Imagem escolhida: O Triunfo de Santo Tomás de Aquino (Francesco Traini, 1349). Fonte: http://torreleste.wordpress.com/2010/01/28/santo-tomas-de-aquino-de-7-de-marco-para-28-de-janeiro/

 

 

 

 

 

Como parece óbvio, a imagem acima tem por objetivo estimular a apresentação da filosofia de Santo Tomás de Aquino (1225-1274), permitindo ao professor uma abordagem profunda, mas ao mesmo tempo lúdica.

 

Confeccionado for Francesco Traini, O Triunfo de Santo Tomás de Aquino está localizado na igreja de Santa Catarina, em Pisa. Sua descrição pode ser feita da seguinte maneira: posto em primeiro plano, no centro do quadro, está Santo Tomás. Ele é apresentado da maneira tradicional: físico corpulento e hábito dominicano. Seu rosto e seu livro são os únicos que estão virados diretamente para o espectador. Do livro, por sinal, sai um intenso foco de luz. De pé, mas em proporção bem menor, ladeando o Doutor Comum, estão Platão e Aristóteles. Seus livros estão postos na direção de Santo Tomás. De ambos, aliás, saem luzes rumo ao Aquinate. Um pouco mais acima, seis escritores sacros inclinados também viram seus livros luminosos na direção do Aquinate. Ainda mais acima, no meio do quadro, superior a Santo Tomás, está Jesus Cristo. Seu olhar, virado para baixo, também se dirige ao Doutor Angélico. Na parte inferior do quadro, por sua vez, uma grande multidão se comprime. Muitos têm seus olhos fixos em Santo Tomás. Por fim, logo abaixo do protagonista, um homem de turbante se encontra prostrado e com seu livro caído no chão. É Averróis.

 

Diante de tal descrição, uma série de questões filosóficas podem ser levantadas:

 

Em primeiro lugar, o professor pode ressaltar no quadro a presença tanto de autores sacros quanto de filósofos pagãos e como ambos iluminam, através de seus textos, a figura de Santo Tomás. Essa representação artística, na verdade, representa de maneira muito fiel o projeto filosófico fundamental do tomismo, que era justamente harmonizar fé e razão, conciliar a filosofia pagã, em especial a aristotélica, com a teologia católica. Aliás, a presença e olhar de Cristo acima não deixam também de ser muitos significativos nesse sentido.

 

Um segundo ponto interessante é perceber como os escritores sacros e o próprio Cristo estão acima, enquanto os autores pagão estão abaixo. A própria forma como eles mostram seus livros na direção do Aquinate difere por causa disso: uns apontam de cima para baixo, os outros de baixo para cima. Tal posicionamento apresenta o primado que a teologia tem na construção da síntese tomista. É sempre a fé, a iluminação vinda do alto, que comanda o processo de conciliação com a racionalidade, iluminação vinda de baixo.

 

Em terceiro lugar, é útil perceber como os vários personagens secundários iluminam Santo Tomás com seus livros, mas ao mesmo tempo, o escrito tomista é o único que está virado para o espectador, e com grande foco de luz. Tal imagem representa o espírito eclético de Santo Tomás, isto é, seu poder de agregar as contribuições dos escritores mais variados em uma síntese eminentemente pessoal e coerente. O espírito sintético do tomismo manifesta-se acima de tudo no método da disputatio, que domina toda a Suma Teológica, onde as várias teses são opostas umas às outras até que se encontre uma solução mais ampla, capaz de integrar o que há de verdadeiro em cada concepção.

 

Outro ponto interessante é notar o papel de Averróis no quadro. Enquanto todos os outros escritores estão virados para Santo Tomás, o iluminando, o filósofo islâmico é o único que está prostrado no chão e seu livro está caído. Tal organização da imagem, somada ao título do quadro (O Triunfo de Santo Tomás de Aquino) nos induz a pensar o frade dominicano como uma espécie de inimigo de Averróis, e mais, um inimigo que saiu vitorioso. No entanto, tal retrato não é fiel. Santo Tomás foi sim um duro crítico do averroísmo, em especial na sua versão latina, que era profundamente herética, mas tinha, sobretudo, um grande respeito pelo filósofo muçulmano, citando-o inclusive inúmeras vezes.

 

Por fim, uma última questão seria comparar a racionalidade tipicamente medieval como a racionalidade tipicamente moderna. É um erro grosseiro dizer, como dizem alguns, que a filosofia medieval era baseada pura e simplesmente em argumentos de autoridade. Na realidade, é textual em Santo Tomás a tese de que em filosofia o argumento de autoridade é o pior de todos. No entanto, também não podemos negar a importância que o diálogo com a tradição tem na mentalidade do Medievo. Enquanto o homem moderno, a exemplo de Descartes, tende a querer começar tudo do zero, valorizando o papel da invenção e duvidando de tudo o que é tradicional; o homem da Idade Média acreditava que os escritores reputados eram o ponto de partida necessário para toda e qualquer investigação sadia, mesmo que no fim se viesse a negá-los em algum ponto. A tradição era assim constitutiva da investigação filosófica. Santo Tomás criou teorias próprias, mas ele só o fez a partir daquilo que recebeu da tradição. Aliás, tais modelos de racionalidade refletem, em larga medida, o modelo econômico, político e social de cada época. Em outras palavras, é muito mais fácil falar do valor da tradição em uma sociedade unida em torno de uma certa visão de mundo (no caso, o catolicismo), e em que a tecnologia avança a passos lentos. Por outro, é também muito mais fácil falar do valor da invenção, da originalidade numa sociedade plural e em que as tecnologias se sobrepõem numa velocidade absurda.

 

Por fim, para terminar o trabalho, gostaria de mencionar uma curiosidade. Há, num intervalo de cerca de dois séculos da imagem escolhida, outros dois ou três quadros muito parecidos com o de Traini, não só na estrutura, mas também no nome. Não sei dizer o motivo de tal recorrência. De qualquer modo, escolhi O Triunfo de Santo Tomás de Aquino (1349), por considerá-lo o mais fecundo para uma atividade pedagógica.

 

 

 

 

 

 

 

Referências:

 

 

 

http://www.uc.pt/fluc/eclassicos/publicacoes/ficheiros/humanitas50/28_Cadafaz_de_Matos.pdf

 

http://tulacampos.blogspot.com.br/2012/01/sao-tomas-de-aquino-doutor-angelico.html