Filme surrealista, como a obra de Buñel em geral, O Anjo Exterminador consegue reproduzir uma atmosfera onírica e extremamente angustiante em seus expectadores. Entretanto, poderíamos colocar este filme em diálogo com o realismo fantástico latino-americano também, não só por se localizar à esquerda politicamente (como muitos dos autores dessa tradição, embora não todos) e pela temática (uma profunda crítica à sociedade burguesa de sua época), mas também por alcançar um estranho efeito “realista”, embora partindo de uma premissa absurda. Ou seja, o filme não é tão “estranho” que nós não podemos reconhece-lo na nossa vida cotidiana, na sociedade capitalista que é a nossa.

Como na literatura do realismo fantástico, tudo se passa em uma certa atmosfera de normalidade quando um elemento extraordinário, às vezes trivial, parece criar um universo inteiramente novo e fantástico, envolvendo os personagens em situações impossíveis, mas ainda assim críveis e estranhamente reconhecíveis. No caso de O Anjo Exterminador, este “elemento fantástico” se dá quando um grupo de comensais ricos não consegue abandonar o aposento onde se reúnem durante dias, impedidos por alguma força estranha jamais explicada. Alguns gestos e momentos do “ritual” (pois isso se evidencia desde o princípio do filme: a vida burguesa necessita de complexos, entediantes e fúteis rituais para acontecer) também são apresentados de maneira peculiar: gestos repetidos (um brinde, uma fala), utilizando esse “elemento estranho” para ressaltar o absoluto vazio que cerca essas palavras, a total inutilidade desses procedimentos; os empregados que abandonam a casa; o prato principal é derrubado e ninguém, portanto, janta. Toda uma série de pequenos “desvios” no que seria um banquete usual de nossa burguesia, que preparam o terreno para o “surreal”: a sua verdade mais evidente, mesmo que subterrânea (nada mais estranho do que a realidade, poderia dizer um surrealista).

Inspirado pela psicanálise, Buñel cria neste filme um confronto entre as “aparências civilizadas” e ritualizadas do comportamento daqueles indivíduos e a sua “verdadeira natureza” que começa a emergir apenas horas depois de uma situação de estresse e perigo. Utilizando uma alegoria que poderíamos chamar até de “didática” (sem nenhum demérito para o filme), ele apresenta de maneira simples sua crítica dos valores e comportamentos burgueses. Poderíamos talvez dizer (com certa imprecisão) que Buñuel contrapõe uma espécie de “superego” que rege a vida social burguesa e conservadora às forças “subterrâneas” (próximas à noção de id freudiana) que representariam a verdadeira natureza de uma classe social cuja riqueza é o resultado de espoliação violenta e brutal, conquanto busque se justificar como sendo o seu contrário: os frutos de um trabalho “bem feito”, de uma civilização marcada pelo “refinamento e superioridade cultural”.

Após o “evento” fundamental, a tomada de consciência de que nenhum deles conseguia abandonar o local, há rapidamente o abandono de “gentilezas” e “bons modos”, oriundos do “contrato social” e a faceta mais grosseira, intolerante e agressiva dos convidados emerge. Tudo se passa como se Buñel buscasse mostrar a fragilidade dos mecanismos psíquicos que Freud buscou explicitar em “O Mal-Estar na Civilização”, mesmo que o diretor não explore de maneira mais “gráfica” os possíveis desdobramentos de um longo confinamento entre indivíduos “civilizados”: a morte não acontece pelas mãos de nenhum dos “convidados”, muito embora eles tenham que conviver com um cadáver, e isso não parece “escandaliza-los” como deveria.

Há, ainda assim, uma mordaz (e cômica) crítica a todo um estilo de vida, marcada pela fragilidade dos seus “pactos”, pela absoluta futilidade dos seus rituais (inclusive, diga-se de passagem, seus rituais religiosos, como apontado na sequência final do filme) e pela violência de sua realidade material travestida de “elevação moral”.