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 INTRODUÇÃO

 

O presente trabalho tem por finalidade estabelecer convergências duma proposta de união literária e filosófica viabilizada para classes do Ensino Médio.

 Apresentado à disciplina de Laboratório de Prática de Ensino de Filosofia II, do curso de Filosofia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, abrange, especialmente, considerações sobre uma particular obra contística de Lima Barreto.

Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), jornalista, romancista e contista brasileiro, descendente de negros, era um crítico mordaz da sociedade do seu tempo, viveu no Rio de Janeiro da recém-proclamada República, onde pouca coisa escapou de seu olhar crítico e irônico.

 A República Velha é o principal tema da caricatura que surge nas suas obras de ficção. Da República se fez opositor irascível e irreversível, implacável e demolidor — utilizando os recursos da sátira, da ironia, da caricatura, da crítica contundente para desmontar todo o esquema de sustentação do regime republicano recém-implantado: as mazelas do novo governo republicano e o grau de corrupção política e econômica que empestava o regime. Crítico intransigente dos presidentes republicanos e de formas de governo autoritário, ultracentralizado e militarizado, ou seja, de todo e qualquer tipo de violência na sociedade, das ideologias intolerantes. Sua obra respira, (por que não?), uma crítica pela cidadania.

 Prendendo-se à autenticidade histórica daquele tempo, sua ficção retrata acontecimentos importantes da vida republicana. Consciente dos problemas, criticando o nacionalismo exagerado e utópico, oriundo do Romantismo.

 Oposto à maioria de seus contemporâneos, Lima Barreto conferia à sua obra ficcional o sentido militante de uma ‘missão social’. Talvez mais até do que nos romances, o tom de denúncia conferido por Lima à sua literatura emerge com muita intensidade e freqüência nos contos, tematizantes em sua essência da discriminação racial e social, o preconceito de cor, o vazio moral, intelectual e ético dos políticos, a ganância e a ambição, a miséria e a opressão social.

 

O conto na obra literária de Lima Barreto

 

Os contos de Lima Barreto, em maior ou menor grau, são exemplos de relações e interações entre modos tradicionais de narrar e as especificidades do denominado conto moderno. Fogem a parâmetros estabelecidos para o gênero; mantêm, sob a qualidade literária.

Seus escritos remetem-se a uma crônica autêntica dos subúrbios cariocas e de sua população, retratando, de um lado, a população pobre e oprimida desse subúrbio e, de outro, o mundo vazio de uma burguesia medíocre; de políticos poderosos e incompetentes e de militares opressores. Parece refletir, muitas vezes, a própria experiência do autor, principalmente a dos negros e mestiços, que sofriam na pele o preconceito racial.

Em seu romance, Os Bruzundangas, Lima Barreto apresenta um país de ficção, localizado nas zonas tropical e subtropical, a Bruzundanga, um lugar muito parecido com o Brasil, onde se encontram elites pouco cultas dominando e explorando o povo. Desta forma, o narrador que é um brasileiro que morou uns tempos nesse país, vai fazendo de forma satirizada uma crítica a todas as organizações institucionais e algumas pessoas desse país.

 Critica a legislação, a Constituição, o corrupto processo democrático, o exército e a política internacional.

 Neste país, valorizam-se muito os títulos de nobreza, que conferem poder e prestígio à elite.

 É neste romance que se encontra o conto ‘Sua Excelência’, que, logo nas primeiras páginas, relata uma situação inóspita e farta de interpretações. Conto o qual refere-se o presente trabalho e o qual reproduz-se aqui para exposição e melhor análise.

 

  Sua Excelência

 

O Ministro saiu do baile da Embaixada, embarcando logo no carro. Desde duas horas estivera a sonhar com aquele momento. Ansiava estar só, só com o seu pensamento, pesando bem as palavras que proferira, relembrando as atitudes e os pasmos olhares dos circunstantes. Por isso entrara no cupê depressa, sôfrego, sem mesmo reparar se, de fato, era o seu. Vinha cegamente, tangido por sentimentos complexos: orgulho, força, valor, vaidade.

