FICHA TÉCNICA E SINOPSE:

 

Pierre Menard, autor del Quijote” é o terceiro conto do livro “Ficciones” que foi publicado por Jorge Luis Borges, em Buenos Aires, em 1944. Com esta obra Borges ganhou o “Grande Prêmio de Honra da Sociedade Argentina de Escritores” e nela estão alguns dos contos mais importantes de sua carreira literária, tais como, “La Biblioteca de Babel” e “El Jardín de Los Senderos que se Bifurcan”.

 

Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires em 24 de agosto de 1899 e morreu em Genebra, em 1986. Viveu, desde pequeno, rodeado de livros. Mais tarde, em 1923, viajou para a Europa, onde entrou em contato com as vanguardas da época, a qual estética aderiu de imediato, especialmente ao chamado “ultraísmo”. Poeta, narrador e autor de ensaios originalíssimos, é mundialmente considerado, do mais vasto ao mais restrito cânone literário, um autor à estatura de Kafka, Proust ou Joyce. 

 

O enredo é narrado em primeira pessoa, onde Pierre Menard e sua obra, ou uma pequena parte dela, são o assunto principal da trama. O narrador inicia o conto justificando sua criação como uma retificação, ou resposta, a certo catálogo lançado sobre a obra de Pierre Menard, e o qual, na opinião do narrador, conteria “omissões e acréscimos imperdoáveis”. Depois de um breve comentário sobre duas senhoras, amigas comuns e conhecedoras da obra de Menard, Baronesa Bacourt e Condessa de Bagnoregio, as quais corroboram e dão aval à iniciativa de retificação, segue-se uma descrição, enumerada alfabeticamente, do que o narrador chama de “a obra visível” de Pierre Menard. É uma lista de dezenove obras que contém um soneto independente e um ciclo de sonetos dedicados a Baronesa de Bacourt; cinco monografias; três artigos; duas traduções; uma réplica; um prefácio; uma obra, sobre o problema de “Aquiles e a tartaruga”; uma análise; uma transposição para versos alexandrinos, de um poema de Valéry; e, por fim, um elogio à Condessa de Bagnoregio. Aparte desta obra visível, em seguida, o narrador nos apresenta a obra “subterrânea” de Menard, a qual qualifica como “talvez a mais significativa de nosso tempo”, que são os capítulos nono, trigésimo oitavo e um fragmento do capítulo vigésimo segundo do Dom Quixote, ou seja, Menard “escreveu”, com todo o direito que o uso desta palavra lhe dá, partes do Dom Quixote.

 

Então, segue-se dentro da narrativa uma série de estratégias que Menard adota para alcançar seu objetivo, todas elas acrescidas de comentários do narrador que vão pondo em cena a metafísica presente e possível, segundo o próprio narrador, em uma empreitada deste tipo. A certa altura Menard comenta em uma carta enviada ao narrador que lhe bastaria ser imortal para realizar seu propósito. E, na mesma carta, justifica a escolha do “Dom Quixote” para objeto de sua experiência, dizendo que, para um simbolista de Nímes, o Quixote não é uma obra essencial, ao contrário, é um livro contingente e desnecessário. E, ainda, acrescenta que compor o Quixote a princípios do séc. XVII era uma tarefa razoável, necessária, sem nada de excepcional, mas que compô-lo no início do séc. XX seria quase impossível.

 

Depois de mais alguns comentários, a narrativa chega ao seu ponto alto que é a comparação entre os dois textos. O narrador escolhe um trecho, os transcrevendo, um após o outro, idênticos, e faz uma análise das diferenças que envolvem os dois textos, não somente quanto aos elementos externos, mas quanto ao próprio significado, ou significados, que a cada um deles podem ser atribuídos.

 



 

RELAÇÃO DA OBRA COM A FILOSOFIA:

 

 

 

Borges é um escritor que tem forte ligação com filosofia. Boa parte de seus contos (se não todos!) tem um pano de fundo filosófico, um problema filosófico. Neste do Pierre Menard, autor do Quixote temos a questão da identidade e essência dos objetos. No caso específico do conto temos a identidade na literatura, mas o próprio conto permite-nos expandir e pensar tal relação para qualquer coisa que podemos dizer que há relações de identidade. É esse o ponto chave do conto do Borges: o texto que supostamente Menard escreveu é idêntico na forma com o texto de Cervantes, o Dom Quixote. Mas, por mais que ambos sejam idênticos, eles não são o mesmo. Seu sentido é distinto.

