1- INTRODUÇÃO

 

 

 

 

O período escolhido por mim para o levantamento de literatura de apoio de nossa biblioteca e para o comentário de um dos livros de seu movimento é a Filosofia francesa do século XX. O livro escolhido foi "Esboço de uma teoria das emoções" escrito por Jean-Paul Sartre em 1939.

 

A obra pretende, a partir da fenomenologia de Husserl, apresentar as contradições que cai a teoria psicoanalítica.

 

A psicologia tem uma noção do homem plenamente empírica. Trabalha, portanto, com recursos extraídos da experiência. A proposta fenomenológica, no entanto, adverte que toda a psicologia não pode ficar nos estudos dos feitos; deve ir mais além, estudando as essências. A emoção, por isso, não pode ser um mero acidente.

 

Desta maneira, Sartre, baseando-se também em reflexões de Heidegger, crê que ao falar da realidade humana não devemos esquecer que essa realidade é nós mesmos. O ente que o psicólogo estuda é o seu próprio; seu ser. Sem uma antropologia fenomenológica, a psicologia não se preocupará daquilo que se mostra por si mesmo que, na realidade, é a aparência. E, na aparência, é de onde ocorre a significação. Significar é indicar outra coisa e indicar para que, ao desenvolver a significação, se busque o significado. Como veremos logo mais, a emoção significa o todo da consciência e, de alguma maneira, o todo da realidade humana.

 

 

 

2- LIVROS DE FILOSOFIA FRANCESA DO SÉCULO XX ENCONTRADOS NA BIBLIOTECA DA UERJ

 

 

 

Procurei focalizar nas obras dos autores da época, ignorando comentaristas e antologias sobre os mesmos, da mesma forma que os livros literários e não-filosóficos escritos pelos autores também ficaram de fora. Outra condição foi ter a tradução em português do livro.

 

 

 

  • BACHELARD, Gaston. O Novo Espírito Científico. 1934

  • BACHELARD, Gaston. A Formação do Espírito Científico. 1938

  • BACHELARD, Gaston. A Psicanálise do Fogo. 1938

  • BACHELARD, Gaston. A Filosofia do Não: A Filosofia do Novo Espírito Científico. 1940

  • BACHELARD, Gaston. O Ar e os Sonhos. 1943

  • BACHELARD, Gaston. A Terra e os Devaneios da Vontade. 1948

  • BACHELARD, Gaston. O Racionalismo Aplicado. 1949

  • BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. 1958

  • BACHELARD, Gaston. A Poética do Devaneio. 1960

  • BACHELARD, Gaston. A Chama de uma Vela. 1961

  • SARTRE, Jean-Paul. A Imaginação. 1936

  • SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. 1943

  • SARTRE, Jean-Paul. Situations. 1947-1965

  • SARTRE, Jean-Paul. Crítica da Razão Dialética. 1960

  • SARTRE, Jean-Paul. As Palavras. 1964

  • MERLEAU-PONTY, Maurice. A Estrutura do Comportamento. 1942

  • MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. 1945

  • MERLEAU-PONTY, Maurice. Humanismo e Terror. 1947

  • MERLEAU-PONTY, Maurice. Sinais. 1960

  • MERLEAU-PONTY, Maurice. O Olho e o Espírito. 1961

  • MERLEAU-PONTY, Maurice. O Visível e o Invisível. 1964

  • CANGUILHEM, Georges. O Normal e o Patológico. 1943

  • CANGUILHEM, Georges. Ideologia e Racionalidade nas Ciências da Vida. 1977

  • MOUNIER, Emmanuel. O Personalismo. 1950

  • FOUCAULT, Michel. Doença Mental e Pscicologia. 1954

  • FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica. 1961

  • FOUCAULT, Michel. O Nascimento da Clínica. 1963

  • FOUCAULT, Michel. Raymond Russel. 1963

  • FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas. 1966

  • FOUCAULT, Michel. Arqueologia do Saber. 1969

  • FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. 1970

  • FOUCAULT, Michel. A Verdade e as Formas Jurídicas. 1973

  • FOUCAULT, Michel. Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe... 1973