 Todo ele era um poço de certeza. Estava certo do seu valor intrínseco; estava certo das suas qualidades extraordinárias e excepcionais. A respeitosa atitude de todos e a deferência universal que o cercava eram nada mais, nada menos que o sinal da convicção geral de ser ele o resumo do país, a encarnação dos seus anseios. Nele viviam os doridos queixumes dos humildes e os espetaculosos desejos dos ricos. As obscuras determinações das coisas, acertadamente, haviam-no erguido até ali, e mais alto levá-lo-iam, visto que ele, ele só e unicamente, seria capaz de fazer o país chegar aos destinos que os antecedentes dele impunham...

 E ele sorriu, quando essa frase lhe passou pelos olhos, totalmente escrita em caracteres de imprensa, em um livro ou em um jornal qualquer. Lembrou-se do seu discurso de ainda agora.

"Na vida das sociedades, como na dos indivíduos..."

 Que maravilha Tinha algo de filosófico, de transcendente. E o sucesso daquele trecho? Recordou-se dele por inteiro:

 "Aristóteles, Bacon, Descartes, Spinoza e Spencer, como Sólon, Justiniano, Portalis e Ihering, todos os filósofos, todos os juristas afirmam que as leis devem se basear nos costumes..."

 0 olhar, muito brilhante, cheio de admiração - o olhar do líder da oposição - foi o mais seguro penhor do efeito da frase...

 E quando terminou! Oh!

 "Senhor, o nosso tempo é de grandes reformas; estejamos com ele: reformemos!"

 A cerimônia mal conteve, nos circunstantes, o entusiasmo com que esse final foi recebido.

 O auditório delirou. As palmas estrugiram; e, dentro do grande salão iluminado, pareceu-lhe que recebia as palmas da Terra toda.

 O carro continuava a voar. As luzes da rua extensa apareciam como um só traço de fogo; depois sumiram-se.

 O veículo agora corria vertiginosamente dentro de uma névoa fosforescente. Era em vão que seus augustos olhos se abriam desmedidamente; não havia contornos, formas, onde eles pousassem.

 Consultou o relógio. Estava parado? Não; mas marcava a mesma hora e o mesmo minuto da saída da festa.

 - Cocheiro, onde vamos?

 Quis arriar as vidraças. Não pôde; queimavam.

 Redobrou os esforços, conseguindo arriar as da frente. Gritou ao cocheiro:

 - Onde vamos? Miserável, onde me levas?

 Apesar de ter o carro algumas vidraças arriadas, no seu interior fazia um calor de forja. Quando lhe veio esta imagem, apalpou bem, no peito, as grã-cruzes magníficas. Graças a Deus, ainda não se haviam derretido. O leão da Birmânia, o dragão da China, o língão da Índia estavam ali, entre todas as outras intactas.

 - Cocheiro, onde me levas?

 Não era o mesmo cocheiro, não era o seu. Aquele homem de nariz adunco, queixo longo com uma barbicha, não era o seu fiel Manuel.

 - Canalha, pára, pára, senão caro me pagarás!

 O carro voava e o ministro continuava a vociferar:

 - Miserável! Traidor! Pára! Pára!

 Em uma dessas vezes voltou-se o cocheiro; mas a escuridão que se ia, aos poucos, fazendo quase perfeita, só lhe permitiu ver os olhos do guia da carruagem, a brilhar de um brilho brejeiro, metálico e cortante. Pareceu-lhe que estava a rir-se.

 O calor aumentava. Pelos cantos o carro chispava. Não podendo suportar o calor, despiu-se. Tirou a agaloada casaca, depois o espadim, o colete, as calças.

 Sufocado, estonteado, parecia-lhe que continuava com vida, mas que suas pernas e seus braços, seu tronco e sua cabeça dançavam, separados.

 Desmaiou; e, ao recuperar os sentidos, viu-se vestido com uma reles libré e uma grotesca cartola, cochilando à porta do palácio em que estivera ainda há pouco e de onde saíra triunfalmente, não havia minutos.

 Nas proximidades um cupê estacionava.

 Quis verificar bem as coisas circundantes; mas não houve tempo.

 Pelas escadas de mármore, gravemente, solenemente, um homem (pareceu-lhe isso) descia os degraus, envolvido no fardão que despira, tendo no peito as mesmas magníficas grã-cruzes.