 

Aqui teríamos então um amplo leque de possibilidades. Poderia ser discutido acerca de como pode se definir a essência de algo, comparando com uma filosofia clássica onde essa determinação era dada basicamente pela visão – ou seja, como definir a essência de algo não sendo pela sua aparência. Poderia também ser discutido sobre a relação mesma de identidade, ou seja, se algo é considerado idêntico apenas pela sua forma.

 

Mas neste trabalho abordarei duas possibilidades: uma no campo da Filosofia da Linguagem, abordando principalmente o filósofo Frege, e outra no campo da Filosofia da Arte, abordando um livro do filósofo Arthur C. Danto, o “Transfiguração do Lugar-Comum”.

 

 

 

PIERRE MENARD E A FILOSOFIA:

 

 

 

A partir do conto teríamos uma linha (no caso aqui, bastante óbvia) de pensamento que cobre uma parte da lógica aristotélica e outra o início da Filosofia da Linguagem. Uma boa opção seria adotar aqui o problema da tautologia que surge com Frege.

 

Frege, ao pensar nas proposições de identidade, deparou-se com um problema que, de inicio parecia pequeno mas depois se mostrou mais complexo, gerando assim todo um estudo da linguagem. O problema ocorreria com proposições do tipo “A estrela da manhã é a estrela da tarde”, onde tanto “a estrela da manhã” quanto “a estrela da tarde” representam a mesma coisa, que é o planeta Vênus. Temos aqui então uma proposição de identidade: a = b, ou seja, a estrela da manhã = estrela da tarde. Mas a estrela da manhã é a estrela da tarde no sentido de que ambas são a mesma coisa, ambas são Vênus. Assim, podemos dizer que a proposição tem a forma de a = a, ou seja, uma tautologia.

 

Mas é difícil de aceitar tal proposição como tautológica. Ela parece acrescentar algo, ou seja, ela parece gerar algum tipo de conhecimento. Então ela não é uma proposição do tipo a = a . Considerando as teses filosóficas anteriores a Frege, este viu nelas o aparecimento de duas formas de resposta: ocorre na proposição uma relação entre nomes ou ocorre na proposição uma relação entre objetos. Mas aceitar uma resposta que afirme que a proposição “A estrela da manhã é a estrela da tarde” é o mesmo que aceitar que essa proposição apenas fala de algo sobre a linguagem, ou seja, que a “estrela da manhã” é sinônimo de “a estrela da tarde”, e vice-versa. Mas não é isso que ocorre. Assim, ela não pode ser apenas uma relação entre nomes, pois o conhecimento que se adquire aqui não diz respeito apenas ao nome da “estrela da manhã”.

 

Mas também nem pode ser uma relação exclusivamente entre objetos, porque o objeto é o mesmo, e sendo o mesmo não acrescenta epistemologicamente nada. Ela cairia novamente em uma tautologia. E, novamente, não é isso que ocorre. A proposição faz com que um novo tipo de conhecimento seja gerado, o de que a estrela da manhã também é a estrela da tarde. Assim, se fosse uma relação apenas entre nomes tal proposição teria uma função elucidativa. E se fosse uma relação entre objetos ela não acrescentaria nenhum conhecimento, nem mesmo acerca da língua (como ocorre com o primeiro).

 

Assim, o sentido da proposição deve ser dado por algo além de uma simples relação. Frege resolve tal problema respondendo que não é apenas uma relação entre nomes ou objetos, mas entre os dois. Teríamos então a seguinte forma: temos o nome próprio (que no exemplo seriam “a estrela da manhã” e “a estrela da tarde”) e esse nome próprio teria uma intensão (que é o sentido “mental” do nome, ou seja, a representação puramente mental dos termos – seja imagética ou não) e essa intensão me determinaria a extensão do termo, ou seja, o objeto no qual esse nome se aplica. No exemplo, tanto a “estrela da manhã” quanto “a estrela da tarde” possuem a mesma extensão, que é Vênus. Mas uma possui a intensão distinta da outra. A primeira possui a intensão de que é a estrela que só pode ser vista de manhã, durante a alvorada; e a segunda possui a intensão de que é observável após o sol se por.

