Introdução

 

 

 

A visão de Sartre sobre a poesia e prosa e a sua relação com a militância, a sua visão sobre o engajamento e a ética na sua literatura são a proposta deste texto, que utiliza como base os livros O Que é Literatura e Náusea.

 

 

 

A prosa como engajamento

 

 

 

Para Jean-Paul Sartre a literatura tem alguma função social e a prosa é engajamento. Ele considera a literatura comprometida, afirmando que o elo formado pela ligação entre o escritor e a sociedade seria a literatura.

 

 

 

Esta relação literatura-realidade acaba criando um problema, pois relacionar a literatura a uma função social significa criar para ela uma referência, um referente.

 

 

 

Em sua obra Que é a Literatura? Sartre, no primeiro capítulo denominado Que é escrever? afirma que a literatura é a rigor "comprometida", uma vez que o escritor lida com significados, isto é, com palavras-signos. Para Sartre, a finalidade da linguagem é comunicar, sendo ela um instrumento, onde o prosador pode utilizar as palavras, se aproveitar delas para designar, recusar, persuadir, demonstrar, insinuar... e que, "na e pela linguagem, concebida como espécie de instrumento, que se opera a busca da verdade..." e é na e pela linguagem que nós entendemos, criamos o mundo, a realidade.

 

 

 

Sartre afirma neste capítulo que “o escritor, ao contrário, lida com os significados. Mas cabe distinguir: o império dos signos é a prosa: a poesia está lado a lado com a pintura, a escultura, a música.” Para ele, os poetas não falam e nem se calam, que o poeta se afastou por completo da linguagem-instrumento; escolheu de uma vez por todas a atitude poética que considera as palavras como coisas e não como signos. Pois a ambigüidade do signo implica que se possa, a seu bel-prazer, atravessá-lo como a uma vidraça, e visar através dele a coisa significada, ou voltar o olhar para a realidade do signo e considerá-lo como objeto. Ele afirma que o homem que fala está além das palavras, perto do objeto; o poeta está aquém, e que para o primeiro, as palavras são domésticas, enquanto que para o segundo, permanecem no estado selvagem. Ele ainda afirma que para o poeta, a linguagem é uma estrutura do mundo exterior, que falante está em situação na linguagem, investindo pelas palavras; são os prolongamentos de seus sentidos, suas pinças, suas antenas, seus óculos; ele as manipula a partir de dentro, sente-as como sente seu corpo, está rodeado por um corpo verbal do qual mal tem consciência e que entende sua ação sobre o mundo.

 

 

 

Para ele, o poeta está fora da linguagem, vendo as palavras do avesso, como se não pertencesse à condição humana, e, ao dirigir-se aos homens, logo encontrasse a palavra como uma barreira. Em vez de conhecer as coisas antes por seus nomes, parece que tem com elas um primeiro contato silencioso e, em seguida, voltando-se para essa outra espécie de coisas que são, para ele, as palavras, tocando-as, tateando-as, palpando-as, nela descobre uma pequena luminosidade própria e afinidades particulares com a terra, o céu, a água e todas as coisas criadas. Não sabendo servir-se da palavra como signo de um aspecto do mundo, vê nela a imagem de um desses aspectos. E a imagem verbal que ele escolhe por sua semelhança com o salgueiro ou o freixo não é necessariamente a palavra que nós utilizamos para designar esses objetos.

 

 

 

Para Sartre, a linguagem inteira é o Espelho do mundo. Sua sonoridade, sua extensão, sua desinência masculina ou feminina, seu aspecto visual, tudo isso junto compõe para ele um rosto carnal, que antes representa do que expressa o significado, estabelecendo-se, entre a palavra e a coisa significada, uma dupla relação recíproca de semelhança mágica e de significado.

 

 

 

E, à medida que o prosador expõe sentimentos, ele os esclarece; o poeta, ao contrário, quando vaza suas paixões em seu poema, deixa de reconhecê-las; as palavras se apoderam delas, ficam impregnadas por elas e as metamorfoseiam; não as significam, mesmo aos seus olhos. A emoção se tornou coisa, passou a ter a opacidade das coisas; é turvada pelas propriedades ambíguas dos vocábulos em que foi confinada.