 Logo que o personagem pisou na soleira, de um só ímpeto aproximou-se e, abjetamente, como se até ali não tivesse feito outra coisa, indagou:

 - V. Exa. quer o carro?

 

 

Considerações: a crítica social e a questão da identidade

 

Lima Barreto é um dos mais interessantes e instigantes analistas da realidade brasileira, com seu estilo simples, direto e objetivo, que feria o convencionalismo literário da época. Sua obra desenvolve-se a partir e em torno de um tema nuclear: o poder e seus efeitos. O poder é visto e descrito como um conjunto de elementos encadeados no interior da sociedade.

 No breve conto ‘Sua Excelência’, Lima Barreto descreve cenas repletas duma crítica social e com diversas possibilidades sobre a interpretação e o questionamento a respeito da identidade.

 No espaço do Baile da Embaixada e contendo prioritariamente as nuanças de dois personagens: ministro e cocheiro, o conto é narrado em terceira pessoa onisciente, diferenciado, sobretudo, por seu caráter psicológico e a variedade de interpretações que suscita.

 Em sua temática a crítica social manifesta-se explicitamente nas figuras do ministro (repleto de poder, patentes e grã-cruzes) e do cocheiro (em sua simplicidade, quase insignificância). É notável a denúncia da vaidade, do narcisismo, da autolatria manifestada pelo Ministro no início do conto, em que fica a repetir, para a própria consciência, trechos do discurso que acabara de proferir a uma platéia de aristocratas. Certo devaneio, delírio ou transe são aplicados para que a suposta ‘troca’ de personagens ou de ‘posições’ ao final do conto seja mais suscetível à percepção da inferioridade, baixeza e submissão que jaz na realidade.

 As imagens nítidas, resplandecentes e detalhadas do relato proferido pelo ministro a respeito do baile contrastam-se com a obscuridade, o calor e a velocidade do cupê.

 A questão da identidade é apresentada sob o viés da ‘confusão’. O ‘caos’ no cupê do renomado ministro dilacera sua prepotência e o equipara ao comum, o simples, o baixo. As questões sobre a fraqueza e a ambigüidade da identidade humana são elevadas para a demonstração do caráter de relatividade.

 

Reflexões sobre a imaginação e a ambiguidade

 

No conto de Os Bruzundangas pode-se, em certo ponto, ser o leitor remetido a uma aparente incompreensibilidade, pois a suposição duma possível realidade detalhada e presa aos domínios dum autor (ministro) choca-se com uma surpresa contida no terminar do conto. Ora aqui podemos relacionar caracteres da imaginação.

 Observa-se que a imaginação refere-se a algo de forma positiva ou negativamente, e também a referir-se a algo inexistente, ou que venha a existir.

 No conto barretiano em questão a imaginação é ponto de partida tanto do autor, numa manifestação criadora, quanto do leitor/apreciador, numa manifestação mais passiva. Explica-se que comumente a imaginação apresenta-se como algo impreciso, situada entre uma criação inteligente e inovadora, capaz de produzir ou fazer aparecer algo que ainda não existisse; e uma criação exagerada, ou incapaz de reproduzir algo que pudesse possivelmente existir ou acontecer.

 Neste conto, Lima Barreto, caracteriza-se por uma criação literária, mas que, transpondo-se para uma análise filosófica, diria-se, a respeito da imaginação como fator de criação ou produção, como fabulosa, no sentido de que compreende uma discussão sobre realidade. Poderia-se ainda salientar a, já mencionada, imaginação criadora, como pressuposto da arte e das ciências que possibilita o emergir do novo.

 A questão da ambigüidade da realidade: o que existe verdadeiramente e o que pode ser percebido por nossos sentidos e por nossa inteligibilidade. Em que medida se encontra aquilo que é verdadeiro na realidade e a consciência na interferência desta visão.

 No conto barretiano a resplandecente apresentação do poder, o devaneio, o delírio, a fulgurante velocidade de imagens com o calor intenso do caminho e o enfoque paupérrimo do cochilo à porta do palácio inferem para a ambigüidade sobre a questão da realidade. Ambigüidade também que se refere ao tempo, pois este é apresentado quando passado e presente se entrelaçam e se confundem.

