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No presente trabalho, desenvolvido numa prosa livre, discorre-se, sem esgotá-lo, sobre a relação entre filosofia e literatura: é um pequeno ensaio sobre esboços do romance, através de uma leitura baseada no pensamento de Ortega y Gasset1.

 

A arte é eterna, só ela sobrevive. Rótulos como esse, expressam o esteticismo de muitos autores que por meio de categorias invariáveis a analisam de forma suspeita. Salta aos olhos a freqüência com que os teóricos derivam o romance do gênero épico. Lukács e Ortega y Gasset seguem outra vertente. O filósofo austríaco determinou o parentesco entre o romance e a burguesia: “contrariamente à opinião tradicional, define-se como uma forma, ligada, sem dúvida, à história e ao desenvolvimento da burguesia, mas que não é a expressão da consciência real ou possível dessa classe” 2, e que, portanto, deve ser examinado à luz da estruturação de valores puramente individualistas num momento histórico. O filósofo espanhol acentuou a autonomia do romance em relação às cronologias e às biografias; ele constatou que um e outro são antitéticos: “o tema da épica é o passado como passado, o do romance é o da atualidade, como atualidade” 3. Estes filósofos não se opõem apenas ao esteticismo, mas também à delimitação do romance em relação à História e à Arte. Para eles, tal vínculo foi posto, com demasiado exagero e em termos radicais: delimitar é entender que a história se desenvolve, enquanto a arte permanece parada. Ninguém discutiria é claro, a perenidade de um Homero, ou de um Shakespeare. Mesmo uma estrela marxista como Lukács não escondeu sua preferência pelo romance do século XIX. Concomitantemente, porém, já não se pode ignorar que a arte é datada. Assim, sem se preocupar com o nascimento do romance, é possível verificar que ele se desenvolveu artisticamente de maneira autônoma, mas com vínculos históricos evidentes. Também é comum o entendimento de que o teatro expressou a partir do século XIX, o romance fez com mais propriedade, em virtude de recursos técnicos a seu alcance. Outra constatação foi a assimilação do verso, do poema pela prosa. Aliás, uma obra como Ulisses, de James Joyce, a rigor é um grande poema-romance.

 

Realmente, embora não se conteste a genialidade de um Baudelaire, à primeira vista, parece que a grande arte literária do século XIX foi exercida por Melville, George Eliot e Dickens, Dostoievski e Tolstoi, Balzac e Stendhal, isto é, pelo romance. Será que as épocas escolheram seus gêneros literários? O exemplo da Grécia antiga aponta para uma resposta afirmativa: entre os gregos, ao período heróico corresponde à epopéia, ao período arcaico, a lírica, e ao ático, o drama, não obstante Píndaro e Ésquilo serem contemporâneos. Atualmente, o cenário é outro. A complexidade da cultura globalizada, extremamente rica e diversificada, impede uma conclusão apressada em torno desta questão. Nem sequer a sociologia da literatura, estudando as ligações entre autor e sociedade, obra e público, ou os autores marxistas, dirimiram as dúvidas suscitadas por esse tema. Desse modo, ninguém está autorizado a estabelecer a superioridade de um gênero sobre outro num determinado período. P. ex., Dickens poderia dizer num romance o que Baudelaire expressou num poema... A conclusão é incontestável: evidentemente é possível verificar as conotações entre História e Arte.

 

Ortega y Gasset foi um pensador extraordinário – filósofo, professor, jornalista, cientista político, ensaísta de rara amplitude de temas, exerceu e continua exercendo enorme influência no pensamento contemporâneo. De alguns pontos comuns de seus ensaios, dois se destacam: ao mesmo tempo em que na maioria dos ensaios ele não procura a verdade, trata de questões de estética, pintura, literatura e arte em geral. Mas há ainda um elemento que sempre acompanha sua reflexão: a filosofia. Uma análise, mesmo que superficial na filosofia orteguiana é clara, límpida, sem demagogia: é realista, é real. Suas palavras, embora diretas, são geralmente carregadas com supra-significados. Estilo é a sua marca. E por que ele não procura a verdade? Sua resposta é um surpreendente movimento reverso de apropriação do real:

 

Para produzir uma coisa, uma res, necessitamos forçosamente de todas as demais. Realizar, portanto, não será copiar uma coisa, mas sim copiar a totalidade das coisas, e uma vez que essa totalidade não existe senão como idéia em nossa consciência, o verdadeiro realista copia apenas uma idéia: deste ponto de vista não haveria inconveniente em chamar realismo mais exatamente de idealismo”. (ORTEGA Y GASSET, 2002:13).

