André Martins de Barros. Cavalcade. Oil on canvas, 41 x 33 cm. Disponível em: http://beinart.org/artists/andre-martins-de-barros/#

 

 

 

 

Um cavalo, formado por uma multiplicidade de pequenos cavalos, pequenas partes conflitantes que são a luta a partir da qual o próprio cavalo, como imagem acabada e unificada, emerge. ― Uma unidade aparente emergindo da multiplicidade de partes que a constituem. Corpo como multiplicidade. Ideia cara à Nietzsche, para o qual o corpo é formado por uma multiplicidade de corpos; mas não é apenas isto: o próprio eu não emerge senão como uma resultante, algo secundário: a unidade a que denominamos corpo é um “edifício coletivo de múltiplas almas” (BM, § 19).

 

 

 

É muito importante para Nietzsche desmascarar o “eu”, o “sujeito”, tal como foi encarado até então pela tradição. Pois usualmente consideraram o sujeito, a consciência, o eu, como um monarca, como algo dotado de vontade que age conforme seu bem querer. Mas o que Nietzsche mostra é que, justamente, o eu é algo complexo, sua unidade é aparente. Esmiuçando frases aparentemente claras e imediatas, como “eu penso” (e com isso pensamos em Descartes e no seu cogito), Nietzsche quer mostrar que o pensar também não é algo simples, e no erro de acreditar no eu como causa destes processos, como se ao eu fosse facultado não agir, não fazer nada absolutamente. Como se ele fosse algo apartado de tudo, e apenas a partir de sua vontade entrasse na dinâmica da vida. O que é um erro, pois somos partes dela, independente de nossa vontade.

 

Nesta concepção deste corpo como multiplicidade, entra a questão da vontade de poder [Wille zur Match], como essência interpretativa que busca se expandir e dominar, e que deflagra o combate das partes. Um indivíduo contém em si vários outros indivíduos, fazendo com que nele se desencadeie o combate. O homem é um ser em conflito com ele mesmo, de modo que seu próprio organismo é disposto hierarquicamente, diante do combate de suas pequenas partes: ao encontrarem resistência, o choque e a luta tornam-se inevitáveis.

 

 

 

Existe uma ambiguidade intrínseca à figura do cavalo, que não será trabalhada devidamente aqui, mas que reforça o elemento agônico da imagem. Por exemplo, no diálogo platônico Fedro a alma humana é composta por um cocheiro e uma parelha de cavalos alados: um negro e um branco, de caracteres essencialmente distintos, o que torna difícil a direção das rédeas. No imaginário grego o cavalo é tanto uma criatura ctônica, relacionada ao mundo dos mortos, como é também o corcel parmenídico que voa até a deusa; e o corcel solar do carro de Apolo.