O presente ensaio tem por objetivo o estudo sobre dois conceitos, dentre os demais, característicos à estética barroca: a perspectiva e a dobra, tal como explicitada na obra “A dobra. Leibniz e o Barroco” do filósofo francês Gilles Deleuze. A partir destes conceitos, é apresentado como a representação da imagem cinde com a tradição puramente mimética (seja pela imitação do ideal extrínseco à natureza, seja a reprodução da própria natureza, ou por composição de ideias na fórmula sujeito-predicado), e passa a adotar a conjunção perspectiva- mônada, que segue os acontecimentos que fluem conforme as potências e os atos – a dobra.

Para a realização deste objetivo, é utilizada como objeto de análise a pintura “As meninas”, do pintor barroco Diego Velásquez. Servindo, assim, como material de observação às explicações feitas aqui. 

“As Meninas” (1656), obra do pintor espanhol Diego Velásquez (1599 – 1660), faz parte de uma das principais obras pertencentes à corrente artística chamada Barroco. As possibilidades interpretativas sobre esta obra são muitas, mas o que se delimita neste ensaio é o estudo acerca da perspectiva e da dobra. Deleuze define a caraterística monádica na arte barroca como a “cisão entre a fachada e o dentro, entre o interior e o exterior, a autonomia do interior e a independência do exterior em tais condições que cada um dos dois termos relança o outro”1. Isto quer dizer, tudo o que se passa, todas as ações, todos os conteúdos, os objetos e configurações dos objetos se dão imanentes ao interior espaço, também entendo o sujeito como um espaço de expressão. Isto é perceptível pela ausência de janelas na totalidade da estrutura do quadro, se fazendo presentes unicamente no andar inferior ou nas exterminadas da pintura, mas pouco, ou simplesmente não visíveis. Como também na continuidade do espaço, propiciado pelo jogo de luz e sombras, que se estende ao infinito; e não somente ao lugar, mas a todos os elementos que estão contidos nele.

Desta maneira, aponta para uma peculiaridade que remente à exclusão da concepção de voltar-se para fora de si com vistas a algo que se busca semelhança, pois esta é a função da janela: estar com vistas para fora de um interior, ou deixar que o exterior adentre o interior. A representação da imagem é a do objeto com todos os seus predicados. Ou seja, re-presentificar um objeto que encontra o seu estatuto de ser independente das ligações, das relações, das formas de lida... Mesmo o inatismo cartesiano, por exemplo, no qual todas as ideias são como imagens presentes no espírito, não inclui aí relações contínuas com a ideia, mas ela mesma é um ponto pelo qual se pode predicar uma série de outras ideias. Um ponto cartesiano x, no qual outros pontos y, w, z etc., podem-se predicar.

Entretanto, isto não implica que o barroco negue radicalmente o exterior, o campo aberto para a experiência do que é sensível, e nem que a cisão provoque uma rígida exclusão de ambas as fases de sua construção (o andar de baixo – o que é sensível; e o andar de cima – a razão e elevação da alma). Não implica porque há uma unidade harmônica entre ambas as fases. A primeira incita a segunda, esta que relança para a primeira em suas luzes e assim constituem uma totalidade que não é sinônimo de completude, mas de continuidade e relações que se compõe na medida em que ela (a relação) acontece. É neste ponto que podemos encontrar um fio condutor para o estudo da perspectiva na obra barroca de Velásquez.

Na pintura em análise não há janelas visíveis, somente uma fonte de luz da qual se supõe a janela. A maior incidência está sobre a pequena menina de vestido branco e cabelos louros, e nela é possível localizar a centralidade do quadro. Porém, não é a menina que está sendo pintada pelo artística à esquerda, nem as outras pessoas ao redor dela. O que pintor observa, de começo, é uma incógnita. Logo, a centralidade não mais evidencia o objeto, a representação, o ponto x no qual o artista compõe as qualidades sobre a tela; é, pois, mais um dos pontos de perspectiva dentre os personagens e elementos do espaço na obra.

Ao se avançar para o fundo, não se encontra um limite derradeiro, acabado, completo, mas uma abertura para fora das paredes que definem a cena, esta que é a porta. Parado na soleira está um homem, observando a cena, mas tampouco é objeto de pintura do artista. A visão se desloca um pouco mais para a esquerda, depara-se com um espelho e refletido nele, um casal. Através das disposições dos corpos no espaço, pela angulação, pela matemática geométrica, é possível compreender que eles é quem são o objeto da pintura, mas, não obstante, são afastados do centro da representação. Sendo no máximo uma representação de uma representação (uma meta-imagem).