 

Mas outra possibilidade de trabalho, que acho mais interessante, é o problema da identidade das obras de arte modernas e contemporâneas, dando foco ao filósofo Arthur Danto.

 

Danto começa a se questionar sobre a essência da arte ao se deparar com uma das obras de arte de um artista plástico americano, Andy Warhol. A tal obra é a intitulada “Brillo Box”, e a obra é exatamente isso: são as caixas de Brillo Box, um sabão em pó que era vendido nos EUA. Por mais que a obra de Andy Warhol não fosse realmente uma Brillo Box (eram na verdade caixas de madeira pintadas pelo próprio Warhol), tanto a obra de Warhol quanto a própria caixa de sabão eram idênticas. Mas uma era considerada obra de arte e a outra não, e Danto passa a se questionar sobre isso.

 

O conto do Borges ilustra bem tal caso: temos dois livros, que na sua forma são indiscerníveis, mas possuem, mesmo assim, um sentido completamente diferente. O sentido que a caixa de sabão tem é extremamente diferente da obra de Warhol, mas as duas são indiscerníveis. E será justamente essa diferença quanto ao significado que uma poderá ser considerada obra de arte enquanto a outra não. Assim como Borges considera o texto de Menard “mais rico”. E, além disso, posso considerar tanto a obra de Menard como a obra de Warhol como uma obra de arte.

 

Numa teoria clássica, a obra de arte era definida puramente pela forma. Compreensível se formos pensar na forma de arte que era feita na época. Mas, a partir do pré-modernismo, a forma de expressão da arte foi se modificando e, mesmo as artes plásticas estando ainda ligadas à imagem (pois é algo intrínseco a elas), ela foi adquirindo formas que antes não eram consideradas como arte. Warhol talvez seja o artista plástico mais forte em relação a isso. Além da Brillo Box ele fez inúmeras outras reproduções, como a lata de sopa Campbell. Essas teorias clássicas então não dão mais conta das novas formas de arte que surgem, precisam então serem substituídas.

 

E será a partir do problema de identidade dos indiscerníveis que Danto elaborará a sua. Para Danto uma obra de arte será considerada como tal quando um artista a fez com o intuito de ser uma obra de arte e o mundo da arte reconhecê-la. O artista tem que fazê-la deliberadamente como arte pois será assim que poderá ser impresso um sentido para a arte. Toda arte fala sobre alguma coisa. A segunda diz respeito a publicidade da obra de arte. Toda arte foi feita para ser vista. Se não for vista não será considerada como arte. Por isso Danto pode considerar que a Brillo Box de Warhol seja uma obra de arte e a caixa brillo não.

 



 

Pierre Menard,
autor do
Quixote

 

A Silvina Ocampo

 

 

 

A obra visível que deixou este romancista é de fácil e breve enumeração. São, portanto, imperdoáveis as omissões e acréscimos perpetrados por Madame Henri Bachelier num catálogo falacioso que certo diário cuja tendência protestante não é segredo teve a desconsideração de infligir aos seus deploráveis leitores — embora estes sejam poucos e calvinistas, quando não mações e circuncisados. Os amigos autênticos de Menard viram com alarme esse catálogo e também com certa tristeza. Dir-se-ia que ainda ontem nos reunimos diante do mármore final e no meio dos ciprestes infaustos e já o Erro tenta deslustrar a sua Memória... Decididamente, é inevitável uma breve rectificação.

Consta-me que é facílimo recusar a minha pobre autoridade. Espero, no entanto, que não me proíbam de mencionar dois elevados testemunhos. A baronesa de Bacourt (em cujos vendredis inesquecíveis tive a honra de conhecer o chorado poeta) julgou por bem aprovar as linhas que se seguem. A condessa de Bagnoregio, um dos espíritos mais finos do principado do Mónaco (e agora de Pittsburgh, Pensilvânia, após o seu recente casamento com o filantropo internacional Simon Kautzsch, tão caluniado, ai!, pelas vítimas das suas desinteressadas manobras) sacrificou «à veracidade e à morte» (tais são as suas palavras) a senhoril reserva que a distingue e numa carta aberta publicada na revista Luxe concede-me igualmente o seu beneplácito. Estas nobres acções, creio eu, não são insuficientes.