 

 

 

Ele ainda afirma que a arte da prosa se exerce sobre o discurso, e que sua matéria é naturalmente significante, que as palavras não são, de início, objetos, mas designações de objetos, e que não se trata de saber se elas agradam ou desagradam por si próprias, mas sim se indicam corretamente determinada coisa do mundo ou determinada noção. Assim, acontece com freqüência que nos encontremos de posse de determinada idéia que nos foi comunicada por palavras, sem que possamos lembrar de uma só das palavras que a transmitiram. Para ele, a prosa é antes de mais nada uma atitude do espírito; há prosa quando nosso olhar atravessa a palavra como sol ao vidro.

 

 

 

Sartre ainda afirma no capítulo Que é Escrever que “Assim a linguagem: ela é nossa carapaça e nossas antenas, protege-nos contra os outros e informa-nos a respeito deles, é um prolongamento dos nossos sentidos. Estamos na linguagem como em nosso corpo; nós a sentimos espontaneamente ultrapassando-a em direção a outros fins, tal como sentimos as nossas mãos e os nossos pés; percebemos a linguagem quando é o outro que a emprega, assim como percebemos os membros alheios. Existe a palavra vivida e a palavra encontrada. Mas nos dois casos isso se dá no curso de uma atividade, seja de mim sobre os outros, seja do outro sobre mim. A fala é um dado momento particular da ação e não se compreende fora dela.”.

 

 

 

Assim, para ele, um escritor é uma empreitada, uma vez que os escritores estão vivos, antes de morrerem, uma vez que pensamos ser preciso acertar em nossos livros, e que, mesmo que mais tarde os séculos nos contradigam, isso não é motivo para nos refutarem por antecipação, uma vez que acreditamos que o escritor deve engajar-se inteiramente nas suas obras, e não como uma passividade abjeta, colocando em primeiro plano os seus vícios, as suas desventuras e as suas fraquezas, mas sim como uma vontade decidida, como uma escolha, com esse total emprenho em viver que constitui cada um de nós.

 

 

 

Para Sartre, a prosa utiliza as palavras como instrumentos convencionais destinados a significar, falar e agir. E quando transformada em ação, a palavra utilizada por um escritor engajado se relaciona à mudança e à revelação. Para ele, escrever seria "desvendar o mundo e especialmente o homem para os outros homens, a fim de que estes assumam em face do objeto, assim posto nu, a sua inteira responsabilidade".

 

 

 

Sartre liga sua prosa à realidade através do comprometimento social, transformando o ato de escrita em uma experiência de desvendamento de si e do mundo para o leitor. Para ele, o ato criador é um "momento incompleto e abstrato", onde produtor e receptor se cruzam, dialogam, tendo o leitor um papel importante na configuração do sentido de uma obra.

 

 

 

Na concepção de Sartre, a literatura "comprometida" está relacionada à prosa, enquanto que a poesia está mais voltada para a beleza estética e a forma, priorizando a forma em detrimento do conteúdo, ocorrendo exatamente o oposto na prosa, chegando a afirmar que "ninguém é escritor por haver decidido dizer certas coisas, mas por haver decidido dizê-las de determinando modo. E o estilo decerto, é o que determina o valor da prosa. Mas ele deve passar despercebido".

 

 

 

Para Sartre "falar é agir; uma coisa nomeada não é mais inteiramente a mesma, perdeu a sua inocência. Nomeando a conduta de um indivíduo, nós a revelamos a ele; ele se vê [...] Assim, o prosador é um homem que escolheu determinado modo de ação por desvendamento. Que aspecto do mundo você quer desvendar, que mudanças quer trazer ao mundo por esse desvendamento?"

 

 

 

Na concepção de Sartre, o discurso mimético seria aquele que busca significados que o receptor dá conforme a sua posição histórica, em outras palavras, o significado dado pelo receptor estará envolto nas representações sociais a seu dispor.

