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            Tentaremos aqui tratar alguns aspectos de um fenômeno que parece caracterizar a pós-modernidade. Assim, trataremos o Tédio e como esse tema aparece na literatura e na filosofia.

            Podemos destacar o poeta português Fernando Pessoa, como um dos poucos que conseguiram definir com tamanha delicadeza o sentimento do tédio. Pessoa faz do tédio uma imagem, e o define desta maneira em seu Livro do Desassossego:

 

                  “Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada nos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem.”

 

O Tédio em pessoa aparece como uma falta de ser, distinto em toda sua falta de forma e óbvio. Como poderíamos saber se o tédio nos consome porque o mundo parece sem sentido quando estamos entediados, ou se ficamos entediados porque o mundo parece sem sentido.

Em Kierkegaard notamos uma definição um tanto quanto exagerada, para ele, “o tédio é a raiz de todo mal”. Quando associamos ao tédio determinadas atitudes, como o abuso do álcool, de drogas, depressão, promiscuidade, vandalismo, suicídio, o tédio representa sérias consequências não só para o indivíduo, mas também para a sociedade. Neste formato, o tédio apresenta-se como um problema psicológico e sociológico. Entretanto, como estabelecer o tédio como um problema também filosófico? Se entendermos a filosofia como a forma de: “Não sei por onde ir” como pensava Wittgenstein, ou como a forma de: “um conhecimento não completo” como define Heidegger, que impele o ser à uma busca por um significado e à reflexão filosófica, aparece caracterizada numa questão filosófica alguma espécie de desorientação, o que também percebemos na caracterização do tédio. Onde não somos capazes por vezes de nos situar no mundo e surge quando somos obrigados a fazer algo que não queremos ou quando não podemos fazer algo que queremos.

Mas quando não sabemos sequer o que queremos, ou quando perdemos a capacidade de nos orientar na condução da vida? Chamamos este estado de Tédio profundo, onde o que aparece é a falta de força de vontade. Vontade que não consegue se agarrar a coisa alguma. Fernando Pessoa define esse estado como: “sofrer sem sofrimento, querer sem vontade, pensar sem raciocínio”. Para Heidegger, esse estado é como um “nevoeiro silencioso”, onde numa estranha indiferença mistura coisas e pessoas, inclusive a si mesmo, tal experiência, para ele, pode nos conduzir à filosofia.

Fernando Pessoa ainda define o tédio como algo tão radical que não pode ser superado nem pelo suicídio. Talvez por alguma coisa completamente impossível: simplesmente não ter existido. Pessoa também ressalta que o trabalho árduo pode ser tão entediante quanto a ociosidade. Em seu Livro do Desassossego, ele expressa isso da seguinte maneira:

 

       “Dizem que o tédio é uma doença dos inertes, ou que ataca só os que nada têm que fazer. Essa moléstia da alma é, porém, mais sutil: ataca os que têm disposição para ela, e poupa menos os que trabalham ou fingem que trabalham (o que para o caso é o mesmo) que os inertes deveras.

Nada há pior que o contraste entre o esplendor natural da vida interna, com as suas Índias naturais e os seus países incógnitos, e a sordidez, ainda que em verdade não seja sórdida, de quotidianidade da vida. O tédio pesa mais quando não tem a desculpa da inércia. O tédio dos grandes esforçados é o pior de todos.

Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a doença maior de se sentir não vale a pena fazer nada. E, sendo assim, quanto mais há que fazer, mais tédio há que sentir.

Quantas vezes ergo do livro onde estou escrevendo, e que trabalho, a cabeça vazia de todo o mundo! Mais me custara estar inerte, sem fazer nada, sem ter que fazer nada, porque esse tédio, ainda que real, ao menos o gozaria. No meu tédio presente não há repouso, nem nobreza, nem bem-estar em que haja mal-estar: há um pagamento enorme de todos os gestos feitos, não um cansaço virtual dos gestos por não fazer.”

 

Não demonstramos uma atitude com relação a algo sem que haja um interesse subjacente, pois é este interesse que nos fornece a direção. Como enfatiza Heidegger, o interesse atual é dirigido apenas para o interessante, e o interessante é o que, um momento depois nos parece indiferente ou entediante.