Disse que a obra visível de Menard é facilmente enumerável. Examinado com o maior cuidado o seu arquivo particular, verifiquei que consta das peças seguintes:

a) Um soneto simbolista que apareceu duas vezes (com variantes) na revista La conque (números de Março e Outubro de 1899).

b) Uma monografia sobre a possibilidade de construir um vocabulário poético de conceitos que não sejam sinónimos ou perífrases de que se forma a linguagem comum, «mas objectos ideais criados por uma ,convenção e essencialmente destinados às necessidades poéticas» (Nîmes, 1901).

c) Uma monografia sobre «certas conexões ou afinidades» do pensamento de Descartes, de Leibniz e de John Wilkins (Nîmes, 1903).

d) Uma monografia sobre a Characteristica universalis de Leibniz (Mines, 1904).

e) Um artigo técnico sobre a possibilidade de enriquecer o xadrez eliminando um dos peões de torre. Menard propõe, recomenda, discute e acaba por rejeitar esta inovação.

f) Uma monografia sobre a Ars magna generalis de Ramon Lull (Nîmes, 1906).

g) Uma tradução com prólogo e notas do Livro da Invenção Liberal e Arte do Jogo de Xadrez de Ruy López de Segura (Paris, 1907).

h) Os rascunhos de uma monografia sobre a lógica simbólica de George Boole.

i) Uma análise das leis métricas essenciais da prosa francesa, ilustrada com exemplos de Saint-Simon (Revue des langues romanes, Montpellier, Outubro de 1909).

j) Uma réplica a Luc Durtain (que negara a existência de tais leis) ilustrada com exemplos de Luc Durtain (Revue des langues romanes, Montpellier, Dezembro de 1909).

k) Uma tradução manuscrita da Aguja de navegar cultos de Quevedo, intitulada La boussole des précieux.

l) Um prefácio ao catálogo da exposição de litografias de Carolus Hourcade (Nîmes, 1914).

m) A obra Les problèmes d'un problème (Paris, 1917) que discute por ordem cronológica as soluções do ilustre problema de Aquiles e da tartaruga. Surgiram até agora duas edições deste livro; a segunda traz como epígrafe o conselho de Leibniz «Ne craignez point, monsieur, la tortue», e remodela os capítulos dedicados a Russell e a Descartes.

n) Uma obstinada análise dos «costumes sintácticos» de Toulet (N. R. F., Março de 1921). Menard — recordo — declarou que censurar e louvar são operações sentimentais que nada têm a ver com a crítica.

o) Uma transposição em alexandrinos do Cimetière marin de Paul Valéry (N. R. F., Janeiro de 1928).

p) Uma invectiva contra Paul Valéry, nas Folhas para a Supressão da Realidade de Jacques Reboul. (Esta invectiva, diga-se entre parênteses, é o reverso exacto da sua verdadeira opinião sobre Valéry. Este assim o entendeu e a amizade antiga entre os dois não correu perigo).

q) Uma «definição» da condessa de Bagnoregio, no «vitorioso volume» — a locução é de outro colaborador, Gabriele d'Annunzio — que anualmente publica esta dama para rectificar os inevitáveis falseamentos do jornalismo e apresentar «ao mundo e à Itália» uma autêntica imagem da sua pessoa, tão exposta (pela própria razão da sua beleza e da sua actuação) a interpretações erróneas ou apressadas.

r) Um ciclo de admiráveis sonetos para a baronesa de Bacourt (1934).

s) Uma lista manuscrita de versos que devem a sua eficácia à pontuação[1].

Até aqui (sem outra omissão além de uns vagos sonetos de circunstância para o hospitaleiro, ou ávido, álbum de Madame Henri Bachelier) a obra visível de Menard, na sua ordem cronológica. Passo agora à outra: a subterrânea, a interminavelmente heróica, a ímpar. E também — ai das possibilidades do homem! — a inacabada. Esta obra, talvez a mais significativa do nosso tempo, consta dos capítulos nono e trigésimo oitavo da primeira parte do Dom Quixote e de um fragmento do capítulo vinte e dois. Sei que esta afirmação parece um dislate; justificar este «dislate» é o objectivo primordial desta nota[2].

