No filme O Anjo Exterminador, Buñuel opera um vigoroso ataque à burguesia. O expediente utilizado pelo cineasta consiste em desvelar, por meio de uma insólita situação, o egoísmo, a hipocrisia e a crueldade que se ocultam por trás de um véu de sofisticação e elegância.  

O início do filme mostra um grupo de burgueses, suntuosamente vestidos, chegando numa mansão para jantar. Eles parecem estar retornando de algum evento (de uma ópera, provavelmente). Mas algo inusitado acontece. Os empregados da mansão estão a debandar no instante em que os convidados chegam. Não há uma razão aparente para tal, mas esse evento dá o tom surrealista da obra.  Há uma sequência que se repete de forma exata (aquela em que os convidados aparecem procurando os serviçais e depois sobem a escada principal da mansão). A utilização desse recurso talvez tenha o objetivo de representar o eterno retorno do mesmo, a insensatez de algo dessa natureza.

 Ainda antes do jantar propriamente dito, a dona da casa na qual os personagens se reúnem, se mostra contrariada com o fato de que terá que cancelar uma espécie de apresentação, na qual entrariam em cena ovelhas e um urso. Apesar do contratempo com a referida apresentação, o jantar se desenrola com aparente normalidade. Neste ponto, Buñuel começa a retirar a capa de refinamento dos convidados. Eles são flagrados pelo cineasta fazendo comentários maledicentes uns contra os outros. Sorrisos hipócritas disfarçam o ódio e a violência latentes. Ao término do jantar, os comensais decidem ir – como de costume, entre as classes abastadas – para um aposento onde é permitido fumar e beber licores. Nesse cômodo se dão situações não convencionais, tais como: a) um médico comete a inconfidência de expor o estado de saúde de uma mulher que se encontra entre os convidados, b) quando uma elegante senhora abre a sua bolsa, podemos ver que nela há penas e pés de galinha ressecados. Há um convidado que toca piano, enquanto as bebidas são servidas e tudo parece estar acontecendo ordinariamente. No entanto, quando chega a hora dos convidados se retirarem para as suas casas, após se confraternizarem e se despedirem, ninguém consegue sair do cômodo em que se encontram. Uma interdição de ordem não explícita impede que os convidados transponham o limite da sala. É uma situação que causa estranhamento para o espectador, pois os personagens do filme simplesmente não conseguem sair. Mais estranho ainda é o fato de que eles naturalmente se adaptam a essa situação exótica. Desse modo, acabam por se acomodar da melhor maneira possível, para que possam pernoitar. Os móveis e o chão tornam-se locais improvisados de repouso. Essa ressignificação dos objetos é uma constante no filme.

Uma visada superficial dessa obra de Buñuel pode levar a crer que ele rompe completamente com a lógica. Isso se mostra falso, na medida em que é importante notar que n’O Anjo Exterminador, ao contrário, uma lógica dura se impõe. A partir de um axioma que opera de forma implacável (“os convidados não podem sair da sala”), várias consequências são retiradas.

A sequencia de eventos vai caracterizando progressivamente aquele universo, que antes era impoluto, cordial e quase asséptico. Um dos convidados entra em coma e morre, um casal opta pelo suicídio, os cadáveres são colocados em um armário. Não existem provisões disponíveis. O desespero causado pela fome e sede impulsiona o grupo a abrir um buraco na parede em busca de água. Como não há acesso à higiene, um odor fétido exala da mansão. Os policiais no exterior da casa têm dúvidas se ainda há alguém vivo.

Quando os convidados se deslocam de forma inquieta, esquadrinhando o cômodo de um lado para o outro, não deixam de assinalar a existência da porta. Chegam mesmo a vislumbrar um cômodo ao lado, que lhes parece tão aberto e convidativo. Mas a dureza do axioma permanece. O que resta para os convidados é operar naquele espaço com a lógica que ele autoriza.

À medida em que os convidados para uma reunião social são convertidos em hóspedes, uma espécie de comunidade acaba por se constituir. Com essa convivência forçada, as máscaras sociais vão se desmoronando. O comportamento aristocrático é substituído pelo estado de natureza. Os personagens passam a explicitar o ódio que possuem uns pelos outros, o refinamento que servia de freio social é substituído pela rudeza, pela brutalidade. A crítica do cineasta à burguesia se torna mais clara. Um comportamento que seria próprio e exclusivo dos incultos e ignaros das camadas populares mostra-se impregnado nas elites. Na verdade, parece que a cordialidade é uma forma elaborada e “civilizada” de ódio e ressentimento.

A salvação para o imbróglio em que se encontram as personagens surge do mundo externo. No lado de fora, um cerco policial é montado. Eles pretendem invadir aquele espaço dominado por uma lógica dissidente e restaurar a ordem necessária. Ao final, os convidados que restaram vivos escapam. No fim das contas a burguesia se salva, como sempre há de se salvar.