  • FOUCAULT, Michel. Isto Não é um Cachimbo. 1973

  • FOUCAULT, Michel. O Poder Psiquiátrico. 1973-1974

  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 1975

  • FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. 1975-1976

  • FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade. 1976-1984

  • FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 1979

  • FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. 1981-1982

  • LYOTARD, Jean-François. A Fenomenologia. 1954

  • LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-Moderna. 1979

  • LYOTARD, Jean-François. O Inumano. 1978

  • LYOTARD, Jean-François. O Pós-Moderno. 1986

  • LYOTARD, Jean-François. Lições Sobre a Analítica do Sublime. 1991

  • BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. 1949

  • BEAUVOIR, Simone de. A Velhice. 1970

  • BEAUVOIR, Simone de. A Cerimônia do Adeus. 1981

  • DELEUZE, Gilles. Proust e os Signos. 1964

  • DELEUZE, Gilles. Nietzsche e a Filosofia. 1965

  • DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. 1966

  • DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. 1968

  • DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. 1969

  • DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O Anti-Édipo. 1972

  • DELEUZE, Gilles & PARNET, Claire. Diálogos. 1977

  • DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Mil Platôs. 1980

  • DELEUZE, Gilles. Francis Bacon: Lógica da Sensação. 1981

  • DELEUZE, Gilles. Foucault. 1982

  • DELEUZE, Gilles. A Imagem-tempo. 1985

  • DELEUZE, Gilles. A Dobra: Leibniz e o Barroco. 1988

  • DELEUZE, Gilles. Conversações. 1990

  • DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. O Que é a Filosofia?. 1991

  • DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. 1993

  • ALTHUSSER, Louis. A Favor de Marx. 1965

  • ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos do Estado. 1968

  • ALTHUSSER, Louis. Ler o Capital. 1968

  • ALTHUSSER, Louis. Posições. 1976

  • ALTHUSSER, Louis. O Futuro Dura Muito Tempo. 1992

  • DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. 1967

  • DERRIDA, Jacques. Gramatologia. 1967

  • DERRIDA, Jacques. A Voz e o Fenômeno. 1967

  • DERRIDA, Jacques. Margens da Filosofia. 1972

  • DERRIDA, Jacques. Posições. 1972

  • DERRIDA, Jacques. A Escritura e a Diferença. 1979

  • DERRIDA, Jacques. Do Espírito. 1987

  • DERRIDA, Jacques. Espectros de Marx. 1993

  • DERRIDA, Jacques. Mal de Arquivo: Uma Impressão Freudiana. 1995

  • DERRIDA, Jacques. A Farmácia de Platão. 1997

  • DERRIDA, Jacques. De que Amanhã... 2004

  • ALQUIÉ, Ferdinand. Significação da Filosofia. 1971

 

 

 

 

 

3- PSICOLOGIA E FENOMENOLOGIA

 

 

 

Como vimos na introdução, Sartre crê que a psicologia tradicional se equivoca ao estudar o homem e seus atos numa perspectiva unicamente empírica. O psicólogo vê o homem como algo longe de si, como um acidente, como uma ação da experiência. No entanto, o psicólogo tradicional utiliza, também, a experiência reflexiva, esse conhecimento intuitivo que temos de nós mesmos.

 

O principal problema, então, é que o psicólogo não se preocupa em averiguar o objeto do estudo. Quem é o homem? Que importância tem estudar um homem se eu, também sou um?

 

O trabalho da psicologia torna-se, portanto, um simples acúmulo de conhecimentos sobre acidentes. Sem preocupar-se pelas essências, o conhecimento contingente, a desordem. A soma dos casos não dá como resultado nenhuma essência.