 

A conclusão é obvia: o realismo absoluto converte-se no seu oposto, ou seja, em materialismo. A recíproca é verdadeira: um completo radicalismo não leva em si nenhuma verdade. Todo absoluto tende a se tornar igualitário ou ditatorial, noutras palavras, homogêneo. Eis porque quase todo radical defende o interesse contrário que professa. Aristóteles já dizia que a verdade não se encontra nem em um extremo nem no outro, mas no meio termo. A tese orteguiana de que o verdadeiro idealismo deveria chamar-se idealismo opera uma espécie de cambalhota metafísica que aponta para uma insólita leitura dos termos materialismo e idealismo.

 

Mas o que interessa para Ortega y Gasset é criar, inventar, descobrir coisas novas. Quando uma verdade, ou um aspecto da verdade precisa de tantos papéis para se defender é que sua essência já foi abalada, há alguma coisa de podre no reino de sua essencialidade. Portanto, qualquer utilização destes extremos – realismo ou idealismo –, mesmo como álibi de uma pretensa metodologia do romance, só pode redundar em extremo reducionismo, algo científico, não artístico ou literário. Assim, Ortega y Gasset despreza as estradas retilíneas do realismo e do idealismo e inventa suas teorias, teoriza os teoremas do passado e recria uma história da arte a partir do ponto de vista do artista. É o afamado perspectivismo histórico orteguiano.

 

A falta de respeito é, no final de contas, um modo de cortesia4. É como vê o filósofo espanhol o ato de penetrar sem permissão na casa de alguém. Ou seja, aquele que fala do que não entende, sente a mesma inquietação que belisca o invasor. Para Ortega y Gasset o verdadeiro artista ama tanto a sua arte que fica contente até quando se fala vulgarmente de seus mistérios e se lhe falta o respeito. Sem preconceitos não se pode formar juízos. Lógica, ética e estética são três preconceitos, graças aos quais o homem – crítico ou leitor – se mantém flutuando sobre a superfície do romance. Parafraseando o pensador espanhol: há, pois, escritores que escrevem coisas, e escritores que, servindo-se de coisas escritas, criam romances5. Mas o que é uma coisa? Se na pintura é um quadro, em literatura é um texto. Cada texto é uma relação entre várias. Escrever bem um texto não é um trabalho simples como copiá-lo; é preciso averiguar de antemão a fórmula de sua relação com os demais, ou seja, seu significado, seu valor. Este é um argumento orteguiano. Nele a prova de que as coisas são apenas valores é óbvia; basta pegar uma coisa qualquer, transmitir-lhe um sistema de valoração diferente, e se terá outras tantas coisas diferentes em lugar de apenas uma. Terra significa uma coisa para o lavrador e outra para o astrônomo. Ortega y Gasset (2002:25) conclui: “não existe, portanto essa suposta realidade imutável e única com a qual se pode comparar o conteúdo das obras artísticas; há tantas realidades quanto pontos de vista”. Eis o perspectivismo histórico orteguiano.

 

Toda a obra de Ortega y Gasset aponta para as questões estéticas e de teoria da arte sempre pontilhadas pela filosofia. Num determinado momento de sua vida, ao buscar uma fórmula que definisse o ideal da pintura, ele se confundiu com a vagueza de tal propósito. Na busca de um terreno mais sólido refugiou-se na lembrança de um antigo amigo, Vulpius6. O que seu amigo lhe enviou foi algo extremamente técnico, o que não impediu Ortega y Gasset extrair contribuições importantes e esclarecedoras.

 

Não há forma de aprisionar em um conceito a emoção do belo que foge pelas juntas, flui, liberta-se como os espíritos inferiores a quem o cultivador da magia negra tentava em vão caçar para prendê-lo no interior das redomas. Em estética sempre alguém esquece alguma coisa depois de fechar penosamente o baú, e é mister voltar a abrir e voltar a fechá-lo e, ao fim, começar de novo. Com uma peculiaridade: isso que havíamos esquecido é sempre o mais importante”. (ORTEGA Y GASSET, 2002:29).

 

De fato, diante de uma obra de arte não se satisfaz a observação estética. Com o romance não é diferente. Nele esta observação se apresenta tímida e servil, como se pertencesse a um mundo inferior onde tudo é mais trivial. Na ciência o conceito é soberano, no romance reina a emoção. No romance o papel da ciência é meramente de guia, de orientador. Há aí um conflito entre aqueles apaixonados pela arte e aqueles partidários de uma orientação estética. Os primeiros têm um sentimento de desdém pela estética. Para eles a estética parece formalista, sem sumo e fecundidade. Mas para quem tem consciência do que significa uma orientação exata nesses assuntos, a estética vale tanto como a obra de arte.