Portanto, o casal também não é o objeto da representação, não é o ponto no qual se predicam as qualidades. O quê ou quem é objeto? Está uma das perguntas mais controversas na discussão estética nesta obra de Velásquez, mas a relação que a perspectiva se articula através da dobra pode nos fazer compreender melhor a apresentação da imagem na filosofia barroca: os pontos singulares (a perspectiva) compõem o espaço ordenado; ou seja, as pessoas, os móveis, a luz são pontos singulares de composição do cenário, e tudo se encontra ordenado segundo uma força de relação, uma potência que incita o acontecimento, mas não reduz o que acontece à dicotomia de sujeito observador que se ausenta da relação com o objeto observado. O sujeito, antes extrínseco ao objeto, agora compõe a formação da ordenação com o objeto.

A luz que entra pelo lado direito do quadro põe à claridade sensível,aos olhos um acontecimento (o momento da pintura de um quadro), mas não o objetifica. Ao contrário, traz o sujeito que visa a pintura para o seu interior. A obra e o espectador se relacionam. O que abre a possibilidade interpretativa do quadro é o sujeito que se vê imerso no interior do cenário. Ele, portanto, desdobra as relações e as conexões aparecentes na pintura, na medida em que o sujeito também se dobra na relação. A dobra é, pois, uma força de relação. Além disso, se a força que perpassa a relação sujeito-obra é o que impulsiona a desdobra de sentido, isto também implica que é a perspectiva daquele que observa a pintura que abre o sentido de ser (ontologia) dos conteúdos no interior da obra. E se não há um ponto fixo (a até então rígida e cartesiana relação sujeito-objeto; ideia-predicado), então o sujeito compõe o quadro, tanto quando os próprios elementos. Sendo assim, uma relação de abertura e retração de sentido, a qual acontece ao decorrer da experiência estética. Portanto, a dobra e a desdobra trazem consigo um estatuto ontológico que se compõe na relação dos acontecimentos, na dobra que se apresenta na ausência do objeto definido, no espaço do salão que se estende ao infinito pela janela e pela porta, nos personagens que estão contidos no cenário e que se relacionam de maneira fluida (o pintor que admira seus modelos, as meninas que interagem entre si, o homem que passa ao acaso pela porta etc.); e, por sua vez, na desdobra por parte daquele que observa a obra, na medida em que ele também compõe o cenário e abre os sentidos expressos na pintura.

O mundo já não é meramente o espaço de toda a experiência possível, é, radicalmente, a própria experiência enquanto ela acontece, desdobrada pelos sujeitos na perspectiva em que se assumem no espaço.

Desta forma, a estética barroca é fortemente marcada pelo desdobramento monádico de sentido e que, como definido no primeiro momento deste ensaio, é caraterizado pela autonomia da interioridade, pela perspectiva do sujeito em conformidade com as relações que estabelece com as múltiplas configurações em que o espaço, o cenário e a pintura assumem em si. A dobra é a força que engendra nas ligaduras do concreto, na luminosidade, na sombra, nas coisas; a desdobra é a força expressa pelo sujeito na abertura de sentido que só pode acontecer na relação – potência e ato.

Por conseguinte, a conjunção perspectiva-dobra (mônada-dobra) é uma relação fundamental para a percepção da estética barroca. A apreensão da obra de Velásquez se dá justamente na dobra, desdobra e perspectiva que perpassa a relação do sujeito com a obra. Poder-se-ia dizer que a relação é uma nova dobra, que se desdobrada pela inclusão de novas perspectivas que não negam a anterior, mas abrem novas configurações das incitações, dos afetos, das configurações entre os elementos do cenário e, não obstante, projeta uma nova dobra. Não quer dizer, contudo, um tedioso ciclo, mas linhas, ondulações e curvaturas das relações elas mesmas dinâmicas. Uma unidade que reveste a multiplicidade e a harmoniza, que como uma membrana, fina e flexível, segue as configurações nas dobras e desdobras abertas pela interioridade, pela força peculiarmente humana.

 

¹ DELEUZE, 1991, p.

Referência bibliográfica:

DELEUZE, G. A dobra: Leibniz e o barroco. São Paulo. Editora Papirus, 1991;