 

 

 

É preciso salientar que o significado buscado não se dará apenas no leitor, mas principalmente nele, não prescindindo o produtor, mas o significado emprestado por este sofrerá modificações ao ser confrontado com os parâmetros culturais do receptor, que são representações sociais. Se o receptor chega ao seu desvendamento ou desvenda o mundo é porque ao ler a obra seus parâmetros culturais articulam-se com os da obra resultando na negação ou reconhecimento das representações que dispõe. Sartre afirma que "... o objeto literário é um estranho pião, que só existe em movimento. Para fazê-lo surgir é necessário um ato concreto que se chama leitura..."; o leitor é também o ponto nodal no processo de significação da obra "...o autor o guia, mas somente isso; as balizas que colocou estão separadas por vazios, é preciso interligá-las, é preciso ir além delas. Em resumo, a leitura é criação dirigida. De fato, por um objeto literário não tem outra substância a não ser a subjetividade do leitor".

 

 

 

A relação que o escritor estabelece com a realidade é bem diferente da que Sartre empresta ao escritor “engajado”. Articular a literatura com uma função social é de uma certa forma reproduzir a realidade.

 

 

 

A visão de Sartre não deve ser considerada totalmente equivocada ao afirmar que um desvendamento do homem acontece no processo da leitura. Sistemas de representação são confrontados, dialogam, e uma diferença é produzida. Nem sempre, contudo, paralelamente ao ato de desvendar ocorre uma mudança. O leitor é o ponto nodal da concretização da obra uma vez que a criação só pode encontrar sua realização final na leitura, uma vez que o artista deve confiar a outrem a tarefa de completar aquilo que iniciou, uma vez que só através da consciência do leitor que ele pode perceber-se como essencial à obra, toda obra literária é um apelo. Para Sartre, escrever é apelar ao leitor para que este faça passar à existência objetiva o desvendamento que empreendi por meio da linguagem.

 

 

 

Sartre pode encontrar uma literatura “comprometida”, porém não intencionada pelo escritor, mas desvendada pelo leitor, defendendo assim a sua visão de uma escrita “engajada”.

 

 

 

A relação entre ética e literatura em Sartre

 

 

 

Segundo Franklin Leopoldo e Silva, em Ética e Literatura em Sartre, “É angustiante pensar que o que somos se constitui fora de nós, na contingência das coisas e da história”. É o fim da consciência de si mesmo e do mundo que o cerca, momento este em que o “eu” deixa de existir.

 

 

 

Franklin Leopoldo e Silva afirma que Roquentin (personagem criado por Sartre para ilustrar esta descoberta do “nada” das coisas no livro A Náusea) passa por este momento, ao “descobrir que a presença das coisas é o único modo de existência destas”, desta forma, ao tentar transpor as aparências das coisas e enxergar um outro modo de existência destas, ou seja, uma forma que fuja à aparência do presente, descobre que a única maneira de fazer isto seria imaginar o “nada”, pois as coisas são inteiramente aquilo que parecem ser e por trás delas não há nada. Antoine Roquentim, o protagonista de A náusea, é um historiador que se refugia na província de Bouville para escrever a biografia do marquês de Rollebon, porém é permanentemente tomado pela sensação de náusea que provoca nele uma ruptura consciente com os outros e com o mundo. Ao desistir de escrever o livro sobre a vida do marquês de Rollebon, objeto de suas pesquisas e única fonte de inspiração para sua vivência naquele momento, “Não esquecer que o Sr. De Rollebon representa hoje em dia a única justificativa de minha existência”, Roquentin sentiu que este havia morrido e com ele todo o sentido de sua existência. Essa associação tão singular entre o marquês e Roquentin é de tal forma complexa que “a consciência de Roquentin visa o marquês não como um outro, ou como uma criação, mas como um outro si mesmo”. A existência do marquês mostra ser para o personagem Roquentim, mais real do que as pessoas que o cercavam, embora sua presença não fosse imposta, pois fora Roquentin que o invocara, ele desempenhava um papel fundamental em sua vida, “O senhor de Rollebon era o meu sócio, tinha precisão de mim para ser e eu tinha precisão dele para não sentir o meu ser”.