 

Se o psicólogo não se pergunta pelas condições de possibilidade de uma emoção, porque crê que a emoção simplesmente é por si só, o psicólogo fenomenológico se perguntará, para estudar o homem, o conceito a priori de homem. Além disso, o psicólogo tradicional deixa de lado que o homem atua ante seu mundo, não separadamente. Assim, antes de estudar os feitos de determinados homens, devemos prestar atenção ao pressuposto do homem, por um lado, e do mundo, por outro.

 

A estratégia a seguir, deve ser a redução fenomenológica. Se trata de por o mundo entre parenteses. Husserl, nas cinco conferência de Gotinga realizadas em maio de 1907, já mostra uma intenção de transformar a psicologia descritiva em uma fenomenologia transcendental. Tenta ver radicalmente, apostando num objetivismo real frente a todo subjetivismo, psicologismo ou naturalismo. Não estuda nem as coisas nem suas representações. Se ocupa, definitivamente, de um terceiro reino; o reino das essências. Entende, deste modo, a consciência como uma vivência intencional e, assim, todas as experiências referidas ao mundo atual ficam suspendidas. A redução eidética, e mais tarde, redução transcendental, são necessárias para chegar ao eu-transcendental.

 

Sartre, como veremos, não aposta por uma fenomenologia pura para fundar uma nova psicologia. Mas, sim, o eco do pensamento husserliano está em todo o Esboço.

 

Também há inevitáveis referências a Heidegger. Da leitura de sua obra "O Ser e o Tempo", Sartre reflexiona sobre como o ser de um é seu próprio ser. Assim, a realidade humana é eu mesmo, e separar a compreensão do seu próprio ser é estúpido.

 

O que Sartre nos expõem, ante as teorias clássicas da psicologia é que o estudo do homem, desde o homem, há de ser feita numa antropologia que busque as essência e que se pergunta, em primeira instância, pelas aparências, para assim, buscar a significação da emoção.

 

Se significar é indicar outra coisa e encontrar seu significado, as teorias psicoanalíticas são as primeiras em ver algo mais na conduta, no feito. Mas, então, no que se equivoca a psico-análise?

 

 

 

 

 

4- PSICANÁLISE E FENOMENOLOGIA

 

 

 

Sartre faz um breve revisão das teorias tradicionais da psicologia. Como explicamos anteriormente, todas as teorias fraquejam, de uma maneira ou outra, em maior ou menor intensidade, na hora de preocupar-se pelos fatos e não pelas essências. Além disso o psicólogo não deve estudar o homem como algo diferente dele mesmo, já que a emoção, de alguma forma, é o todo da consciência, da realidade humana. Assim, tanto a teoria fisiológica de James, a teoria da conduta de Janet e as teorias da emoção-forma funcional, parecem insuficientes. No entanto, a teoria psicoanalítica quê no feito algo a mais, não como um simples acidente. Todo estado de consciência vale por algo que não é. Há significação. Mas, aonde situa-se na psicoanálise essa significação?

 

A significação da emoção é funcional, por definição. Mas a tese psicoanalítica concebe o fenômeno consciente como a realização simbólica de um desejo reprimido. No entanto, este desejo não se encontra dentro da realização simbólica. Ou seja, aqui vemos a grande contradição na teoria psicoanalítica: a significação do comportamento consciente está fora de si mesmo; o significado está completamente destituído da significante.

 

Por esse motivo, vemos como a consciência, vista pela psicoanálise, é tratada como se fosse uma pedra. A consciência se constitui em significação sem ter consciência disso. A consciência se constitui em significação sem ser consciente disso. A tese o filósofo francês aponta, então, que a consciência não deve interrogar-se de fora. A consciência, por assim dizer, é consciente de si mesma. É, então, ela mesma.

