Em Morangos Silvestres, dirigido por Ingmar Bergman, acompanhamos o Dr. Isak Borg em uma trajetória de autodescoberta e reflexão acerca das ações deste ao longo de sua vida, assim como as consequências que estas geraram com o decorrer dos anos. A história tem inicio com uma reflexão desesperançosa de Isak a respeito das relações sociais e como elas o levaram a agir do jeito que age. A reflexão vem seguida de uma revelação: Isak irá receber o título de Doutor Honoris Causa e precisa ir de Estocolmo até Lund para a premição, viagem esta que Isak resolve exercer de carro, o que resulta em uma viagem complexa e cheia de reflexões a respeito de temas como morte, vida, tempo, escolhas, passado, presente, vazio existencial e relações humanas.

Antes de tudo, vale ressaltar que o filme em momento algum tenta passar a impressão de que Isak é um homem desprezível ou ruim, mas sim de que é um homem de idade com pesperctivas e atitudes que tornam a convivência com o próximo algo desafiador. Todo o foco da história tem início durante uma parada que Isak faz no caminho para Lund, onde mostra a antiga casa de verão que frequentou até os 20 anos de idade para a sua nora que o acompanha. É lá que Isak percebe a antiga plantação de morangos silvestres que o joga diretamente para o passado em uma onda de nostalgia que irá abalar profundamente o protagonista e mudar suas concepções de mundo que eram tao claras até então.

Como já dito acima, Isak não é um homem mau, mas sim frio. Passou boa parte da sua vida focado em sua carreira profissional e conscientemente niglenciou suas relações sociais. A plantação de morangos silvestres, seu título e sua idade permitem que ele reflita acerca de toda a sua vida através de um encontro consigo mesmo, reflexão esta que não tinha sido feita até então, pois este não tinha-se permitido tempo para tal.

A partir deste encontrado é que Isak percebe o quanto é afetado pela solidão e como ela esteve presente durante boa parte da sua vida. E acima de tudo, Isak percebe que o grande medo que o assolava não era a morte em si como este pensava, mas sim a idéia de já estar morto por dentro há muito tempo e ter que aceitar isso. Além de Borg, o filme retrata questões existencialistas e universais a partir de outros personagens, como os dois jovens discutindo a respeito do eterno debate Deus x ciência, a complexa situação na qual sua nora se encontra diante de seu casamento e uma gravidez, e seu próprio filho, Evald, que possui uma visão drástica e altamente niilista e depressiva acerca da vida, assim como de si mesmo, afirmando deliberadamente que sua existência como um todo se resume somente à sua futura morte.

Morangos Silvestres é um filme que retrata acima de tudo a idéia de que sempre somos e seremos visitados pelas consequências de nossas ações passadas. Isak recebe sua punição pelos anos de frieza, porém ela não é gratuita e meramente sofrível, mas sim um meio pelo qual Borg, através da reflexão, consegue, apesar da idade, evoluir como ser humano. Ele agora compreende o quanto a solidão e a sua maneira de agir o afetam, e apesar de ter ciência de que já é tarde demais para remediar os erros do passado, viverá seus dias restantes fazendo o que estiver ao seu alcance para se tornar melhor. Em Morangos silvestres, o passado e nossas ações não vêm como inimigo, mas sim como um processo natural da vida. Cabe a nós sentarmos e saborearmos os morangos silvestres, ou não.