 

 

 

Ele também destaca que o personagem Roquentin, embora demonstre em algum momento este mesmo desejo: “Pensava vagamente em me suprimir, para aniquilar ao menos uma dessas existências supérfluas”, tem a percepção de que tudo que o cerca se lhe apresenta como “demais”, incluindo sua própria existência, no entanto, mesmo o suicídio resulta para ele como injustificável, uma vez que, em sua concepção, isto também seria demais, “Mas até mesmo minha morte teria sido demais... eu era demais para a eternidade”. Mas qual foi a forma encontrada pelo personagem de Sartre para lidar com a náusea? Há uma sugestão de que a literatura em si seria a forma encontrada por Sartre para subjugar a náusea, “algo que não existe, que estaria acima da existência. Uma história, por exemplo,como as que não podem acontecer, uma aventura”, segundo Gerd Bornhein, esta solução é apenas momentânea pois a arte seria apenas um artifício que não chegaria a figurar uma saída para a condição humana, pois esta saída, se é que ela existe, deveria coincidir com a assunção do homem, “A rigor, porém, o problema fica em suspenso, e o livro termina com um talvez”

 

 

 

Essa percepção do tempo, que se escoa lentamente, é também simbolizada pela náusea, no entanto a música funciona para Roquentin como uma espécie de remédio momentâneo que integra o passado ao presente, fazendo com que a náusea desapareça, “tão forte é a necessidade desta música: nada pode interrompê-la, nada desse tempo em que o mundo se afundou; a música cessará por si própria no momento preciso”. A existência ou a inexistência do ser e das coisas é definida unicamente através do tempo, pois se o passado já não existe, o futuro ainda não existe e o presente é a simples transição entre ambos, apreendê-lo seria impossível.

 

 

 

Filiado à categoria da prosa por Sartre, o romance tem as peculiaridades que o demarcam como um gênero que se serve das palavras para designar objetos, comunicá-los, colocá-los em atividade. O romance não é poesia; nesta, a palavra é o próprio objeto do escritor. Com efeito, a atitude do espírito, na prosa, não se limita à contemplação ou a criação poética de objetos, a sua empresa é de outro alcance por se tratar de desvendar o mundo, ao narrar e nomear a conduta de um indivíduo (a personagem), o escritor revela-a a ele, demonstra sua objetivação e, assim, oferece a este indivíduo a possibilidade de posicionar-se acerca de sua própria conduta, de desvendar a si mesmo e ao mundo, tornando-o responsável pelos dois.

 

 

 

Porém, Sartre é cuidadoso em evitar uma visão unilateral do desvendamento; não é apenas o escritor que desvenda, o leitor também é agente em tal desvendar; é preciso que o leitor invente tudo, num perpétuo ir além da escrita. Sem dúvida, o autor, o guia, mas somente isso; as balizas que colocou estão separadas por espaços vazios, é preciso interligá-las, é preciso ir além delas. Em resumo, a leitura é criação dirigida.

 

 

 

A existência do objeto literário é conferida também pela subjetividade do leitor. Portanto, como o objeto literário depende de uma dialética autor-leitor, de um pacto de generosidade entre ambos, a simples leitura mecânica não significa um desvendamento do mundo; isto é, trata-se também de um “apelo à liberdade do leitor” e a dependência desta liberdade.

 

 

 

Pelo fato de a liberdade do autor assumir a leitura do romance, ele ganha um valor especial enquanto o leitor lhe confere um significado, sendo o objetivo da arte para Sartre que fato do leitor notar a sua totalidade enquanto se torna a medida em que lê, designando, desvendando e reconhecendo sua totalidade.

 

 

 

A articulação entre a ética e a literatura é de fundamental importância em Sartre, já que a totalidade precisa ser conquistada, e a prosa vinculando as duas por uma personagem que tem a potência de desvendar o mundo, o que resta a saber é o quê e como desvendá-lo.