Dois textos de valor desigual inspiraram a empresa. Um é aquele fragmento filológico de Novalis — o que tem o número 2005 na edição de Dresden — que esboça o tema da total identificação com um autor determinado. Outro é um desses livros parasitários que situam Cristo num bulevar, Hamlet na Cannebière ou Dom Quixote na Wall Street. Como todo o homem de bom gosto, Menard abominava estes carnavais inúteis, só aptos — dizia — para ocasionar o plebeu prazer do anacronismo ou (o que é ainda pior) para nos encantar com a ideia primária de que todas as épocas são iguais ou de que são diferentes. Mais interessante, embora de execução contraditória e superficial, achava ele o famoso propósito de Daudet: conjugar numa figura, que é o Tartarín, o Engenhoso Fidalgo e o seu escudeiro... Quem insinuar que Menard dedicou a sua vida a escrever um Quixote contemporâneo, calunia a sua brilhante memória.

Não queria compor outro Quixote — o que é fácil —, mas «o» Quixote. Não vale a pena acrescentar que nunca encarou a possibilidade de uma transcrição mecânica do original; não se propunha copiá-lo. A sua admirável ambição era produzir umas páginas que coincidissem — palavra por palavra e linha por linha — com as de Miguel de Cervantes.

«O meu propósito é simplesmente espantoso», escreveu-me a 30 de Setembro de 1934 de Bayonne. «O termo final de uma demonstração teológica ou metafísica — o mundo exterior, Deus, a casualidade, as for­mas universais — não é menos anterior e comum que o meu divulgado romance. A única diferença é que os filósofos publicam em agradáveis volumes as fases intermédias do seu labor e eu resolvi que se perdes­sem.» Com efeito, não resta um só rascunho que testemunhe este trabalho de anos.

O método inicial que imaginou era relativamente simples. Conhecer bem o espanhol, recuperar a fé católica, guerrear contra os Mouros ou contra o Turco, esquecer a história da Europa entre os anos de 1602 e de 1918, ser Miguel de Cervantes. Pierre Menard estudou esse procedimen­to (sei que conseguiu um manejo bastante fiel do espanhol do sécu­lo XVII), mas rejeitou-o por fácil. Ou antes, por impossível!, dirá o leitor. De acordo, mas a empresa era de antemão impossível, e de todos os meios impossíveis para a levar a cabo este era o menos interessante. Ser no século xx um romancista popular do século XVII pareceu-lhe uma diminuição. Ser, de algum modo, Cervantes e chegar ao Quixote pareceu­-lhe menos árduo — por conseguinte, menos interessante — do que con­tinuar a ser Pierre Menard e chegar ao Quixote, através das experiências de Pierre Menard. (Esta convicção, diga-se de passagem, fê-lo excluir o prólogo autobiográfico da segunda parte do Dom Quixote. Incluir este prólogo seria criar outra personagem — Cervantes —, mas também si­gnificaria apresentar o Quixote em função dessa personagem e não de Menard. Este, naturalmente, recusou-se a essa facilidade.) «A minha em­presa não é difícil, no essencial», leio noutro local da carta. «Bastar-me­-ia ser imortal para a levar a cabo.» Confessarei que costumo imaginar que ele a terminou e leio o Quixote — todo o Quixote — como se o ti­vesse pensado Menard? Uma noite destas, ao folhear o capítulo XXVI — nunca tentado por ele —, reconheci o estilo do nosso amigo e como que a sua voz nesta frase excepcional: las ninfas de los rios, la dolorosa y húmida Eco. Esta conjunção eficaz de um adjectivo moral e outro físico trouxe-me à memória um verso de Shakespeare, que discutimos uma tarde:

 

Where a malignant and a turbaned Turk...

 

Porquê precisamente o Quixote?, dirá o nosso leitor. Esta preferên­cia, num espanhol, não teria sido inexplicável; mas é-o sem dúvida num simbolista de Nîmes, devoto essencialmente de Poe, que gerou Baudelaire, que gerou Mallarmé, que gerou Valéry, que gerou Edmond Teste. A carta já citada ilumina este ponto. «O Quixote», esclarece Menard, «interessa-me profundamente, mas não me parece, como direi?, inevitá­vel. Não posso imaginar o universo sem a interjeição de Poe:

 

Ah, bear in mind this garden was enchanted!