 

Apesar da impossibilidade de se resolver tal conflito, Ortega y Gasset (2002:44) se posiciona: “a arte é realização. Eu: a arte é individualização. As coisas, as res, são indivíduos”. Romance é arte, romance é realização, assim, a realidade é a realidade do livro, não da coisa copiada. O romance é um gênero poético. Enquanto na pintura a matéria soberana é a luz, a principal substância do romance é a emoção. Para Ortega y Gasset os romances estão aí para revelar as paixões dos homens, não em suas manifestações ativas e plásticas, mas em sua origem espiritual, como conteúdos nascentes do espírito. Para ele, a estética vale tanto como a obra de arte. Realmente, foi nos séculos XV e XVI que se descobriu o subjetivismo; nele surgiu o mundo fugaz das emoções, essencialmente inquieto, fluente no tempo. Este reino vital dos afetos encontrou, em certo ponto, sua expressão estética: o romance. Se a emoção é a substância do romance, seu princípio unitário é o diálogo. Ele é tão essencial quanto à luz para a pintura. O romance é a categoria do diálogo. Platão escreveu diálogos...

 

Toda arte necessita se expressar e ter os meios de tal expressão. Ou seja, toda arte tem tema e técnica. No romance, também é importante, esta distinção entre técnica e finalidade estética. Entre os especialistas em arte há um consenso de que há no mundo um número maior de obras admiráveis do que obras primas literárias. Ortega y Gasset não pensa assim e explica a partir desse suposto desequilíbrio a relação entre tema e técnica:

 

A crítica pictórica se excedeu em louvores, seduzida por uma confusão entre valor estético e acerto técnico. Em pintura a técnica é sumamente complexa e sábia: o mecanismo produtor de um quadro é, se comparado com um instrumento literário – o idioma –, muito menos espontâneo, mais distante dos meios naturais que o homem emprega nos usos da vida cotidiana”. (ORTEGA Y GASSET, 2002:50).

 

Entre o Quixote e uma conversa coloquial há menos distância de complexidade técnica que a existente entre um desenho de Rembrandt e as linhas de um simples desenhista. Na pintura a técnica se substantivou, na literatura não. Em seu pensar, Ortega y Gasset entende que se deve pintar e escrever sobre idéias gerais. Mas alerta que um quadro ou um livro não podem ser um trampolim que transporte subitamente a uma filosofia. Por melhor que seja a filosofia de um quadro ou de um livro, elas são forçosamente ruins. A filosofia tem sua própria expressão, sua própria técnica, condensada na terminologia científica, e mesmo esta é muito escassa. O melhor quadro é sempre um silogismo, o melhor livro é quase sempre um sofisma. A filosofia pode lidar com a verdade, o romance não.

 

Apesar das tentativas de se delimitar o romance em relação à história e à arte, são claras as conotações entre história e arte. O que há comum entre os que ignoram tais conotações e os que as consideram são as categorias da estética do romance. Para a maioria dos autores, que resolveram ignorar tais conotações, considerando-as secundárias, levaram em conta, sobremaneira, categorias como a estória, as pessoas, o enredo, a fantasia, a profecia, o padrão e o ritmo no romance.

 

Ortega y Gasset, ao contrário, reforçou a necessidade do romance em ter uma categoria histórica, preferiu a criação e a realização em vez de buscar verdades, deu relevo à emoção como substância do romance e equiparou o diálogo à luz. Nesse fluir e refluir do romance, ele ensina que não há forma de se aprisionar em um conceito a emoção do belo que foge pelas juntas, flui e que é vã qualquer tentativa de caçá-lo e prendê-lo.

 

1 ORTEGA Y GASSET, José: Adão no paraíso e outros ensaios de estética. São Paulo: Cortez, 2002.

 

2ORTEGA Y GASSET, José: Meditações del Quijote. Madrid: Alianza, 1982. p. 125.

 

3 LUKÁCS, Georg: Teoria do Romance. São Paulo: Editora 34, 2000.

 

4 ORTEGA Y GASSET, José: Adão no paraíso e outros ensaios de estética. São Paulo: Cortez, 2002. p. 21.

 

5 “Há, pois, pintores que pintam coisas, e pintores que, servindo-se de coisas pintadas, criam quadros”. (ORTEGA Y GASSET, 2002:24).

 

6 “O doutor Vulpius, alemão, professor de Filosofia. Muitas vezes – pensei – este homem, sutil e metafísico, me falou de arte (...) o doutor Vulpius falava somente de estética, e me anunciava sua viagem à Espanha. Segundo ele, a estética definitiva devia sair de nosso país. A ciência moderna é de origem ítalo-francesa; os alemães criaram a ética, justificaram-se pela graça moral e teológica, uma vez que lhes falta à outra; os ingleses, pela política”. (ORTEGA Y GASSET, 2002:27-8).