial como ferrementa sócio política para levar os alunos a posiçoes mais criticas dentro de nossa sociedade.

1 Fala de Hendrik no filme Mephisto.

2 Em “Teatro em questão” de Fernando Peixoto.

3 Fernando Peixoto, jornalista e crítico de cinema.

4 Em uma entrevista sobre o filme Mephisto.