 

Mais tarde, Sartre nos dirá que o psicoanalista não crê que o símbolo é realmente um curso exterior ao fato de consciência. Mas se faz consciência, se constitui como tal, de maneira simbolizadora, se cai, de novo, na relação causal entre o significante e o significado. É, outra vez, uma contradição. Enquanto o teórico da psicoanálise vai buscando nexos casuais que expliquem o significado de determinados feitos, o psicoanalista que exerce na prática deve buscar resultados em termos de compreensão. Ou seja, em cada caso, a relação entre símbolo e simbolização é diferente. Não se pode afirmar que todas as vezes que se sonhe com A, se deseje B.

 

A causalidade do teórico é muito parecida com a causalidade do psicólogo tradicional. Por isso, Sartre ataca a psicoanálise, por que apesar de aceitar que em todo fenômeno exista significação, tenta explicá-la através de meros jogos causais. Ou seja, aceita que a emoção não é um acidente, mas a explicação segue sendo linear, simples, buscando a significação da consciência fora dela mesma

 

A proposta do filósofo existencialista é, a partir de então, descrever a emoção através de uma teoria fenomenológica, que não cairá nas contradições da psicoanálise. A causalidade não tem lugar aqui. O objeto emocionado e o objeto emocionante estão unidos. Se trata, portanto, de uma forma de apreender o mundo.

 

 

 

5- EMOÇÃO E FENOMENOLOGIA

 

 

 

A conduta é irreflexiva. Não é consciente. É consciente de si mesma porque se transcende e apreende o mundo. A consciência transforma-se em si mesma para transformar o mundo.

 

Mas a emoção, vista pelo paradigma fenomenológico de Sartre, deve ser um jogo em que acreditamos. É um ato de crença. A emoção, nos dirá, é inata. A consciência não só cria um mundo, o transforma, mas também faz viver nele a partir de então. Assim, cai em sua própria armadilha. Cria um mundo e acredita nele. Vive em um lugar que ela mesma inventou, mudou. A sensibilidade é, portanto, um "ser-no-mundo".

 

Pôr ênfase no fato de que a sensibilidade é irreflexiva é, claramente, uma intenção, outra vez, de desvincular-se da tradição psicológica. A consciência da emoção não se fecha em si mesma, mas se nutre do objeto, o transforma, apreende dele. Por estes motivos, quem afirma que a consciência é o caminho do mundo para nós, está equivocado.

 

Portanto, a emoção é a transformação do mundo. É atuar ante o mundo, mudando-o, fazendo de um mundo determinista um mundo mágico. A aparição da magia não é trivial, tem a ver com a importância da crença que já explicamos.

 

Então, o homem social é um homem mágico que olha o mundo, o interpreta e, quando necessário, o muda. Ainda atua, sempre, de maneira irreflexiva com uma consciência que tem o significado e o significante dentro de si, em constante relação com o mundo ao que se dirige.

 

Mas a emoção não é eficaz no sentido estrito. Não muda a realidade do objeto, senão a consciência dele. O medo, por exemplo, nega um mundo exterior hostil e, se for necessário, cria um novo mundo que se crê imediatamente. Sartre diz que o universo é monótono até o abismo. Por isso, buscamos um refúgio em qualquer canto que nos pareça mais diferenciado da indiferença do universo.

 

O corpo, por outro lado, é um meio pelo qual as alegrias e os temores participam da magia do mundo. Nosso corpo é o instrumento para que a emoção crie novos mundos, para que acreditemos neles cegamente.

 

A emoção, inclusive, não pode ser controlada. É inata, como dissemos. Se acreditamos no mundo que transformamos, a emoção se esgota por si só, mas não porque decidimos.

 

Para terminar, temos que voltar a dizer que a consciência, ao acreditar no mundo criado, se faz cativa de si mesma. É seu próprio engano. Assim, a emoção tende, de maneira natural, a perpetuar-se no mundo, porque acredita e se vê dentro dele. A consciência, por fim, intensifica sua emoção, a faz mais forte. Por isso, Sartre diz que “quanto mais se foge, mais medo se tem”.