 

ou sem o Bateau ivre ou o Ancient Mariner, mas sei-me capaz de imagi­ná-lo sem o Quixote. (Falo naturalmente da minha capacidade pessoal, não da ressonância histórica das obras.) O Quixote é um livro contin­gente, o Quixote é desnecessário. Posso premeditar a sua escrita, posso escrevê-lo, sem incorrer numa tautologia. Aos doze ou treze anos li-o, talvez integralmente. Depois reli com atenção alguns capítulos, os que não irei tentar por agora. Estudei igualmente os entremezes, as comédias, A Galateia, as Novelas Exemplares, os trabalhos sem dúvida laboriosos de Persiles e Segismunda e a Viagem do Parnaso... A minha lembrança geral do Quixote, simplificada pelo esquecimento e pela indiferença, pode muito bem equivaler à imprecisa imagem anterior de um livro não escrito. Postulada esta imagem (que ninguém em boa-fé me pode negar) é indiscutível que o meu problema é muito mais difícil que o de Cervan­tes. O meu complacente precursor não recusou a colaboração do acaso: ia compondo a obra imortal um pouco à la diable, levado por inércias da linguagem e da invenção. Eu contraí o misterioso dever de reconstruir li­teralmente a sua obra espontânea. O meu solitário jogo é governado por duas leis polares. A primeira permite-me experimentar variantes de tipo formal ou psicológico; a segunda obriga-me a sacrificá-las ao texto "ori­ginal" e a raciocinar de um modo irrefutável essa anulação... A estes en­traves artificiais tem de se juntar outro, congénito. Compor o Quixote nos princípios do século XVII era uma empresa razoável, necessária, por­ventura até fatal; nos princípios do xx, é quase impossível. Não foi em vão que transcorreram trezentos anos, carregados de complexíssimos factos. Entre os quais, para mencionar um único: o próprio Quixote.»

Apesar destes três obstáculos, o fragmentário Quixote de Menard é mais subtil que o de Cervantes. Este, de um modo grosseiro, opõe às fic­ções cavaleirescas a pobre realidade provinciana do seu país; Menard es­colhe como «realidade» a terra de Carmen durante o século de Lepanto e de Lope. Que espanholadas não teria aconselhado essa opção a Mauri­ce Barrès ou do doutor Rodríguez Larreta! Menard, com toda a naturali­dade, evita-as. Na sua obra não há nem ciganadas, nem conquistadores, nem místicos, nem Filipe II, nem autos-de-fé. Desatende ou proscreve a cor local. Este desdém indica um sentido novo do romance histórico. Este desdém condena Salambo, inapelavelmente.

Não menos assombroso é considerar capítulos isolados. Por exem­plo, consideremos o XXXVIII da primeira parte, «que trata do curioso discurso que fez Dom Quixote das armas e das letras». É sabido que Dom Quixote (tal como Quevedo na passagem análoga, e posterior, de La hora de todos) falha o pleito contra as letras e a favor das armas. Cer­vantes era um velho militar: a sua falha explica-se. Mas que o Dom Qui­xote de Pierre Menard — homem contemporâneo de La trahison des clercs e de Bertrand Russell — reincida nesses nebulosos sofismas! Ma­dame Bachelier viu nelas uma admirável e típica subordinação do autor à psicologia do herói; outros (nada perspicazmente) uma transcrição do Quixote; a baronesa de Bacourt, a influência de Nietzsche. A esta tercei­ra interpretação (que julgo irrefutável) não sei se me atreverei a acrescen­tar uma quarta, que condiz muito bem com a quase divina modéstia de Pierre Menard: o seu hábito resignado ou heróico de propagar ideias que eram o rigoroso reverso das preferidas por ele. (Relembremos outra vez a sua diatribe contra Paul Valéry na efémera folhinha super-realista de Jacques Reboul.) O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico. (Mais ambí­guo, dirão os seus detractores; mas a ambiguidade é uma riqueza.)

É uma revelação cotejar o Dom Quixote de Menard com o de Cer­vantes. Este, por exemplo, escreveu (Dom Quixote, primeira parte, nono capítulo):

 

«... la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir[3]

 

Redigida no século XVII, redigida pelo «engenho leigo» Cervantes, es­ta enumeração é um simples elogio retórico da História. Menard, em contrapartida, escreve:

 

«... la verdad, cuya madre es la historia, émula del tiempo, depósito de las acciones, testigo de lo pasado, ejemplo y aviso de lo presente, advertencia de lo por venir.»

