Nesta pintura, vemos representados muitos pensadores gregos, mas, como o pintor, Rafael, não deixou nenhuma indicação além da possível semelhança, não havendo nenhum documento atual que explique definitivamente a pintura, não é possível precisar todos os presentes. No entanto, nossa atenção é rapidamente voltada para as duas figuras centrais, no topo das escadas, no meio dos arcos. O homem à esquerda, carregando um de seus livros, Tímaios, pode ser identificado como Platão, enquanto o homem à direita, carregando, por sua vez, seu livro, Ética a nicômaco, esta Aristóteles.

 

Ao observarmos os dois, logo notamos que ambos gesticulam, estando Platão apontando para o alto, enquanto Aristóteles parece discordar, chamando atenção para baixo, para o terreno. Isso, na verdade, ilustra a diferença entre as teorias dos dois pensadores, do chamado idealismo platônico para o realismo aristotélico.

 

Para Platão, a verdadeira forma de tudo que é encontrado neste mundo, não se encontra a nossa volta. Essas Formas, ou Idéias, abstratas e imutáveis, não estão presentes no nosso mundo de mudanças e sensações, ou seja, não podendo ser alcançadas através dos sentidos, existindo de modo independente de tempo e espaço, sendo estas o mais alto e mais fundamental nível de realidade. Isso quer dizer que as idéias são não apenas os modelos das coisas, como as próprias coisas em seu estado perfeito. Assim, por exemplo, todos os homens vêm de uma Idéia de homem, do “homem perfeito”, do mesmo modo que todos os cavalos vem do “cavalo perfeito”, ou, também, todas as atitudes ditas justas só as são pois provem da Idéia de justiça. Ou seja, podemos entender, também, que uma Idéia é sempre uma unidade de algo que se mostra como múltiplo. Podemos apreender sensivelmente apenas essas representações, o múltiplo, sendo as idéias “visíveis” apenas inteligivelmente.

 

Não é certo para Platão, no entanto, que existam idéias para todas as coisas, como, por exemplo, para as coisas vis ou insignificantes. Assim, não teríamos uma Idéia de avareza perfeita, ou um modelo de crueldade. São concebíveis para ele apenas as Formas do que seriam considerados valores, como a bondade, a beleza, etc. Além disso, poderíamos classificar as idéias de uma maneira hierárquica. Uma idéia seria mais pura, mais “Idéia”, quanto mais represente a unidade de algo que se apresenta como múltiplo.

 

Aqui, na relação entre o uno e o múltiplo, podemos ver uma divergência clássica entre as teorias de Platão e de Aristóteles. Este último não acredita na existência do Uno separada da do Múltiplo, estando ambos, na verdade, unidos. Ou seja, a existência das idéias em um mundo inalcançável pelos sentidos, totalmente separadas das chamas “representações”, é negada. As idéias são imanentes as coisas sensíveis, sendo que de outro jeito não seria possível entender como elas poderiam atuar ou mesmo explicar a realidade sensível.

 

Isso implica em uma espécie de sabedoria prática. Enquanto que para Platão uma pessoa é justa porque conhece a idéia de justiça, para Aristóteles uma pessoa é justa porque toma atitudes justas. Este também não ignora o lado mais animalesco do homem, nos mostrando os vícios não apenas como falta de determinada virtude, mas, também, como exagero dela. Isso quer dizer que uma atitude “corajosa em demasia”, em certas ocasiões, pode se traduzir como atitude tola, temerária.

 

Assim, podemos entender melhor os gestos representados na pintura de Rafael. Platão, apontando para cima, nos mostra que o conhecimento vem do intelecto, do conhecer as idéias, e Aristóteles discorda, chamando atenção para o mundo a nossa, dizendo que o conhecimento é adquirido na prática, no hábito diário.

 

 

 

 

 

Bibliografia

 

 

 

 

 

Aristóteles. Física I e II. Tradução de Lucas Angioni. Ed. Unicamp.

 

FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2001.