 

ADAPTAÇÃO DIDÁTICA

 

Considerando o expresso na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, sob a seção que privilegia o Ensino Médio, onde o mesmo tem por finalidade o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico, assim como que a demonstração de domínio dos conhecimentos de Filosofia são necessários ao exercício da cidadania; e também, considerando a proposta de adaptação didática para classes do Ensino Médio, de acordo com o curso em Filosofia, desenvolve-se aqui reflexões sobre os principais pontos convergentes entre uma obra literária e questões filosóficas, que possam ser utilizados como discussão numa sala de aula.

 

Exposições breves sobre o conto barretiano

 

Nos contos de Lima Barreto estão contidos os traços recorrentes de sua obra ficcional: obsessão pela origem, marcas da religiosidade, evocação do mistério e da surpresa, emocionadas descrições dos subúrbios cariocas, das periferias urbanas, a divisão de classes, a exclusão social, os pobres, os rejeitados e excluídos.

 Observa-se um autor para além de seu tempo, traduzindo em sua linguagem literária a realidade circundante dum Brasil repleto de incongruências. Utiliza artifícios literários menos rebuscados que contém a simplicidade dum país e o tocante da verdade.

 Foi jornalista. Mulato que estudou em uma das escolas mais elitistas do Rio de Janeiro e passava as tardes em leituras na Biblioteca Nacional, e que só veio a ser reconhecido como escritor postumamente, após uma vida atormentada pelo alcoolismo e por crises depressivas.

 

Questões filosóficas

 

A tratar-se mais especificamente do conto barretiano ‘Sua Excelência’ contido no romance Os Bruzundangas (permeado de reflexões sobre a instituição governamental brasileira), propõe análises sobre as principais temáticas a serem possivelmente abordadas como referencial pedagógico para o Ensino Médio:

 

  • Questão sobre literatura e filosofia: a tênue apropriação da literatura de pontos fundamentalmente condizentes com a realidade e a reflexão filosófica sobre o texto literária. A riqueza estilística que transpassa o texto literário e a reflexão filosófica.

  • Questão sobre a crítica: análise e aprofundamento da reflexão que se estabelece entre o texto com a realidade pós-monárquica brasileira. O texto literário como reflexo e pressuposto das condições sociais nas quais se insere, sendo ferramenta de aceitação ou rejeição social, conformidade ou crítica social. O questionamento filosófico sendo subsídio para uma determinação crítica.

  • Questão sobre a identidade: repensar a superioridade da condição humana. A definição do homem filosófico como impasse na reflexão sobre a identidade. Em que medida os homens se diferenciam em maior e menor grau numa escala de intelectualidade, habilidades e condições sociais.

  • Questão sobre a imaginação: o viés da representação literária como a escrita da representação de imagens do mundo real. Sob que pontos a imaginação se encontra na elaboração dum texto literário. A ênfase da imaginação criadora, da reprodutora e da fabulosa. O posicionamento do autor e do leitor sobre a imaginação.

  • Questão sobre a consciência: referência sobre consciência, imaginação, realidade e ficção. Em que medida o estar em si e o estar fora de si competem para a compreensão da realidade. A realidade e a apreensibilidade pela consciência.

  • Questão sobre a ambigüidade: o caráter ambíguo que revela a realidade no texto literário.

  • Questão sobre o tempo: o entrelaçar de presente-passado-presente, quando o tempo é medida de pensar em si e de pensar a realidade.

 

Considerações finais

 

O exposto anteriormente concorre para uma discussão entre docente e discentes num projeto de interdisciplinaridade.

 As considerações realizadas referem-se a um programa de discussão filosófica, ao contrário dum programa de análise da história filosófica.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BARRETO, Lima. Sua Excelência. In: PAES, José Paulo (Coor.). Histórias Fantásticas.Ática. São Paulo. 2003.

BARRETO, Lima. Os Bruzundangas. Disponível na íntegra em <www.bibliovirtual.com.br/lima_barreto> Acesso em 18 jan 2009.

BRASIL, Lei n. 9394 de 20 jan. 1996. In: PILETTI, Nelson. Estrutura e Funcionamento do Ensino. Ática. São Paulo. 2004.

CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. Ática. São Paulo. 2003.