A história, mãe da verdade: a ideia é espantosa. Menard, contem­porâneo de William James, não define a história como uma investigação da realidade, mas sim como a sua origem. A verdade histórica, para ele, não é o que aconteceu; é o que julgamos que aconteceu. As cláusulas fi­nais — «exemplo e aviso do presente, advertência do porvir» — são desafrontadamente pragmáticas.

Também é vivo o contraste dos estilos. O estilo arcaizante de Menard — estrangeiro mesmo — sofre de uma certa afectação. Não sucede o mesmo com o do precursor, que maneja com desenvoltura o espanhol corrente da sua época.

Não há exercício intelectual que por fim não seja inútil. Uma doutri­na filosófica ao princípio é uma descrição verosímil do universo; passam os anos e é um simples capítulo — quando não um parágrafo ou um no­me — da história da filosofia. Na literatura, esta capacidade final é ainda mais notória. O Quixote — disse-me Menard — foi acima de tudo um livro agradável; agora é uma ocasião de brindes patrióticos, de soberba gramatical, de obscenas edições de luxo. A glória é uma incompreensão, e quiçá a pior.

Nada têm de novo estas comprovações niilistas; o singular é a deci­são que delas fez derivar Pierre Menard. Resolveu adiantar-se à vacuida­de que aguarda todas as fadigas do homem; lançou-se numa empresa complexíssima e de antemão fútil. Dedicou os seus escrúpulos e vigílias a repetir num idioma alheio um livro preexistente. Multiplicou os rascu­nhos; corrigiu tenazmente e rasgou milhares de páginas manuscritas[4]. Não permitiu que fossem analisadas por ninguém e cuidou para que não lhe sobrevivessem. Em vão procurei reconstituí-las.

Reflecti que é lícito ver no Quixote «final» uma espécie de palimpses­to, em que deverão transparecer os vestígios — ténues, mas não indeci­fráveis — da «prévia» escrita do nosso amigo. Infelizmente, só um se­gundo Pierre Menard, invertendo o trabalho do anterior, poderia vir a exumar e ressuscitar essas Tróias...

«Pensar, analisar, inventar (escreveu-me também) não são actos anómalos, são a normal respiração da inteligência. Glorificar o ocasional cumprimento dessa função, entesourar antigos e alheios pensamentos, recordar com ingénua estupefacção o que o doctor universalis pensou, é confessar a nossa fraqueza de espírito ou a nossa barbárie. Todo o homem tem de ser capaz de todas as ideias e entendo que no porvir o será.»

Menard (porventura sem querer) enriqueceu por meio de uma técnica nova a arte estagnada e rudimentar da leitura: a técnica do anacronismo deliberado e das atribuições erróneas. Esta técnica de aplicação infinita insta-nos a percorrer a Odisseia como se fosse posterior à Eneida e o li­vro Le jardin du Centaure de Madame Henri Bachelier como se fosse de Madame Henri Bachelier. Esta técnica povoa de aventura os livros mais calmosos. Atribuir a Louis Ferdinand Céline ou a James Joyce A Imita­ção de Cristo, não é uma suficiente renovação desses ténues avisos espiri­tuais?

Nîmes, 1939.


 


 

[1] Madame Henri Bachelier enumera igualmente uma versão literal da versão literal que fez Quevedo da Introduction à la vie dévote de São Francisco de Sales. Na biblioteca de Pierre Menard não há vestígios de tal obra. Deve tratar-se de uma piada do nosso amigo, mal ouvida.

 

[2] Tive também o propósito secundário de esboçar o retrato de Pierre Menard. Porém, como posso ousar competir com as páginas áureas que me dizem que prepara a baronesa de Bacoun ou com o lápis delicado e pontual de Carolus Hourcade?

 

[3] «…a verdade, cuja mãe é a história, émula do tempo, depósito das acções, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do porvir».

[4] Lembro-me dos seus cadernos quadriculados, das sua negras rasuras, dos seus peculiares símbolos tipográficos e da sua letra de insecto. Ao pôr do Sol gostava de sair a passear pelos redores de Nîmes; costumava levar consigo um caderno e fazer uma alegre fogueira.